Oi, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.
Antes de começar com o texto, vamos a um “faz de conta” para nos ambientarmos. Ok?

Faz de conta que um vizinho quer abrir um mercadinho perto da sua casa e te pede dinheiro emprestado. E suponhamos que você é uma pessoa com tal quantia e pensa “este mercadinho será bom. Não preciso nem pedir o dinheiro de volta porque terei outros lucros: um serviço de qualidade perto de casa vai ajudar a comunidade e posso até empregar o meu filho nele”.
Você entrega o dinheiro e depois viaja. Um ano depois volta para ver como estão as coisas e o sujeito lhe diz:
— Então... as coisas não deram muito certo... alguns produtos venceram a validade... outros não foram tão atrativos. Esta concorrência com outros mercadinhos foi horrível. Eles têm métodos melhores que os meus e não atraí os clientes certos. O que fez com que a comunidade não se interessasse em comprar aqui.
Você lamenta, é claro. E ele complementa:
— Eu também sinto muito. Mas o motivo de eu vir aqui não foi só pra contar. Foi pra falar outra coisa.
E quando você pergunta, ele diz:
— Pode me emprestar dinheiro de novo?

***

Se você não emprestaria dinheiro ao sujeito, então você não pode ser um controlador de gastos na educação. Porque é mais ou menos que a progressão continuada é.

A progressão continuada existe desde 1996 e é aplicada em 25% das escolas do país. Conhecida pelo nome depreciativo de “aprovação automática”, ela deixa de lado a reprovação e sugere para que o aluno necessitado tenha aulas de reforço que nem sempre são aplicados pela falta de espaço, professor ou às vezes, é o próprio professor que tem que trabalhar conteúdo “B” com a turma e com determinados alunos, o conteúdo “A”. Em outras palavras: ela pode aprovar o aluno sem ele ter aprendido nada. Na escola ideal, o aluno tem as tais aulas de reforço dentro ou fora do horário escolar. Só que tais métodos possuem as seguintes falhas:

Dentro do horário: o aluno do 6º ano, por exemplo, aprende coisas do 4º ano e deixa de aprender as coisas do 6º. Onde está a lógica?

Fora do horário: carga horária maior, além de complicar a logística de algumas famílias (“pego o meu filho depois do trabalho”, entenderam?)


Quem ler deve estar se perguntando “mas como isto começou e por que aprovaram?”. Então vou explicar: nossos amados e queridos políticos levaram para a Secretaria da Educação as ideias Construtivistas e princípios de Piaget, Emilia Ferreiro e Paulo Freire de que cada um aprende em seu próprio ritmo. E como o intuito era diminuir as lotações de salas de aula bem como os índices de reprovação, o sistema foi implantado e políticos como o governador Geraldo Alckmin e outros o defendem pelos seguintes motivos:

Jean Piaget, Emilia Ferreiro e Paulo Freire: teóricos da educação que na prática, foram mal interpretados no meio político.

- a progressão continuada impede a lotação em salas de aula (o que tornaria pior do que já está a vida do professor);
- faz com que a verba destinada à educação não diminua (e não possa ser desviada, lavada ou usada para compra de material de má qualidade tudo em prol da política);
- não diminui os índices de aprovação que são apresentados a órgãos superiores como o governo federal, UNESCO ou quando comparamos o IDH dos países;

O “povão” é bem sensato em dizer que isto tem que acabar apesar de ninguém mover um músculo sequer por isto. E quando não pensam assim, são ignorantes (ou no sentido de não saberem ou de ignorarem a verdade) e dizem coisas como:

- se o aluno não aprendeu, a culpa é do professor que não ensina direito (só se 100% da sala não aprendem);
- “mandar o filho pra quê? Ele não aprende nada. Tá cada dia sabendo menos (é um argumento muito comum. Duvido que este pai vá a uma reunião escolar, acompanhe a aprendizagem do filho e dê apoio ao desenvolvimento intelectual do garoto)”;
- “de que adianta aprender estas coisas? O importante é terminar logo esta escola e arrumar um emprego (já ouvi isto. E só penso uma coisa: sem estudos, o que será deste aluno? Presidente da República?)”;
Governador do estado de São Paulo Geraldo Alckmin: assim como muitos, uma pessoa de poder que não faz nada para mudar a situação nem pede ao seu partido que se mobilize para isto.

Agora pra quem leu e está se perguntando “mas não é possível reverter isto?” eu digo: é, entretanto não é viável.

Por quê? O povo brasileiro se diz batalhador, porém poucos gostam de estudar, ir para escola (ou mandar seus filhos), incentivar o aprendizado e/ou participar na educação escolar. Ninguém admite isto para não parecer mau. Logo, acabar com a progressão continuada é tirar “a mão que afaga” o nosso ego.

Então o que temos hoje é muito diferente de antigamente.

Antigamente: o aluno ia para a escola para aprender.
Se não aprendesse... era reprovado.

Como o termo “reprovar” ficou associado ao castigo, a progressão continuada veio para mudar os parâmetros e o que temos hoje é diferente.
Hoje: o aluno vai para escola para...

A) Comer.
B) Para que o pai/responsável possa trabalhar.
C) Que a família receba o Leve Leite, Bolsa Família e outros programas do governo.
D) Para ter presença na chamada.
E) Porque o pai/responsável não o quer em casa, sem nada para fazer o dia todo.
F) Para aprender (termo usado por aqueles que se importam com os estudos ou pelos politicamente corretos).
G) Todas as alternativas (sendo a F opcional)

E se ele não aprende... “pega nada não” como os próprios alunos dizem.

Para encerrar este artigo que foi escrito com auxílio de professores com quem convivo e um pouco de visão de mundo, quero dizer uma coisa.

Pode não parecer, mas o sistema de progressão continuada é perfeito para os intuitos não-oficiais do governo. Ele forma um cidadão que não se importa em estudar, torna-o dependente de programas do governo (“vou pra escola por causa do leite” hoje. Amanhã vira “tenho filhos por causa do Bolsa Família”), tira do cidadão seu melhor lugar para aprender sobre o mundo de forma embasada e faz dele um sujeito que irá apenas trabalhar para ter o que comer, onde dormir e acima de tudo, onde gastar. Tudo isto sem (principalmente!) jamais questionar o que acontece no mundo ao seu redor.

Obrigado a todos(as) pela leitura.
Sem mais.

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora. Contato: davi_paiv@hotmail.com