Foto: Divulgação
A pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) revelou que cerca de 2% da população brasileira segue a doutrina espírita, um aumento de 0,7% em relação ao censo anterior. Isso se deve a inúmeros fatores, mas principalmente pela maneira cuidadosa com que os líderes dessa doutrina trabalham na manutenção e divulgação da obra de Allan Kardec (1804-1869).

Com o objetivo de difundir os ensinamentos da doutrina, o Grupo de Fraternidade Espírita “Irmão Flácus”, de Espírito Santo do Pinhal-SP, em parceria com outras casas espíritas da cidade, realizou o 2º Festival do Livro Espírita, que ocorreu entre os dias 1 e 4 de agosto, com abertura especial no dia 27 de julho.

Em entrevista concedida com exclusividade ao blog Over Shock, o secretário do Grupo Flácus, Ary Oswaldo, revelou que o evento foi baseado “em uma experiência com o Festival do Livro Espírita de São Bernardo (do Campo)” e que tudo começou com o Clube do Livro Espírita. Segundo Ary, após a aceitação no Clube do Livro, “o caminho lógico seria fazer uma Feira do Livro Espírita”. “O formato de hoje, que a gente tem visto por aí, não é só a Feira, é o Festival”, explicou ao comentar que além da exposição o evento conta ainda com apresentações culturais, palestras e cursos sobre a doutrina espírita.

Como citado, a abertura do evento aconteceu na noite do dia 27 de julho, quando o grupo Flácus apresentou a peça Cenas da Vida Espírita no Cine Theatro Avenida. Sobre as apresentações teatrais do grupo, Ary disse que fechou patrocínios para as atividades realizadas ao longo do ano e que serão três peças diferentes em 2013, trabalhando com várias faixas etárias.

A abertura oficial do evento aconteceu na noite do dia 1º de agosto na Associação Espírita Vicente de Paulo. Como atração da noite, Avildo Fioravante, da cidade de Águas da Prata, realizou a palestra “Que Homem Sou Eu?”. Já nos dias seguintes, aconteceram palestras em dois locais diferentes, além da Feira do Livro, realizada na Praça da Independência, Centro da cidade. Martha Rios Guimarães realizou ainda um curso sobre “Educação Espírita Infanto-juvenil”, enquanto o Cine Art Café exibiu o filme As Mães de Chico Xavier.

Jesus, quem é este homem?
Foto: Ricardo Biazotto/Over Shock
Na noite de sexta-feira, 02, também na Associação Vicente de Paulo, André Luis Rosa ministrou a palestra “Jesus, quem é este homem?”. Autor dos livros Não Espere Mais, Seja Feliz Agora e Páginas ao Vento, André comentou, também em entrevista exclusiva, que busca “escrever para os espiritas e para os não espiritas; gente que está chegando no espiritismo e simpatizantes da doutrina”. Segundo ele, Páginas ao Vento tem como objetivo dar respostas a quem perde entes queridos de forma precoce. “O livro fala do desencarno de crianças, morte de criança. Quem tem esse assunto em casa, para quem está passando por isso, realmente é um livro que vai ter bastante resposta”, afirmou.

Sobre os diversos conflitos religiosos que existem ainda nos dias hoje, André Luis, que ao comentar sobre Jesus em sua palestra usou exemplos de representantes de várias religiões, disse acreditar que “ninguém conflita com ninguém, porque não há interesse nenhum em um atacar a religião do outro. Acho que todo mundo já entendeu isso”. “(As pessoas) estão interessadas em um ambiente que possam se sentir bem, estudar o que ela tem interesse”, completou.

No momento mais importante de sua palestra, André Luis contou a bonita história de um garoto que precisou passar por uma cirurgia no coração. Antes da cirurgia, em conversa com o médico que faria o procedimento, o garoto revelou que ele encontraria Jesus ao abrir o seu peito. Mesmo não acreditando, mais tarde o médico se encontrou com Jesus e se viu obrigado a agradecer ao garoto por esse encontro.

Ao ser questionado sobre “quem é este homem”, André disse que “este homem é aquele que mudou a historia da humanidade, aquele que veio até nós e que deixou um modelo; que é um modelo que nós podemos seguir. Evidente que nós não vamos ser como Jesus, mas nós podemos botar no nosso dia-a-dia algumas ações ditas por Jesus pra que a gente possa se equilibrar”.

“Quando nasceu Jesus no nosso coração?”, perguntou já no fim de sua palestra, mas foi no fim da entrevista que disse que a mensagem que poderia deixar era: “(devemos) prosseguir sempre”.

A Literatura e a Educação Espíritas na Atualidade
A Escola Estadual “Cardeal Leme” abriu suas portas para a realização da palestra da noite de sábado, 03. Comentando sobre a literatura espírita e as formas de se educar usando as doutrinas espíritas, Jéferson Betarello comentou sobre o crescimento dos adeptos da doutrina nos últimos anos e fez comparação entre a comunidade espírita de diferentes estados do país.

Segundo Jéferson, a importância da literatura espírita se deve ao fato de ser uma forma de ensinar as bases e divulgar de forma correta a doutrina, além de servir como fonte de renda, informação e pesquisa. Ele ainda disse que as associações espíritas foram obrigadas a aceitar livros não-espíritas pela necessidade de renda, e que os livros só podem ser considerados do gênero quando seguem as doutrinas explicitadas na obra de Kardec.

Para se entender o atual momento do mercado editorial espírita, Jéferson Betarello indicou a obra Análise do Mercado Editorial Espírita, de Ivan Franzolim, e aproveitou a entrevista realizada na manhã de domingo, 04, para explicar que “existe um mercado dito espírito, e não há um conceito, um filtro do que seja espírita, então pode existir coisas nesse meio que não são verdadeiramente espírita”. Jéferson ainda afirmou que até pouco tempo atrás existia uma dificuldade para mapear os livros que seguiam ou não a doutrina explicitada por Kardec. “Foi passada a mensagem que se deveria ter um cuidado de, com base no “Livro dos Espíritas”, com os fundamentos ali contidos, verificar se aqueles livros que estavam sendo publicados como sendo espíritas realmente contribuíam para a difusão do espiritismo de forma correta”, disse.

Sobre os diferentes tipos de livros espíritas, o palestrante disse que existem os livros de pesquisa sobre o espiritismo, “que não seria propriamente um livro espírita”; romances, que tecnicamente é uma ficção e que o espírita acredita “que o médium recebeu e fielmente está transmitido o que foi ditado pelo espírito como sendo a vida dele”; e ainda livros sobre, por exemplo, centros espíritas, mostrando as “ações daquele centro, do ponto de vista do espírita”. Para ele, esse tipo de livro deve possuir ainda a história de “como que aquela casa foi construída, como aquela casa foi atendendo as demandas da sociedade para atender aquilo que nós pregamos dentro da doutrina espírita: a caridade”. “É um livro espírita”, afirmou.

Ainda comentando sobre os romances espíritas, Jéferson que tem um intenso trabalho sobre literatura e religião, comentou sobre muitos leitores acreditarem no que encontram em livros de ficção. Para ele, um exemplo disso é Dan Brown, autor dos livros Anjos e Demônios e O Código da Vinci. “Tem gente que lê aquele livro fala: “Nossa, a igreja Católica é assim”. Não, a igreja católica não é daquele jeito, ele (Dan Brown) parte de eventos históricos e cria uma trama fictícia que explicaria as sequências daqueles eventos com uma coisa que ele bolou, uma história imaginária que ele bolou. Poderia até ser real, mas não se sabe, aquilo não é comprovado”. “Então precisa tomar cuidado quando lê romance (espírita)”, alertou.

Ao comentar sobre a baixa média de livros lidos pelo brasileiro, e fazendo uma comparação apenas entre os espíritas, Jéferson disse perceber que “no meio espírita, nas casas espíritas, tem muita gente que lê bastante e tem gente que não leu sequer O Livro dos Espíritas”. “É uma falha até da casa espírita em não ter conseguido mostrar pra pessoa que ela se diz espírita e sequer conhece “O Livro dos Espíritas”, onde está toda a fundamentação e toda definição do que é ser espírita”, comentou. E como no espiritismo não existe batismo ou qualquer outro tipo de ritual, ele disse: “eu penso que a identidade do espírita, que é um problema tratado inclusive em pesquisas acadêmicas, é como que você diz que uma pessoa é espírita? Isso não vem de fora pra dentro, é de dentro pra fora. A pessoa se declara espírita”.

Ary Oswaldo e Jéferson Betarelo
Foto: Ricardo Biazotto/Over Shock
Sobre a educação de jovens seguindo os ensinamentos de Kardec, Jéferson disse que é necessário rever as obras. “A linguagem e a forma de como a criança interage com o mundo estão mudando. Nós precisamos nos atentar para essas coisas. Produzir conteúdo para a infância que seja mais fácil de ela ter acesso e mais agradável. E, quando eu digo agradável, não é ceder à pressão da mídia ou do comércio”. “Dentro dos limites que nós podemos chegar doutrinários, dentro de uma ética espírita, utilizar as ferramentas para dialogar com a sociedade e com o mundo moderno. Se você não dialogar, você morre”, completou dando possíveis atitudes que facilitariam na hora de divulgar a doutrina para os mais jovens.

Já no final dessa entrevista exclusiva, Jéferson Betarello deixou uma mensagem especial aos leitores do Over Shock: “Aqueles que gostam de leitura, que procurem ler um pouco de tudo, mas selecionando. Nosso tempo é muito precioso, então eu acredito que a gente não deva investir muito tempo em um texto que não tenha conteúdo, que não tenha nada a dizer, porque tem tanta coisa para ler! Se for para ler e dizer que o livro da pessoa não presta, não devemos fazê-lo”. “Vejo muita gente criticando uma religião e gasta tempo estudando todos os defeitos dela. Por que não gastou esse tempo para estudar a religião que você gosta, para promovê-la de uma maneira bonita? Essa é a minha mensagem”, encerrou.

5 Comentários

  1. Nossa, uma mensagem profunda para todos nós, leitores, que fechou com chave de ouro essa matéria incrível da Over Shock. Curti para valer.


    Abraço,
    http://cacandolivros.blogspot.com

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  2. Gostei da postagem xD Pena que esse festival não aconteceu na minha cidade, eu gostaria de ir. A maioria dos livros que tenho são espíritas, eles transmitem mensagens incríveis, e eu recomendo a TODOS.

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  3. Não sou espírita, mas pelo pouco que conheço, acho a doutrina interessante. É de extrema importância quando rolam esses festivais, pois só assim as pessoas podem conhecer um pouco mais sobre o Espiritismo. Pena que não moro perto, pois se morasse, iria.

    @_Dom_Dom

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  4. Nara Brasil do Amaral14 de setembro de 2013 13:50

    Confesso que não curto muito livros espíritas, mas não tenho nada contra o gênero ou a doutrina. Achei interessante o Festival, pois difundi o Espiritísmo e mostra para as pessoas qual é o seu real conceito. Gostaria de ter participado, só que pela data do meu comentário já da para ver que eu perdi o prazo, mas vou ficar mais ligada quando vier outro festival desses, realmente queria ver as peças e palestras para dizer o que eu achava... Quem sabe na próxima!

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  5. Bom! Eu não curto muito livros espíritas, e não sigo a religião, mas respeito totalmente. Curti bastante essa sua ideia de realizar a cobertura do evento, e dar uma oportunidade de mostrar quão abrangente pode ser a doutrina. Parabéns.


    beijos

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