A Morte da Luz, George R. R. Martin, tradução de Marcia Blasques, 1ª edição, São Paulo-SP: Leya, 2012, 336 páginas.
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O que esperar de um livro que começa complexo e que causa certa estranheza ao leitor, que ainda desconhece o mundo fictício criado pela mente de um escritor? Muitos podem imaginar que a leitura se arrastará e inclusive será cansativa, algo natural em determinados casos. E isso de fato pode acontecer, mas não por muito tempo.
Publicado originalmente em 1977, A Morte da Luz é o primeiro livro do escritor George R. R. Martin, que provavelmente na época não imaginava que se tornaria um dos mais aclamados escritores do mundo. Conhecido principalmente pela série As Crônicas de Gelo e Fogo, Martin é considerado por muitos um verdadeiro gênio, o que pode ser comprovado com a leitura da sua obra de estreia, mesmo que no início pareça estranho alguém amar a complexidade criada por ele.
Essa história complexa se inicia com a apresentação de Worlorn, um planeta errante de características singulares e que, após se aproximar de um sistema solar e novamente ganhar vida, volta a seguir seu caminho lentamente rumo à morte. Porém, durante os anos em que esteve habitável, Worlorn foi palco de um grande festival que envolveu inúmeros mundos, e é para esse planeta que Dirk t’Larien parte ao ser chamado por Gwen Delvano, o seu grande amor, a quem fez uma promessa no passado.
Ao contrário da época em que estavam juntos, Gwen não é mais a mesma mulher. Agora ela faz parte de um triângulo amoroso, que causa uma verdadeira batalha cultural, onde não se sabe quem está do lado do bem ou do mal, e não há cautela para lutar pelos ideais; pelas posses. Nessa disputa com pessoas poderosas, Dirk tem a missão de proteger Gwen, mas para isso precisará enfrentar mais do que apenas as forças dos seus inimigos.

“Ela estava presa em uma teia muito complexa, uma teia que era política e emocional ao mesmo tempo; e ele aparentemente tinha sido arrastado com ela, para observar impotente enquanto tempestades semicompreendidas de tensão psicossocial e cultural giravam ao redor dele. Estava muito cansado de observar impotente” (pág. 115).

Como citado, A Morte da Luz se inicia de forma confusa, mas antes mesmo das primeiras cem páginas esse aspecto muda radicalmente e o leitor se coloca dentro da história, sentindo a mesma emoção dos personagens e a cada hora ficando na torcida por um deles, já que não há herói ou vilão durante a história. Há uma relação de amor e ódio com tais personagens.
Provavelmente o grande responsável pela torcida, e pela relação de amor e ódio, não seja apenas o talento em construir uma história de Martin, mas a forma como ele une os conflitos sociais e culturais, causando um grande choque entre a diversidade de planetas e povos, cada qual com suas próprias características. Com isso, além de uma ótima obra de ficção, o autor construiu um trabalho que levanta importantes pontos, alguns inclusive presentes na nossa sociedade.
Em seu lado crítico, A Morte da Luz questiona determinadas formas com que os kavalarianos, nativos de Alto Kavalaan, levam a vida. Apesar de no início ser um tanto complicado de se entender, e principalmente aceitar, percebemos que em alguns casos essa forma de levar a vida é natural mesmo em um mundo real, como, por exemplo, mulheres tratadas como escravas (betheyn) ou objeto sexual (eyn-kethi); e de pessoas que se unem, de igual para igual, em busca de proteção (teyn).
Com uma bonita história, inúmeras são as surpresas ao longo do enredo, que proporciona momentos de reflexão, ação e emoção. Sempre com uma narrativa intensa e descrições com certo teor poético, conseguimos nos ambientar em todos cenários e nos encantamos com a maneira que Martin uniu a tecnologia com a astrologia, dando sempre uma veracidade maior para a história. Vale lembrar também que o livro foi escrito na década de 70, o que comprova a genialidade da imaginação do escritor, criador de ao menos uma cidade que vive automaticamente, operada apenas por computador - uma cidade que o leitor passa a querer conhecer.
Para muitos dos fãs da série mais conhecida do escritor americano, A Morte da Luz é um tanto decepcionante, mas para quem ainda não o conhecia o livro se transforma em uma grata surpresa, onde nem tudo é como realmente aparenta. Mas ainda assim a história marca o leitor por uma série de motivos, e esse demora a se esquecer da imensidão galáctica e dos personagens que fazem parte de um triângulo amoroso... Ou melhor, de um triângulo cultural e social que envolve humanos mais do que evoluídos.

“Ela se aproximou e o envolveu com os braços antes que ele pudesse reagir. Abraçou-o com toda sua força. As mãos dele se ergueram lentamente para abraça-la também, e ficaram assim por uns bons dez minutos, esmagados um contra o outro, o suave rosto dela contra a barba por fazer dele. Quando Gwen finalmente se afastou, levantou o rosto, esperando que ele a beijasse, então ele a beijou. Fechou os olhos; os lábios dela eram secos e duros” (pág. 299).

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