Dizem que ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher e se existiu uma grande mulher ao lado de Jorge Amado, um dos maiores nomes da nossa literatura, essa sem dúvida alguma foi Zélia Gattai Amado, com quem o escritor baiano foi casado por mais de meio século e dividiu, além de experiências, um grande e verdadeiro amor.
Descendente de imigrantes italianos, Zélia Gattai nasceu na capital paulista em 2 de julho de 1916 e passou sua infância e adolescência no bairro Paraíso, onde, ao lado de seus pais, Angelina e Ernesto Gattai, participava de movimentos políticos que envolviam ideais socialistas e anarquistas, o que seria tema de seu livro de estreia.
A relação de Zélia com a política a aproximou do militante comunista Aldo Veiga, com quem se casou aos 20 anos e teve seu primeiro filho, Luís Carlos. No entanto o relacionamento durou pouco tempo e três anos mais tarde, já separada de Aldo, Zélia conheceu o escritor Jorge Amado, que na época já havia publicado alguns dos seus principais livros, incluindo Capitães da Areia. Zélia se apaixonou por Jorge e ali teve início um casamento que duraria até a morte do escritor baiano, em agosto de 2001.
Mas Zélia era muito mais do que apenas uma esposa e sua relação com o escritor era de um intenso companheirismo, resultando em um cuidado mais do que especial na preparação e revisão dos livros do marido.
Ainda no início do casamento, Jorge Amado foi eleito deputado federal, porém pouco mais de um ano depois o escritor teve seu mandato cassado, obrigando o casal a se exilar em Paris, onde ficaram por três anos. Antes disso, Zélia deu a luz ao seu primeiro filho com Jorge Amado: João Jorge.
Na Europa, Zélia Gattai deu a luz a Paloma e se dedicou a cursos universitários. Também começou a fotografar, o que se tornaria uma de suas paixões. Como fotógrafa, registrou os principais momentos de sua vida ao lado de Jorge Amado, incluindo viagens feitas a várias partes do mundo, eventos literários e encontros com amigos e outros importantes nomes, como Gabriel Garcia Marquez e Fidel Castro. O escritor e filósofo Jean-Paul Sartre e o pintor Pablo Picasso também fizeram parte do círculo de amizade criado durante a estadia do casal na Europa, onde ficaram até 1952, quando voltaram ao Brasil e se fixaram em Salvador.
Devido a sua paixão pelas fotografias, Zélia lançou, em 1963, Reportagem Incompleta, uma fotobiografia de Jorge Amado. Porém foi o livro de memórias Anarquistas, Graças a Deus que contribuiu para que ela ficasse conhecida não apenas como a esposa de um verdadeiro gênio, mas também como uma talentosa escritora.
Em Anarquistas, Graças a Deus, lançado originalmente em 1979, Zélia Gattai narra em um tom divertido e envolvente as memórias de sua infância e adolescência, se focando nas tradições de sua família italiana, no crescimento dos pontos mais importantes da capital paulista e, claro, nos valores e lutas da população que seguia os ideais anarquistas. Além de um prêmio literário na categoria Revelação, Anarquistas, Graças a Deus também foi adaptado para a televisão em uma minissérie transmitida pela Rede Globo em 1982.
Após o lançamento de seu primeiro livro, Zélia Gattai ainda lançou outras sete obras de memória, além de livros infantis e romances. Ao todo foram dezessete livros, traduzidos para o francês, o italiano, o espanhol, o alemão e o russo.
Em agosto de 2001, após longos anos enfrentando a doença e as dificuldades impostas por ela, Jorge Amado faleceu, deixando vaga sua cadeira na Academia Brasileira de Letras. Em uma eleição polêmica, Zélia Gattai foi a escolhida para substituir o marido e ocupar a cadeira 23, fundada por Machado de Assis.
Alguns anos mais tarde, em março de 2008, Zélia Gattai foi internada e teve sua saúde agravada com o passar dos dias. Após uma cirurgia de desobstrução do intestino, foi constatada a existência de um tumor benigno, que foi retirado. Ainda assim, Zélia Gattai seguiu respirando com a ajuda de aparelhos, até que faleceu na tarde de 17 de maio de 2008.
Uma mulher marcada pela generosidade, Zélia Gattai servia de exemplo ao mostrar sua alegria e talento com as palavras e as fotografias, que podem ser encontradas no Acervo Fotográfico de Zélia Gattai. Além de escrever suas memórias, e por isso ficar conhecida, ela foi a responsável por registrar, em imagens, o que seu marido registrava através de seus livros: memórias de situações que só poderiam acontecer na rica e diversificada sociedade brasileira.

“Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores” – Zélia Gattai.


Zélia Gattai - 02/07/1916 - 17/05/2008