Em Busca de um Final Feliz, Katherine Boo, tradução de Maria Angela Amorim de Paschoal, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2013, 288 páginas.
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Para um jornalista de verdade não basta apenas noticiar fatos que acontecem no dia a dia de uma sociedade. Em alguns casos é preciso viver na pele todas as dificuldades e as vitórias encontradas ao longo de uma vida, e também perceber o que o ser humano é capaz de fazer em busca de seus ideais. Com esse intuito que Katherine Boo, vencedora do Prêmio Pulitzer, viveu durante quase quatro anos em uma favela da Índia, o que a auxiliou na escrita de Em Busca de Um Final Feliz.

Apesar do título poético, o primeiro livro da redatora da revista The New Yorker não pode ser considerado um livro para inspirar seus leitores. A intenção da autora foi escrever sobre a realidade dos moradores de Annawadi, uma favela que está ao lado de um grande aeroporto e de luxuosos hotéis em Mumbai, cidade mais importante da Índia.

Ao melhor estilo livro-reportagem, Katherine Boo faz um relato de tudo o que vivenciou enquanto permaneceu ao lado dos moradores dessa favela, não se focando apenas em histórias felizes, o que passaria uma falsa ideia aos leitores, muito menos destacando apenas os males que de alguma forma facilitaria a venda de seu livro. Ela não queria isso e sim mostrar a realidade de um povo sofrido, mas que acima de tudo queria ir em busca de um final feliz.

“Abdul cumpriria seu dever e estaria quase feliz por fazê-lo. Esconder-se era algo que pessoas culpadas costumavam fazer; ele era inocente e queria a verdade estampada em sua testa. Então, o que mais lhe restava fazer a não ser submeter-se às autoridades oficiais, à lei, à justiça? Conceito que seu conhecimento limitado de história nunca tinham lhe dado razões para acreditar, mas nos quais ele pretendia acreditar agora” (pág. 26).

Mesmo com uma ótima escrita, a escolha dos personagens retratados por Boo pode ser considerada uma das principais qualidades do livro, que, além disso, é narrado de forma romanceada e felizmente possui uma estrutura agradável, onde acompanhamos todo o desenrolar de uma história. Por ser a observadora, e consequentemente a narradora, Boo não determinou qual o lado certo ou errado de todas as histórias que presenciou. Ela apenas relatou tais histórias.

Em cada um desses relatos, conhecemos um pouco da história de vida das pessoas, que sabemos desde o início: são reais. Ao mostrar a personalidade de todas as pessoas que tiveram suas histórias contadas, a autora possibilita ao leitor descobrir o que move os desejos de cada um dos moradores, que como todos, possuem sonhos, seja de construir uma família, estudar para garantir um futuro melhor, ou simplesmente ajudar os demais a também terem um futuro melhor.

E por se passar em um país rico culturalmente, encontramos muitas citações referentes a essa cultura, desde a disputa entre hindus e muçulmanos, que é fortemente lembrada, até mesmo a divisão entre castas e a própria desigualdade social, apesar de a Índia ser um país que cresce a cada dia e ter inclusive a 10ª maior economia do mundo, que só não é mais significativa devido à imensa população. E como a favela é o principal cenário, é impossível não encontrar situações que infelizmente existem nesse e em outros tipos de ambientes, como subornos e propinas, seja para serviços ou simplesmente mentiras.

Ainda que, como já foi citado, não tenha motivos para inspirar, Em Busca de um Final Feliz é capaz de mostrar tudo o que um morador de uma favela em Mumbai, ou em qualquer parte do mundo, deve fazer para alcançar seus objetivos. Para isso, não basta apenas sonhar ou aceitar o que é imposto por terceiros. Mas é preciso ter esperança, como vários personagens, e não desejo de vingança, como Perna Só, aquela que mais surpreende ao longo de todas as páginas.

Na versão brasileira, o jornalista Zeca Camargo é o responsável pelo prefácio e faz uma breve citação ao romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que havia lido após uma temporada no sertão nordestino. Mas também é possível sentir nessa obra de não-ficção a mesma essência de Capitães da Areia, já que ambos mostram personagens que agem com o mesmo objetivo: o final feliz. No entanto, apesar de ótima colocação de Zeca, o melhor de seu prefácio foi quando ele diz que Boo explora uma linguagem “que seria de uma delicada beleza se o que estivesse descrito não fosse tão repugnante”. De fato não exista nada belo, mas é uma ótima história que deveria ser lida e aproveitada por todos que sabem que sonhar é fundamental – ainda que nem sempre suficiente.

“Ele não era feio, apesar do bigode, e os olhos de Manju não estavam tão abaixados a ponto de ela não notar os olhos dele deslizando por seu corpo. Ela teve a sensação de estar sendo tocada. Às vezes, ela se sentia perturbada ao perceber como ansiava ser desejada; ela se sentia quase pronta para o casamento, para o sexo. Mas, caso Asha lhe arranjasse qualquer casamento que a obrigasse a passar a vida em Vidarbha, Manju já decidira: ia fugir” (pág. 171.

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