Toda cidade tem um filho ilustre, que dá motivos para a população se orgulhar de tudo o que foi feito representando o município a nível estadual, federal, e às vezes até mesmo internacional. Quando se trata de uma cidade do interior, o orgulho deveria ser mais evidente; a memória mais lembrada e estudada; o nome mais homenageado e conhecido.

Mas será que você, caro leitor, conhece o filho ilustre de sua cidade?

Infelizmente poucas vezes essas figuras são valorizadas, e lamentavelmente, a história de Edgard Cavalheiro, um dos grandes responsáveis pela atual situação da literatura nacional, é quase que deixada de lado em sua cidade natal, Espírito Santo do Pinhal, pequena cidade de pouco mais de quarenta mil habitantes na majestosa Serra da Mantiqueira.

Membro de uma família de origem italiana, Edgard Cavalheiro nasceu em 06 de julho de 1911 e desde cedo mostrou seu gosto pela literatura, que herdou de sua mãe, e que não seguiria a profissão de seu avô paterno, um carpinteiro, de seu avô materno, um músico, e muito menos de seu pai, que era dono de um armazém. Seu talento mesmo era com as palavras.

A primeira vez que seu talento foi mostrado a outras pessoas foi quando um professor da escola primária “Dr. Almeida Vergueiro”, a mais antiga da cidade, reuniu todos os seus alunos para realizar a leitura de um texto escrito por Edgard. Mais tarde, após sair de Pinhal e se mudar para Campinas, publicou seu primeiro poema, em um jornal fundado por ele em parceria com outros amantes das letras.

Durante a década de 30, morando novamente na pequena cidade, conheceu os livros dos principais escritores da nossa literatura e publicou, em um jornal local, um soneto em homenagem a outro filho ilustre da cidade: Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, na época Arcebispo do Rio de Janeiro, que visitou Espírito Santo do Pinhal depois de longos anos.

Após a publicação de seu soneto, Edgard é convidado a colaborar com o jornal, porém, pouco tempo depois, sua família se muda para Bebedouro, onde o futuro escritor trabalha no Banco do Estado de São Paulo. Já em 1940, após se inspirar em Fagundes Varela, publica seu primeiro livro, que em questão de meses teve sua primeira tiragem, de 2000 exemplares, esgotada.

Na mesma época, Edgard Cavalheiro passa a trabalhar no jornal O Estado de São Paulo e publica os livros Biografias e Biógrafos, Testamento de uma Geração e posteriormente uma biografia de Garcia Lorca.

Como editor, publicou uma série com obras primas da literatura universal e nacional e também uma antologia de contos humorísticos. Também foi tradutor e assinou várias colunas em diferentes e importantes jornais do estado, até fundar a revista Roteiro.

Mas foi como biógrafo que Edgard Cavalheiro se tornou conhecido e respeitado no mundo literário. Em 1954, publicou a biografia de Fagundes Varela, intitulada Fagundes Varela: Cantor da Natureza, e também do escritor Álvares de Azevedo. No ano seguinte, publica sua obra mais importante, intitulada Monteiro Lobato – Vida e Obra, que, dividida em dois volumes, conta a história do seu grande amigo, Monteiro Lobato, em cerca de 900 páginas.

A biografia de Lobato revela a grande amizade entre esses dois grandes escritores brasileiros. Edgard Cavalheiro, além de biógrafo, também foi o responsável pelo tombamento do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que na época estava abandonado, e comandou um programa de rádio onde narrava as histórias infantis de Monteiro Lobato.

Edgard Cavalheiro também foi um dos fundadores da Câmara Brasileira do Livro, sendo presidente da instituição entre 1955 e 1957 e também um dos idealizadores do Prêmio Jabuti, principal premiação literária do país. Infelizmente, assim como acontece em sua cidade natal, pouco se fala da importância de Edgard para a CBL, que é a grande responsável por todas as facilidades que os escritores encontram nos dias de hoje.

Grande amante da literatura, o filho ilustre de Espírito Santo do Pinhal faleceu na tarde de 30 de junho de 1958, poucos dias antes de completar 47 anos, e teve seu corpo velado na Biblioteca Municipal de São Paulo. Nas capas dos jornais do dia seguinte, a notícia dessa perda foi dividida com a do primeiro título do Brasil em uma Copa do Mundo, que ocorreu no dia 29, na Suécia.

Como citado, Edgard Cavalheiro foi um grande divulgador da literatura e, além de editar seus livros, devido a falta de editoras na época, também era o responsável pela venda, já que também não existiam livrarias. Sua disposição mostra o quanto lutava pelas melhorias aos grandes gênios das palavras, por isso os escritores devem muito a esse grande homem das letras.

Quem conhece sua história, reconhece sua importância; porém infelizmente isso acontece apenas longe de sua cidade natal. Ao realizar uma pesquisa para a elaboração dessa postagem, descobri não existir livros de Edgard na Biblioteca Municipal, a mesma que servia de refúgio para ele em sua infância e adolescência. No entanto, o descaso é ainda maior. Apenas uma rua leva o nome do escritor; nas escolas, os alunos não conhecem sua história; entra prefeito e sai prefeito, e o desinteresse parece o mesmo. Por sorte existe uma Casa do Escritor que leva o nome de Edgard Cavalheiro e que, há mais de dez anos, realiza reuniões e eventos para que a memória desse Imortal da Literatura nunca se perca nas lembranças das raras edições de seus livros.

“O mundo é um só, meu caro. Pena que os donos da vida continuem a dividi-lo para proveito próprio” – Edgard Cavalheiro.

Edgard Cavalheiro - 06/07/1911 - 30/06/1958


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2 Comentários

  1. joão batista rozon22 de julho de 2013 11:22

    parabéns Ricardo pela publicação. Tenho o maior orgulho de ser o primeiro a divulgar o trabalho do Edgard Cavalheiro em nossa cidade, desde 1986 trabalho para que tenhamos o memorial Edgard Cavalheiro, e quem idealizou também e sempre lutou para Semana Edgard Cavalheiro fui EU, embora estão aparecendo paraquedistas que só querem levar vantagem sobre a mesma. Edgard é de nossa cidade, e a semana literária tem mesmo que levar seu nome, o resto é blá-blá blá.

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  2. Muito obrigado por seu comentário, Rozon. Fico feliz que tenha gostado dessa postagem. O senhor sabe que tem grande participação na realização dessa postagem e de outros projetos (como o Clube do Livro) que têm como objetivos valorizar e divulgar o trabalho do Edgard Cavalheiro. Quem sabe de seu empenho certamente tem orgulho, assim como tem de Edgard Cavalheiro.
    Infelizmente existem pessoas que querem se aproveitar, mas ninguém pode negar que a Casa do Escritor é a verdadeira razão para tudo o que ainda pode acontecer em prol desse grande escritor.
    Abraços!

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