Por mais bonita que seja não é fácil agradar um leitor com os versos de uma poesia, que como qualquer outro gênero textual, tem como objetivo simplesmente transmitir a emoção de um poeta apaixonado por um amor; apaixonado pela natureza ou pela vida. Toda poesia tem um ar misterioso e não basta lê-la para interpretá-la. Precisa ser poeta para conseguir essa façanha. Pelo menos era o que pensava Paulo Leminski, escritor com uma vasta obra que merece ser eternamente lembrada.

Filho de pai descente de polonês e de mãe negra, Paulo Leminski Filho nasceu em Curitiba em 24 de agosto de 1944 e desde muito cedo demonstrou ter uma inteligência única, que o transformaria em um grande intelectual de sua época. Ainda na infância e adolescência, Leminski se aventurou em seus primeiros versos, já mostrando qual seria sua principal característica na poesia: os poemas curtos e os haicais, estilo japonês que preza a objetividade e possui apenas três linhas.

Foi na capital paranaense que Leminski produziu grande parte de sua obra, no entanto, ao longo de sua vida, passou também por São Paulo, onde estudou no Mosteiro São Bento, aprendendo ali canto gregoriano antes de ser expulso, e Belo Horizonte, quando participou do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda e conheceu seu grande amigo e companheiro: Haroldo de Campos.

Com apenas dezessete anos, Paulo Leminski casou-se com a artista plástica Neiva Maria de Sousa e antes da separação, que ocorreu em 1968, estreou publicando cinco poemas na revista Invenção, em 1964. No ano seguinte, tornou-se professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares. O poeta também era faixa-preta de judô e dava aula do esporte, mostrando sua intensa relação com a cultura oriental.

No mesmo ano em que se separou de Neiva, Leminski se casou com a poetisa Alice Ruiz, com que ficou junto durante duas décadas. Sobre a relação com Paulo, Alice declarou que “em casamento de poetas a poesia é o maior dos bens em comum”. E a poesia era o maior dos bens presentes na vida de Leminski, que viveu sempre pela poesia e também conseguiu unir o ocidente e o oriente, não apenas devido ao judô e aos haicais, mas também com a filosofia zen, que prega a busca do autoconhecimento.

Após morar entre 1969 e 1970 no Rio de Janeiro, voltou para Curitiba e se tornou diretor de criação e redator publicitário. Na mesma época iniciou suas composições, que viriam a ser gravadas apenas na década seguinte. Um dos grandes exemplos é a canção Verdura, gravada por Caetano Veloso em 1981 e que diz: “De repente vendi meus filhos a uma família americana; eles têm carro, eles têm grana, eles têm casa; a grama é bacana, só assim eles podem voltar e pegar um sol em Copacabana”. Ao todo compôs mais de 50 canções, realizando parcerias com Arnaldo Antunes, Moraes Moreira, entre outros.

Na área literária, estreou em 1975 com o livro Catatau, que até hoje é um dos trabalhos mais comentados de toda a carreira de Leminski. Apesar de ter vivido apenas 44 anos, publicou 18 títulos, divididos em ensaios, romances, poesias e até mesmo biografias, que passou a se aventurar já nos últimos de sua vida. Como biógrafo, escreveu sobre o poeta Cruz e Sousa, Jesus, Trotski e sobre o japonês Matsuó Bashô, considerado o poeta mais famoso da Era Edo, que aconteceu entre 1603 e 1868. Também foi tradutor, sendo o responsável por oito traduções, incluindo o livro Um Atrapalho no Trabalho, de John Lennon. Entre seus principais livros, além de Catatau, destaca-se também Distraídos Venceremos, de 1987, Agora é Que São Elas e Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego, vencedor do Prêmio Jabuti em 1995 na categoria Poesia.

Conhecido como Samurai Malandro, Paulo Leminski teve lançado recentemente, pela editora Companhia das Letras, o livro Toda Poesia, editado por Sofia Mariutti e que reúne 630 poemas do curitibano. Em pouco tempo a obra se tornou um verdadeiro sucesso e desbancou obras já reconhecidas em listas dos mais vendidos do país. Sobre Toda Poesia, a blogueira Camila Márcia, do De Livro em Livro, classificou como sendo um “livro que deve ser lido calmamente para que possamos sentir cada verso, cada palavra” e “ser relido naqueles dias em que nosso coração dolorido pede um pouco de poesia para acalentar a alma”.

Dono de um estilo único, Paulo Leminski pode ser considerado um ícone da poesia contemporânea e por isso é sempre lembrado e serve de referência a outros poetas, que percebem como ele, com seu jeito boêmio e anárquico, conseguiu unir humor e a cultura pop em versos simples, rápidos, de uma poesia concreta. Verdadeira.

Leminski faleceu em sua cidade natal em 07 de junho de 1989, por complicações causadas pelo excesso do álcool que resultaram em uma cirrose hepática.

“Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.” – Paulo Leminski.


Paulo Leminski - 24/08/1944 - 07/06/1989