10/05 - Folha de S. Paulo-Adriano Vizoni/Folhapress
Oi, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.
Desde os anos 90 eu vejo greves de professores da rede pública. De lá pra cá, nada mudou. Passeatas na Avenida Paulista (pelo menos aqui em São Paulo. Não sei como nem onde elas são realizadas em outros estados. Nem se são realizadas com eficiência!), confrontos com policiais e acima de tudo, a opinião pública alienada que diz que “essa cambada de funcionários públicos quer encher os bolsos”.
Só que não é bem assim. Recomendo a quem estiver lendo este artigo que pare de concordar com a frase entre aspas no parágrafo acima e veja o resultado da minha pesquisa pra vermos que a desvalorização do ensino não é de hoje. Vamos aos dados:
  • Séc. XVII: sacerdotes davam aulas sem remuneração. Daí a ideia que muita gente tem até hoje que ser professor é um ato sagrado, que é pago com a benção de Deus e por aí vai (como se rezando o Pai Nosso eu pagasse minha conta de luz);
  • Meados de 1759: por interesses da coroa portuguesa, o ato de estudar ia de acordo com o interesse do aluno já que as escolas foram fechadas e o principal objetivo de Portugal era a formação militar para proteger a colônia. E como todos sabem, seja na escola do Ensino Fundamental I, Fundamental II, Ensino Médio ou faculdade, o professor ganha um sorriso dos alunos sempre que diz “amanhã não terá aula”. Não é mesmo?
  • Séc. XIX: despreparo dos professores fazia os pais não terem interesse em mandar os filhos para a escola. Em vez disto eles ajudavam no trabalho;
  • 1920: 65% da população nacional analfabeta dos 15 anos em diante;
  • 1940: o índice de analfabetos cai pra 56,2%;
  • 1961: aprovação das Leis de Diretrizes Básicas (LDB). 39% de analfabetos. Com a lei, o ensino que antes era elitizado dando ao professor um status elevado na sociedade passa a ser um movimento de inclusão. Como nem todos eram estudados, cai muito o estudo de gramática normativa e passam a dar muitas aulas de compreensão e interpretação de textos;
  • Anos 70: outros profissionais como advogados, médicos e engenheiros passam a dar aula. Daí aquela pergunta cretina dos alunos “você trabalha ou só dá aula?”;
  • Constituição de 1988 prevê a valorização do magistério. Na prática temos os casos mais ditos pela imprensa e mais divulgados quando a população procura saber menos da vida do Neymar: baixos salários (às vezes pagos com atrasos), aumentos que demoram muito pra ocorrer e quando ocorrem são verdadeiras merrecas considerando o período econômico, violência social e divisão de categorias sendo cada uma com seus (poucos) benefícios e desvantagens. “Dividir e conquistar” tem sido o lema do governo no que se refere a cuidar da educação escolar do país.
  • E falando no governo, ele por si só não colabora com o trabalho dos professores ainda dispostos. Quando não é a progressão continuada, são os sujeitos que mesmo afirmando que é apenas uma opinião, dizem que o professor deve trabalhar por amor (aí eu volto ao item 1 desta lista). E como população ignorante (não no sentido de má educada civicamente e sim de que ignora saber a verdade) adora repetir discursos, isto vira bordão;
Portanto, se alguém ainda estiver torcendo o nariz para este artigo, eu o convido a ir a uma escola pública. Reparem como são salas de mais de 30 alunos que são mandados para lá porque nem o pai agüenta em casa. Vejam como os professores têm que falar coisas estúpidas como “sente direito”, “desligue este celular” ou “por que você bateu nele?” e ouvir um “ele me bateu também” ou coisa pior. Em cada escola de zonas periféricas há pelo menos um caso de desrespeito que um professor sofreu. Reparem como as mesas e carteiras são quebradas e mesmo com uma equipe de faxina, são mais de 10 salas com em média 30 alunos. O que dá um total de 300 crianças mal educadas que sujam o lugar com lixo e pichações, denegrindo o ambiente. E quando o professor dá uma bronca, o aluno chama um pai que aparece na escola veloz e furioso que grita, xinga, ri da cara do professor ou faz coisa pior. E como todos sabem pai pra criança é Deus. Logo eles pensam “se meu pai faz, eu posso também”. E é contra um sistema de melhores salários, melhores condições de trabalho e uma vida mais justa e digna é que as greves ocorrem.
Para encerrar, não estou dizendo que todos os professores são santos. Só que se vocês pararem pra pensar na quantidade de alunos mal criados e de professores que exercem a profissão porque o curso superior era mais barato, por que a culpa de descasos cai justamente no profissional? Por que a mídia insiste em não divulgar com tanta veemência algumas greves que resistiram com tanta força? Por que o povo se importa cada dia menos?
Se algum de vocês souber estas respostas, quiser comentar algo ou discordar de alguma coisa que eu falei, aguardo os comentários.
Obrigado a todos(as) pela leitura.

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora. Contato: davi_paiv@hotmail.com