A Caçada, Clive Cussler, tradução de Camila Fernandes, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2013, 384 páginas.
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As histórias investigativas surgiram em meados do século XIX e os melhores livros do gênero são justamente aqueles que se passam entre o século XIX e meados do século seguinte. Essas histórias nunca deixaram de atrair o público, nem mesmo as contemporâneas, porém existe algo ainda mais encantador em livros que retratam uma época não tão distante, onde a inteligência era a única maneira de encontrar os culpados.
Sem toda a tecnologia encontrada em histórias mais atuais, o romance A Caçada se passa em 1906 e mostra o oeste dos Estados Unidos enfrentando uma série de assaltos a bancos que já dura dois anos. Esses assaltos foram cometidos por um único homem: o Assaltante Açougueiro, que não pensa duas vezes antes de assassinar qualquer possível testemunha presente na cena do crime. Por já não aguentar ver tantas vítimas e sem saber por onde começar a investigação, o governo norte-americano contrata a Agência de Detetives Van Dorn e entra em cena o detetive Isaac Bell.
Com sua personalidade única e colocando em prática toda a sua capacidade, Bell percorre os Estados Unidos tentando prever os movimentos de seu inimigo e chegar à cena do crime antes do que o Assaltante Açougueiro. Porém esse consegue sempre estar um passo à frente. E quando Bell parece finalmente estar próximo de alcançar o seu objetivo, precisa lutar por sua sobrevivência para não deixar que o criminoso faça mais vítimas.

“Bell sentou-se no chão e massageou a própria garganta, ofegando pelo esforço. Virou a cabeça e olhou para o corredor, vendo que homens vinham correndo para a suíte. Eles se detiveram, pasmos e chocados, à vista do mar de sangue e da montanha de homem cuja face era irreconhecível por causa da máscara de sangue coagulado. A face parecia particularmente grotesca devido aos dentes de ouro que se exibiam entre os lábios abertos, lentamente cobrindo-se de vermelho” (pág. 155).

Quando se trata de sua personalidade, o Assaltante Açougueiro talvez não seja o melhor criminoso já criado na ficção, porém o seu modus operandi é digno de um verdadeiro psicopata, principalmente se pensar que seu objetivo não é simplesmente assaltar um banco. Tudo o que motivou esse personagem a iniciar os assaltos e a prosseguir com eles nos faz questionar até que ponto esse risco era realmente necessário. E o desejo por aventura é a única resposta que encontramos.
Essa aventura era muito produtiva e bem elaborada, mas a partir do momento em que Isaac Bell passa a investigar o caso, esse cenário muda radicalmente. Bell, que tem grande influência dentro de sua agência de detetives, não demora a entender como seu inimigo escolhe em qual cidade deve colocar seu plano em prática, e quando isso acontece tem início uma caçada. Como já diz o ditado: um dia da caça e outro do caçador.
Explorando de forma completa a sociedade norte-americana no início do século passado, sobretudo a sociedade californiana, Clive Cussler consegue dar um charme a mais para a primeira aventura de Isaac Bell, que também protagonizou O Espião. Mas ao contrário do livro citado, terceiro da série que possui histórias independentes, A Caçada possui poucos termos técnicos, o que pode agradar alguns leitores que se decepcionaram com o uso disso em excesso no livro O Espião. Não que em A Caçada isso deixe de assistir, já que faz parte da característica do autor que sempre usa os meios de transporte a seu favor, mas o uso é mais moderado, enquanto a história é mais próxima da nossa realidade.
Além disso, o autor ainda mescla ficção com realidade ao colocar em cena Jack London, autor de O Chamado Selvagem, e ainda usar o cenário criado pelo terremoto que atingiu São Francisco em abril de 1906, resultando em pelo menos 3000 mortes. De extrema importância para o enredo, o terremoto peca apenas por ser usado tardiamente, quando o desfecho já precisava ser revelado. Ao mesmo tempo em que isso pode ser considerado um erro, proporciona uma caçada pelas ferrovias que cortavam os Estados Unidos e foram construídas durante a Corrida do Ouro (1848-1855), e aqui entra a importância dos trens para a história.
O fim da caçada pode não ser o desejado pelos leitores, porém era o esperado. Com isso o final da história acontece 44 anos depois, quando Isaac Bell já é um senhor e o casco de uma locomotiva é encontrado no lago Montana. Clive Cussler, que participou do resgate de mais de 60 navios, pôde usar mais uma vez de sua experiência para criar um desfecho interessante para uma história que empolga do início ao fim.
Apesar de situações que podem incomodar, A Caçada é um ótimo livro policial e mostra que Isaac Bell tem algumas características de Sherlock Holmes (sobretudo nas deduções), o que obviamente é um atrativo a mais. Em um ritmo mais próximo dos atuais trens-balas, Cussler construiu uma perseguição que em alguns momentos somos obrigados a torcer para que não chegue ao fim, já que foi muito bem elaborado. Pena que as obras do autor não conquistaram os brasileiros assim como os americanos, o que contribuiu para que ele se tornasse um autor best-seller do The New York Times ao vender mais de 150 milhões de livros.

“Bell olhou para a Colt automática calibre .45 que mantinha em uma gaveta aberta da mesa e lamentou o fato de que não poderia usá-la no Assaltante Açougueiro. Estourar a cabeça do desgraçado era bom demais para ele, Bell meditou. Bom demais para quem já havia matado tantas pessoas inocentes. A morte dele pouparia aos contribuintes as despesas de um julgamento. Agora, Bell era confrontado pela admissão da derrota e da ideia de ter que começar tudo de novo a partir das magras pistas que ele seus agentes haviam desencavado” (pág. 207).

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