Em meu primeiro artigo para o Overshock, defendi a tese que a leitura obrigatória nas escolas pode ser aprofundada, expandindo horizontes e fazendo os alunos reverem obras anteriores dentro do mesmo tema (lembro de um debate épico meu com leitoras porque indiquei Drácula aos leitores de Crepúsculo).

O que mudou de lá pra cá?

Nada. Eu também aprofundei os meus estudos.

Fora da jurisdição escolar, temos:
  • A estigma trazida com os portugueses da religião católica que defende que você ouça o padre enquanto a protestante (nos EUA, imposta pelos ingleses) defende que você leia a bíblia;
    NOTA: quem me disse esta foi ninguém menos que o escritor brasileiro Pedro Bandeira (foto), em uma palestra pelo aniversário de 50 anos do caderno infantil do jornal Folha de São Paulo, o Folhinha.
  • Pais das classes menos favorecidas preferem usar uma TV como babá do que ler uma história para o filho antes de dormir;
  • Livros são relativamente caros e os mesmos pais de família citados acima usam desta desculpa esfarrapada para não adquirirem livros aos seus filhos (mais vale vestir o filho com marcas que ele quer ou que “todo jovem usa” do que ensiná-lo a ler as obras adequadas);
  • Ainda existem gerações de crianças criadas pelos avós, que por sua vez são analfabetos (tendência: daqui a 70 anos as crianças sejam educadas por avós sem prática de leitura ou analfabetos funcionais).

Dentro da jurisdição escolar, temos:
  • Professor VS vida do aluno (descrita acima);
  • O conceito de leitura relacionado à literatura, que por sua vez virou “palavra difícil” e daí, associada a algo difícil;
  • A leitura por prazer, disseminada em nossa sociedade dando a ideia do aluno ler o que lhe interessa, seja atrativo e lhe dê prazer (só que sem o hábito, o sujeito não lê de jeito nenhum);
  • Caso clássico e comum: escolas com problemas de estrutura e orçamento. Exemplo:
O que é melhor a ser feito com o orçamento?

  1. Renovar o almoxarifado
  2. Trocar as mesas e cadeiras quebradas
  3. Tinta para apagar as pichações
  4. Renovar ou ampliar a biblioteca
  5. Um pouquinho de tudo”
Meu Deus!

Dado as condições dentro e fora das escolas, o melhor que podemos ter é o que eu chamo de “leitura torta”, quando em alguma época, pode ser que o jovem comece a ler o que lhe pareça bom. Se for ruim, pega trauma (típico da nossa mentalidade de chorar na voz, enfiar o rabo entre as pernas e fugir). E se for bom, pega interesse. É um “jogo de risco”.

Série Vagalume. A série que (quase) toda criança
conhece, mas mal leram 10% das obras
Uma consequência desta forma de leitura é o que tenho visto com as pessoas da minha idade, que eu chamo de Geração Harry Potter e Crepúsculo. Leitores ávidos daquilo que lhes interessam e que não têm o menor respeito por obras derivadas ou anteriores. Colocam estes textos num pedestal inalcançável.

NOTA: não estou ofendendo esta geração. Eu mesmo sou dela e gosto muito de Harry Potter. Só que é cada vez mais raro encontrar pessoas que alega terem lido a série Vagalume ou o Sítio do Pica Pau Amarelo.

Às vezes tem pai que compra tênis de grife,
mas não quer gastar dinheiro comprando ‘livrinho’.
Prefere investir no pé do que na cabeça do filho!
O que pode ser feito? Cortar o que é errado (seu filho precisa mesmo de uma camiseta escrito Gangster?), ponderar o que faz parte (a TV também tem o seu lado educativo. Só que precisa ser monitorado e o bom senso adulto deve prevalecer ou do contrário, temos mais um suposto caso de violência associado ao jogo Assassins Creed) e por último, oferecer e criar hábitos de leitura. Gibis da Turma da Mônica e Revistas Recreio devem acompanhar a criança até certa idade, assim como obras infantis. E nem me venham falar que não conhecem autores, pois numa rápida pesquisa no facebook, só no Brasil encontrei nomes como Sylvia Orthof, Tatiana Belinki, Ruth Rocha, Ricardo Azevedo, Nena de Castro, Cida Pinho, Goretti Freitas, Marilia Siqueira Lacerda, Manoel de Barros, Ziraldo, José Paulo Paes, Cecília Meireles, André Neves, Fábio Sombra, Júlio Emílio Braz, Heloisa Prieto, Maria Clara Machado, Jean-Claude R. Alphen, Rafael Soares de Oliveira, Sérgio Fantini, Ana Elisa Ribeiro, Ana Maria Machado… e depois um Pedro Bandeira e autores estrangeiros podem vir a calhar.

Quando fazer isto? Antes da criança dormir, depois acompanhando-a quando ela já estiver alfabetizada e levá-la nas livrarias em vez de estádios já é um bom começo. Muitos vendedores conhecem obras para diversos públicos.

Sem mais.

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora.
Contato: davi_paiv@hotmail.com

3 Comentários

  1. O que essa garota escreveu no Orkut é uma agressão aos meus olhos e cérebro. Rsrsrs
    Concordo com tudo o que você expôs aqui. O que se precisa é criar esse gosto pela leitura desde criança mesmo, pois depois de uma certa idade, fica difícil de fazer alguém gostar de ler. Eu mesmo comecei pelos quadrinhos da Turma da Mônica, e hoje não me vejo sem ler. Agora que esse processo vai ser complicado e muito longo.

    @_Dom_Dom

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  2. Nara Brasil do Amaral14 de setembro de 2013 21:59

    Concordo plenamente com você, é preciso que se tenha um incentivo a leitura por parte dos pais ou parentes próximos da criança - acho que esse seria um bom começo. As escolas também poderiam criar projetos que estimulem os estudantes a ler mais e assim respeitar os diversos gêneros literários.

    É preciso que as pessoas em geral saibam que se aventurar nos livros pode ser tão divertido quanto assistir um filme ou jogar video-game...
    E enquanto ao comentário da garota, 'Crítica: Livros para o vestibular', eu simplesmente não tenho nem o que falar sobre isso, sinceramente me entristece ver que existem pessoas que pensem assim :/ ...

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  3. Eu fui uma das pessoas que ' discuti ' com você em relação ao tema. Bom nos tempos de escola eu li de tudo um pouco, os clássicos passados pelos professores e também outros livros. ( inclusive eu li a série Vagalume inteira \o/ ) Eu sou uma defensora de que devemos incentivar crianças a lerem por meio de livros que eles acham que vão se adaptar melhor. Digo por experiência própria,que alguém da quarta série não tem digamos no popular 'saco' para ler Machado de Assis. Não que eu tenha algo contra Machado de assis, mesmo porque eu já li grande parte da sua obra. Mas a linguagem de Machado é muito culta para ser empurrado garganta abaixo das crianças. Quando eu disse que por experiência própria se deve ao fato de que desde a quarta série, minha professora me entrega livros para que eu lesse e opinasse se ela deveria incluir tal obra no programa do próximo ano e confesso que até a 8ª série recusei para meus colegas todas as obras de Machado, mas aprovei alguns livros do Fernando Sabino, que tem uma linguagem bem fácil, a versão reduzida de Os miseráveis também é uma ótima pedida, bem como outros clássicos. Lembro que na 6ª série uma professora passou O fantasma da ópera e a única pessoa que conseguiu terminar de ler fui eu. KKKKKKKKK. Acho que por isso eu defendo que as crianças devem ser incentivadas com aquele livro que ela mais gosta e depois quando tiver o o hábito da leitura é que ela deve conhecer os nossos maiores escritores, penso que só dessa forma ela saberá apreciar uma boa literatura e saberá de fato reconhecer um clássico ;) Não que meus livros fúteis não sejam clássicos para mim. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK


    Beijos

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