Foto: Reprodução
O sobrenome Andrade é muito bem representado na literatura com três importantes escritores. Apesar de nenhum parentesco, Oswald, Mário e Carlos são fundamentais para a história do modernismo no Brasil, por isso, ao homenagear Carlos Drummond de Andrade, estamos homenageando não apenas um escritor, mas toda uma geração que ficará marcada eternamente na história da literatura.

Filho dos fazendeiros Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade, primos e membros das duas famílias mais ricas da cidade mineira de Itabira, Carlos nasceu em 31 de outubro de 1902 na cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Ainda adolescente, após estudar o curso primário em sua terra natal, estudou em um colégio da capital mineira e só então se mudou para Nova Friburgo-RJ, onde frequentou as aulas de um colégio de jesuítas até ser expulso por “insubordinação mental”.

Em 1920 volta para Belo Horizonte e no ano seguinte passa a publicar seus textos na seção “Sociais” do jornal Diário de Minas. Na mesma época conhece vários importantes nomes que frequentavam o Café Estrela ou a Livraria Alves. Entre os novos amigos de Carlos Drummond estão João Alphonsus e Aníbal Machado.

O primeiro prêmio do poeta acontece graças ao conto Joaquim do Telhado, vencedor do concurso Novela Mineira em 1922, mesmo ano em que publica trabalhos em duas revistas: Todos e Ilustração Brasileira.

Formado em farmácia, Carlos Drummond de Andrade se casou em 1925 com Dolores Dutra de Morais, mãe de seus dois filhos: Carlos Flávio, que viveu apenas por meia hora, e a futura escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. No mesmo ano funda A Revista, que tinha como objetivo divulgar o modernismo no Brasil. Vale ressaltar ainda que essa revista foi fundada um ano após Carlos conhecer três dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922: a pintora Tarsila do Amaral e os escritores Oswald de Andrade e Mário de Andrade, com quem troca correspondências até a morte de Mário, em 1945.

Ao longo dos anos, Carlos Drummond de Andrade trabalhou em várias áreas da imprensa brasileira, como redator do A Tribuna, redator-chefe do Diário de Minas, auxiliar de redação do  Minas Gerais, órgão oficial do Estado, e da Revista do Ensino da Secretária de Educação.

Já o primeiro livro de Carlos Drummond foi Alguma Poesia, publicado originalmente em 1930 com uma tiragem de 500 exemplares pagos pelo próprio poeta. Mais tarde, em 1934, publica Brejo das Almas, com apenas 200 exemplares, no entanto seu trabalho passa a ter um reconhecimento maior apenas na década de 40, quando publica José (1942) e A Rosa do Povo (1945), sua maior coletânea.

Carlos Drummond de Andrade trabalhou, ainda na década de 30, como chefe de gabinete do então Ministro da Educação e Saúde Pública: Gustavo Capanema. Deixou o cargo para trabalhar com Luís Carlos Prestes em um jornal comunista, porém também se afastou após discordar das orientações impostas pelo diário.

Ao longo de sua vida, o poeta ganhou ainda inúmeros prêmios por sua obra, incluindo o Prêmio Padre Ventura em duas oportunidades, 1958 e 1962, e os Prêmios Fernando Chinaglia e Luísa Cláudio de Sousa, em 1963. Após sua morte sua obra também foi reconhecida com o Prêmio Jabuti, maior premiação da área literária do país, pelo livro O Amor Natural, publicado postumamente em 1992.

Apesar de ser um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, em suas primeiras obras as características da escola literária, que pregava o rompimento com o passado e a utilização de técnicas diferentes das tradicionais, não era tão marcante. Isso não impediu que mais tarde Drummond se tornasse um dos mais influentes poetas de sua época, tendo suas obras traduzidas para o espanhol, o inglês, o italiano, entre outros.

Considerado por muitos o “poeta maior”, Carlos Drummond disse em entrevista realizada pela jornalista Leda Nagle que protesta contra essa classificação. “Isso não tem sentido nenhum. As pessoas são poetas ou às vezes se esforçam por serem poetas. Mesmo os bons poetas às vezes deixam de ser, eles se esquecem e fazem coisas que são vulgares, são banais, eles se repetem. Acho que não há essa medida do poeta”, revelou na ocasião.

Sua obra ultrapassou gerações justamente por, além de defender a liberdade poética, escrever versos objetivos para falar sobre o homem, a família, os amigos, entre outros temas recorrentes em sua extensa obra. Obra essa que não agradou a todos, o que é natural, e inclusive foi alvo de críticas ainda na década de 20, quando publicou o poema No Meio do Caminho. Considerado um dos maiores escândalos da literatura brasileira, após a publicação do poema esse foi tão criticado que mais tarde, quase quarenta depois, Drummond publicou o livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema, que reúne todos os comentários e matérias dedicadas exclusivamente ao poema.

Poeta, contista, cronista e tradutor, Carlos Drummond de Andrade já foi interpretado no cinema e na televisão, mas isso foi apenas um detalhe. Nem mesmo o tempo será capaz de apagar a história e a obra de um dos maiores poetas do Brasil – e não seria exagero dizer um dos maiores do mundo – que faleceu em 17 de agosto de 1987, aos 84 anos, poucos dias após a morte de sua filha Maria Julieta.

Sabemos que onde quer que esteja, Drummond continua poetizando e encantando com a simplicidade de seus versos, assim como seus versos continuarão nos encantando para sempre, porque Drummond é eterno. Drummond é imortal, um Imortal da Literatura.

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim” – Carlos Drummond de Andrade em “Ausência”.



Carlos Drummond de Andrade - 31/08/1902 - 17/08/1987

6 Comentários

  1. Esse cara é incrível, sem mais.

    Isto é que é cultura, algo que me fascina a cada palavra escrita em um dos livros dele, e eu achei mais que digno uma passagem de um autor famoso num blog como o OverShock. Incrível!

    Abraços,
    http://cacandolivros.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Sem palavras pra Drummond. Verdadeiro clássico da literatura, todo mundo deveria ler pelo menos um dos livros dele. Incrível. Matéria ficou muito show, parabéns Rica *-*

    ResponderExcluir
  3. Pelo jeito o sobrenome Andrade é sinônimo de talento nato, pois três dos nossos principais artistas tem esse sobrenome. #Reverência Rsrsrs
    Drummond dispensa comentários mesmo. Homenagem merecidíssima.

    @_Dom_Dom

    ResponderExcluir
  4. Nara Brasil do Amaral14 de setembro de 2013 17:49

    Não há como negar que Carlos Drummond de Andrade é um do maiores nomes do modernismo brasileiro. Seus poemas receberam críticas, muitas vezes duras e severas, mas suas obras se eternizaram no tempo e comprovaram que eram de fato um patrimônio literário.
    Adorei saber um pouco mais sobre sua vida e me interessei muito quando soube que ele publicou o livro 'Uma pedra no meio do caminho - biografia de um poema', pois confesso que nunca entendi direito, por mais que eu me esforçasse, esse poema em especial.
    Achei uma pena ele não ter recebido o Prêmio Jabuti quando ainda estava vivo, mas acho que o seu maior prêmio foi ter suas obras reconhecidas pelo povo e terem permanecido vivas ao longo do tempo.
    Uma linda homenagem, parabéns!!

    ResponderExcluir
  5. A "biografia desse poema" foi o que mais despertou meu interesse enquanto pesquisava para realizar essa homenagem, Nara. Fiz inúmeras leituras, tentando encontrar um significado para as palavras do grande Drummond, mas também não entendi o verdadeiro significado. Um dia antes dessa postagem ir ao ar, conversando com um amigo jornalista, chegamos a três diferentes análises, o que não significa que chegamos perto de um entendimento.
    Quem sabe a leitura desse livro proporcione esse entendimento...
    Aliás, muito obrigado pelas palavras. Fico feliz que tenha gostado da postagem.

    ResponderExcluir
  6. Posso conta uma coisa muito feia? Odeiooooooooo poesia, poema e derivados. Sinceramente quando minha professora passava livros do gênero eu quase pedia para morrer, não consigo ler 3 páginas sem dormir antes. Sei que é feio dizer isso, mas é verdade. Mas não posso negar que Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores autores da história brasileira.

    ResponderExcluir