Que se abram as cortinas:
Você tem sede do quê? Bebida é água. Você tem fome do quê? Comida é pasto.

Jean-Jacques Rousseau
O que é o ser humano em sua real pele?

Segundo Darwin, o homem é um ser "evoluído" fisicamente de sua espécie primária, os primatas, que se divergiriam e formariam novas espécies; segundo Rousseau, somos seres absorvedores de costumes e que somos "corrompidos pela sociedade" - o que vai de encontro com o que Marx prega, quando afirma que não é a "consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência".

O mesmo Marx, falaria que a história da humanidade estaria fadada à "luta de classes" e Nietzsche viria dizer que deveríamos nos "tornar aquilo que somos". Afinal, o que somos?

O homem (desculpem-me as feministas, me refiro aqui à raça humana), sempre que conviveu em sociedade, criou hábitos próprios deste grupo, sejam instrumentos ou características próprias de indumentárias, seja a relação com um divino ou uma possível crença ou seguimento religioso ou quase isso, e até o ponto dos códigos, símbolos e linguajar. Ei-la comunicação, o maior avanço e a maior bênção sobre a humanidade. A comunicação foi capaz de estabelecer conjuntos e criar hábitos, laços e pontos que uniam este grupo, criando a cultura.

Cultura é tudo aquilo que a sociedade (seja ela qual for, em qualquer canto do mundo) produz. Cultura é o conjunto de hábitos que formam os ideais de um passado, a realidade de um presente e a perspectiva de um futuro.

Na Grécia Antiga (1100 a.C. - 146 d.C.), a representação do que hoje chamamos de "Mitologia Grega", era de essencial importância para mostrar todos estes pontos citados, a perspectiva daquele povo e a representação do desconhecido (sejam eles os fenômenos naturais, a existência da vida, a realidade do tempo, a existência do sentimento ou o "algo maior" que a realidade judaico-cristã nos obrigou a chamar de Deus e não deuses) eram todos baseados na arte. O teatro (comédias ou tragédias), a música e a literatura (os escritos antigos), eram baseados no conceito de cultura. É de extrema importância neste ponto, separarmos a cultura e a arte.

A cultura, como citado, é todo o conjunto de características próprias de um povo, sem tempo definido que pode se alterar sem nunca perder sua essência; a arte é a representação momentânea de alguma perspectiva ou inspiração que ora é substituído por algo que lhe dê continuidade, ora, por algo que lhe fuja às barreiras, logo, a arte é a representação cultural e a cultura, a inspiração para a arte. 


Começando por partes, o início da fala me obriga à dizer que o solo brasileiro além de "fértil e verdejante", como diria Pero Vaz de Caminha, também é riquíssimo em cultura, e isso se dá, como todos sabem, pela miscigenação cultural, e felizmente, em nossa história temos poucos movimentos que foram antropofágicos, o que permitiu, ainda mais, a mistura de novas culturas. Talvez por justamente ter sempre algo novo, a cultura brasileira ainda se pergunta o que é. A terra verde-amarela já com mais de meio século de idade, ainda não sabe realmente qual sua identidade, e isso se dá por ter tido (ou ainda ter) diversas identidades.

O Brasil possui diversos dele, dentro de si próprio. O Brasil tem diversas identidades culturais, e por isso, jamais pode ser considerado apenas um tipo de música, um tipo de corpo, um tipo de dança, roupa ou até mesmo, um tipo de caráter - o querido jeito brasileiro!

Há de se ressaltar, que essa cultura, está inteiramente associada à cultura de um povo, mas e a cultura no sentido amplo de sua história: a arte?

A arte no Brasil ainda é feita por crianças, jovens, adultos e idosos em seus mais diversos cantos. Existem artistas e arteiros que pintam, que dançam, que fazem e refazem a arte em todo o momento, e é de sua valorização que me faz escrever a outra parte, que complementa o primeiro lado da moeda. A arte cultural, feita por escritores em grupos ou clubes de leitura, escrita e poemas, jamais foi valorizada assim como os grupos musicais, os corais, os pintores, escultores, grupos de dança ou de teatro (e ainda dos mais diversos seguimentos artísticos, citando aqui os diretores de filmografias, fotógrafos e artistas em geral).

Falar em consumo seria erro, apesar de muitos considerarem essa valorização (ou falta dela), culpa do sistema capitalista de oferta e procura. Por detrás de cada peça de teatro, por exemplo, existem compras e vendas de tecidos, maquiagens, aparelhagem de som e de iluminação; por detrás de grupos de leitura ou escrita, o comércio da própria editoria (e de bens que combinam com a leitura. O café seria um ótimo exemplo). O comércio lucra com a cultura. Existem planejamentos turísticos que envolvem completamente a cultura, até no sentido mais simples da arte, falando da arquitetura europeia, que há séculos e séculos, atrai pessoas para suas viagens e vielas de sonhos de consumo.

O maior ponto do desinteresse, é que por detrás da cultura artística, falamos de pessoas que muitas vezes não tem o interesse em expandir. Não seria medo nem objeção, seria a simples falta de interesse em tirar a arte dos nobres. 

Recentemente houve em todo o País, a Conferência de Cultura proposta pelo Ministério da Cultura (Minc), onde deveriam ser levantadas propostas de nível municipal, estadual e federal. Me assustei ao ver como as pessoas têm apenas interesses próprios por detrás do fazer cultura. Eu, assim como amigos presentes fazedores de cultura, nos assustamos ao percebermos e entendermos o porquê da cultura não ser valorizada. A cultura sempre esteve e sempre estará na mão de poucos porque são poucos que querem investir nela, e nisso, não digo apenas o financeiro, mas o sentido puro do termo, de "perder tempo ganhando cultura", o homem do século 21 valoriza o tempo como o ar que respira, e a cultura passou a ser segundo plano, quando o maior entretenimento está no simples on-off do controle remoto dessa remota cultura. 

Durante a Conferência, levantei alguns temas para as pessoas que estavam no meu grupo poderem debater. Desde questões que envolviam a simples organização do sistema (departamentos de Educação se separarem dos de Cultura), até a relação de verbas e financiamentos e acessibilidades à cultura. Notei que o principal ponto não está em estabelecer metas ou taxar verbas. Não é simplesmente pensar no que é feito, e em quem faz - em qual seguimento de cultura ou qual "artista" está fazendo - mas notar para quem está sendo feito. Pensar em quem se faz... 

Quando digo isso, fico com medo, e é neste ponto que imagino o dia em que Marx for obrigatório nas escolas, em como reagiriam os burgueses. Não devemos pensar no que é feito, mas para quem é feito. Pensar nas pessoas que devem consumir cultura, e não nas que podem consumi-la.

O segundo lado da moeda está justamente em pensar naqueles que não consomem a arte cultural. O Brasil ainda precisa se erguer no ramo artístico e se aproveitar da cultura em seu solo, mas como vamos fazer para que os que ainda não consomem arte começarem à consumir?

Antes de tudo, temos que traçar o perfil daquele que não consome livros, não vai ao cinema, não vai ao teatro ou não assiste às apresentações musicais. Pensar nessa pessoa, é imaginar o porquê destes pontos não serem feitos: falta de tempo? Muitos alegam isso, mas o que é tempo, quando se pode deixar algumas coisas em segundo plano?; não saber que existem? Ai então cabe o ponto sério da divulgação; não querer porque não gosta? Não se odeia alface sem nunca ter comido; não ter dinheiro? Ai entramos em um ponto sério... 

A ministra Marta Suplicy,
criadora do Vale Cultura.
O Vale-Cultura deve ser sancionado pela presidente Dilma em agosto e começar a funcionar em setembro, segundo informou segunda-feira, 15, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, em encontro com empresários na Fiesp. O Vale permite que o trabalhador que ganha até cinco salários mínimos receba um benefício mensal no valor de R$ 50 para gastar em produtos e serviços culturais: cinema, teatro, shows, compras de livros, CDs, DVDs. O trabalhador vai dispor de cartão magnético. As empresas de lucro real que aderirem podem descontar até 1% do imposto a recolher no benefício.< Em setembro, informou Marta, o MinC contará com R$ 300 milhões em renúncia fiscal para o Vale-Cultura. As empresas de lucro real são cerca de 5 milhões e 128 mil. O MinC estima que 42 milhões de trabalhadores poderão ser beneficiados (36 milhões ganham até cinco salários mínimos). As estatais, segundo Marta, já estão engajadas. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, prometeu apoiar o programa. "Aqui, da parte da diretoria da Fiesp, terá todo o apoio. A coisa é boa e, como é boa, nós vamos ajudar", afirmou. Ele nomeou André Sturm, do Sindicato da Indústria Audiovisual, para cuidar do tema na federação. O Estado de S. Paulo. 

Marta Suplicy, política brasileira filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi a primeira mulher vice-presidente do Senado Federal até 11 de setembro de 2012, quando foi nomeada ministra da Cultura. Marta promoveu a atualização da Lei Rouanet e ainda a expansão dos Centros Educacionais Unificados (CEU) em regiões carentes, mas sem dúvida, um dos maiores feitos enquanto na política e na Cultura, foi a criação do Vale-Cultura: uma espécie de bolsa para aqueles que recebem até cinco salários mínimos, de R$ 50 para consumir cultura, sendo portando, uma forma de fomentar a economia criativa, a economia cultural, os pensamentos ligados ao turismo e a cultura e principalmente, o "fazer" da arte.

O segundo lado da moeda é justamente dedicado a essas pessoas, aos que não consomem cultura e que agora poderão consumir. O segundo lado, diferentemente do primeiro, não é relacionado aos que fazem, mas aos que recebem a cultura. Aos que buscam a mesma, mas não tem condições.

Que faltam iniciativas culturais, isso sem dúvida devemos admitir. Os ministérios e secretarias jamais se preocuparam com a cultura desenvolvida nas alcovas dos municípios, isso cabe à eles mesmos, mas como os municípios, muitas vezes carentes de recursos, poderiam investir em sua cultura interna? Faltam planejamentos que visam os escritores, os músicos, os dançarinos e demais artistas, falta, principalmente, investimento, e acima disso, a política, dedicada aos artistas.

Devemos pensar em que consome a arte no País, ela ainda é fadada à elite, e produzida ou patrocinada por ela. Dizem que o pobre não gosta de cultura, que não frequenta teatros porquê não sabe se portar. Lástima maior não há do que ouvir isso! Crianças só gostam de verduras quando as comem, e nós, como Rousseou disse e como fiz questão de mencionar no início da fala, somos sempre absorvedores do mal do meio social. Somos modificados por ele. Que sejamos o exemplo vívido de ter um povo que ama a cultura artística, que faz questão de querer ir ao teatro ou cinema.

Até que enfim, alguém dentro do mais alto escalão que responde por cultura (acredite, existem lugares que ainda falamos de cultura artística), entendeu que o motivo está na reeducação popular para consumir cultura e acima disso, o incentivo, afinal, todos nós leitores, sabemos que livros custam caros, filmes custam caro, teatro custa caro...

O povo bradou e alguém entendeu: A gente não quer só comida!

(E o governo finalmente entendeu que não é apenas o investir na cultura feita ou nos que fazem, que muitas vezes tem paixão ao voluntariado. O X da questão é o consumo, o público. Quem está consumindo? Agora, para a tristeza da burguesa, a empregada se sentará junto para assistir Hamlet - dizem que é ótimo!)


Titãs é uma das poucas bandas boas que ainda sobrevivem pelo apresso da cultura artística brasileira. Considerada uma das quatro maiores bandas do BRock, foi formada em São Paulo em 82. Com mais de vinte discos gravados e com diversos prêmios ganhos, a banda ainda sobrevive com quatro dos seus inicializadores. 

A música em questão, mostra exatamente o ponto que quis traçar durante todas essas linhas: quem realmente quer cultura artística? É interessante perceber a relação que a letra da banda em questão nos traz. Como disse no começo, o homem ao longo de sua evolução, produziu sociedades e com elas, suas culturas. O que o difere dos outros animais não é viver em grupo, mas o ato de estabelecer cultura. Não somos simples animais para aceitarmos que bebida é água e que comida é pasto (grama). Somos seres pensantes - ou tentamos ser - e não aceitamos com facilidade pensamentos de submissão. Queremos ser mais, e esperamos recebermos mais. 

A cultura sempre foi o ato conjunto da sociedade, e a arte (inspirada dessa cultura) sempre foi seleta, jamais se abrindo para todos. A elite sempre foi privilegiada na compra de cultura, afinal, o capitalismo nos propõe até a compra do que deveria ser garantido por lei. Eis o momento, massa, de se aproveitarem, o vale cultura vem como a "necessidade e vontade, necessidade e desejo"; eis o momento, artistas, de se aproveitarem dos bens que lhe são garantidos e exigirem melhorias para o trabalho que é tão importante no desenvolvimento da história social e da vivência. O mundo atualmente tem a facilidade de troca de comunicações, a cultura nunca foi tão democrática como hoje, e que saibamos fazer o uso dessa democracia e expandir o conhecimento contido em páginas, peças de teatro, filmes, CDs, quadros... A sua preferência de consumo! "Você tem fome do quê?".

Eduardo Rezende - Tenho 17 invernos de vida, sou jornalista, idealizador de um "Grupo de Debates", membro da "Casa do Escritor Pinhalense Edgard Cavalheiro", gosto muito da música popular brasileira, do nosso rock nacional, e de livros e café que aconcheguem e combinem. Fiz trabalho voluntário em Sala de Leitura e Estudo/Biblioteca, apaixonado por estudo de religiões, sociedade e simbolismos.

3 Comentários

  1. Parabéns pelo texto, Eduardo!

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  2. Eu sinceramente sou contra o vale-cultura, é mais outra forma de iludir o povo, fazendo com que a classe menos favorecida pense que a vida dela está " melhorando". É mais um "agradinho" do governo.

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  3. Posso falar como parte interessada nesse assunto. Sou formado em Teatro, e sei o quão trabalhoso é uma montagem de uma peça. Mas é extremamente frustrante quando o espetáculo está todo pronto, e quando abrem-se as cortinas, você percebe que tem mais pessoas envolvidas na montagem, do que pessoas na plateia. Praticamente paga-se pra trabalhar.
    Está muito longe do ideal, mas acho que esse vale-cultura pode ajudar na "conquista" de público. Seja para qualquer segmento de arte.

    @_Dom_Dom

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