Para a nova geração de leitores, que tiveram o hábito da leitura despertado graças a grandes sucessos editoriais, relacionar literatura e política pode ser uma missão complicada. No entanto, quando paramos para analisar os grandes clássicos de nossa literatura, fica clara a intenção dos antigos intelectuais em mudar a história através de seus livros.

Foto: Ricardo Biazotto/Over Shock
O historiador e comentarista do Jornal da Cultura Marco Antonio Villa, palestrante da noite de terça-feira, 13, na Semana Edgard Cavalheiro, iniciou sua palestra “Política, História e Literatura” comentando sobre casos em que escritores foram os protagonistas da história política do país. “Você vê que no século XIX, muitos dos livros tratam da questão da escravidão, vou lembrar o caso de “O Cortiço”, por exemplo. No século XX, nos anos 30 e 40, o romance regionalista tem sempre uma temática social. Então em vários momentos da literatura brasileira ela dialogou com as questões da sociedade brasileira, ou durante o Império ou durante a República”, disse durante entrevista após sua palestra.

O historiador ainda comentou que com o passar do tempo houve um afastamento das relações entre escritores, intelectuais e a vida política. “Pode ser também, não sei por que, a literatura brasileira foi perdendo grandes nomes. É difícil você encontrar grandes nomes da literatura brasileira com menos de cinquenta anos. Você vai procurar, procurar e vai ter uma dificuldade”, explicou.

Antes da entrevista, em uma palestra de tom irônico e muitas vezes engraçado, Marco Villa mostrou o motivo de ser considerado um grande crítico do sistema político de nosso país. Ainda no início, diz achar engraçado que um político condenado em mais de 100 países, como é o caso de Paulo Maluf, continue sendo recebido por prefeitos, governadores e outros políticos brasileiros. “Algo que só acontece na terra descoberta por Cabral”, brincou em outro momento.

Segundo o historiador, o grande problema da política brasileira é o fato do país ser refundado a cada década. Villa cita como exemplo as mudanças que o país sofreu após o fim da ditadura militar e a primeira eleição democrática, em 1985, que elegeu Tancredo Neves. Após o falecimento de Tancredo, que não chegou a tomar posse, o vice-presidente José Sarney assumiu a presidência no momento mais importante da história política recente do país. Na mesma época iniciou uma série de fracassos nos planos de estabilização econômica, enquanto que na eleição seguinte, o presidente eleito, Fernando Collor de Mello, acabou sofrendo o processo de Impeachment. “Collor foi primeiro candidato à presidência a lutar contra a corrupção e a sofrer o processo de Impeachment devido à corrupção”, declarou Villa.

Continuando seu relato sobre a história da política brasileira, Marco Villa disse que Itamar Franco, vice-presidente e substituto de Collor após o Impeachment, assumiu a presidência em um momento catastrófico. Mas foi a partir daí, com a elaboração do chamado Plano Real pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que a economia brasileira se estabilizou.

No entanto, Villa ainda declara que o Brasil cresceu apenas devido ao boom da economia chinesa na última década do século XX, o que movimentou, entre outras coisas, a exportação dos produtos brasileiros. Já sobre o momento da economia, que o atual governo diz estar avançado desde 2003, quando o ex-presidente tomou posse, Villa cita como exemplo a estimativa do crescimento do país ao fim de 2013: “O Brasil vai crescer 1/3 ou metade em relação a outros países emergentes. Isso devido a nossa péssima política econômica”.

No fim de sua palestra, o historiador ironizou os discursos da presidente Dilma Rousseff durante as manifestações que ocorreram nas últimas semanas e disse que não temos alternativas para a próxima eleição, explicando com exemplos em relação a todos os prováveis candidatos: Aécio Neves, Eduardo Ribeiro, Marina Silva e a própria Dilma Rousseff, que tentará a reeleição.

Por fim, ao ser questionado durante entrevista sobre o processo de produção de seus livros, Marco Villa, autor de Mensalão - O Julgamento do Maior Caso de Corrupção da História Política Brasileira, disse que “o trabalho do historiador é um pouco diferente do que o trabalho do escritor romancista, por exemplo, porque ele trabalha com fontes, primárias, secundárias e tal, portanto todo trabalho depende dessas fontes”. “É um trabalho tão solitário, porém ele parte de um objeto, ele faz o seu estudo, levanta hipótese sobre esse objeto, estuda e tal, sempre de acordo com as fontes que ele tem acesso. É sempre um trabalho, na maior parte das vezes, solitário”, completou.

Também em entrevista, o vice-prefeito Municipal e um dos organizadores da Semana Edgard Cavalheiro, João Detore, comentou sobre a importância da presença de um historiador com trabalhos ligados a política em uma semana literária: “É uma maneira de você conscientizar a população. Política é uma coisa bela, é uma filosofia de vida. Problema são os políticos”, e completou, “então a gente teve uma oportunidade de saber que existe jeitos, existe envolvimento da sociedade”.

9 Comentários

  1. Realmente, os problemas são os políticos, e nós, jovens de hoje precisamos acordar e mudar essa situação.

    ResponderExcluir
  2. Realmente, os problemas são os políticos, e nós, jovens de hoje precisamos acordar e mudar essa situação.

    ResponderExcluir
  3. Se tem um assunto que não me interessa tanto é justamente esse: A Política. Mas concordo com o que o Marco Antônio Villa e o João Detore falaram. E pegando essa "seleção de presidenciáveis", podemos perceber que estamos lascados para as próximas eleições. Rsrsrs

    @_Dom_Dom

    ResponderExcluir
  4. Giselle de Oliveira23 de agosto de 2013 06:16

    Também não consigo entender o que tem de errado com o povo daqui, sinceramente não devia ter que existir Ficha Limpa o povo é que deveria ter consciência quando fosse votar.

    ResponderExcluir
  5. Eu realmente gosto de polotica, não sei se leria um livro como Mensalão, mas acho que até tentaria. Eu concordo, que até chega a ser engraçado um político condenado em vários países continuar sendo recebido por prefeitos, governadores e outros políticos brasileiros. É uma pena que o Brasil seja assim :/

    ResponderExcluir
  6. É a politica continua sendo um grande problema aqui no Brasil, não exatamente a politica e sim os políticos, e o maior problema é que somos nós que colocamos essas pessoas no poder...

    ResponderExcluir
  7. Não sou muito fã de política e menos ainda do histórico político brasileiro. É de um desânimo enorme testemunhar tudo o que acontece nesse país e passa desapercebido pela população que deveria aprender a escolher melhor seus governantes. Ficamos reféns desses inescrupulosos quando, na verdade, temos todo o poder de mudar nossa realidade se soubermos como escolher e como cobrar.
    Mesmo assim, é muito importante abordar esse assunto, ainda mais em um evento cultural; não existe mais desculpa para que não se discuta sobre política e acredito que, quanto mais frequente for essa abordagem, maiores as possibilidades de podermos mudar a situação do nosso país. Não só pelas manifestações, mas também na hora de avaliar e votar nas próximas eleições. :D


    Beijos,

    Only The Strong Survive

    ResponderExcluir
  8. Nara Brasil do Amaral14 de setembro de 2013 16:06

    Essa noite deve ter sido uma das maiores aulas da história política do Brasil. Confesso que fiquei impressionada com algumas palavras de Marcos Villa e também a forma como elas foram ditas. Realmente é difícil você encontrar grandes nomes da literatura brasileira com menos de cinquenta anos e mais difícil ainda encontrar pessoas que realmente curtam ler livros com base na politica brasileira e os problemas sociais e econômicos que a mesma acarreta ao longo do tempo.
    Adorei as palavras de João Detore, logo no fim desse post, quando o mesmo disse "...Política é uma coisa bela, é uma filosofia de vida. Problema são os políticos.', acho que isso resume uma fase que tive há um tempo atrás quando estava estremamente frustada e decepcionada com os políticos brasileiros que acabei por odiar a política, só mais tarde é que fui mudar de ideia...

    ResponderExcluir
  9. Tenho certeza que foi uma noite fantástica. Eu adoooooooooro a história política Brasileira. Antes de optar por fazer direito, sempre tive minhas dúvidas em relação a cursar história, sempre foi minha matéria preferida. Com certeza que teria adorado essa parte do evento.


    PS. Adoro 'O Cortiço' em minha opinião é uma das melhores obras nacionais.


    Beijos

    ResponderExcluir