O Menino da Mala, Lene Kaaberbøl e Agnete Friis, tradução de Marcelo Mendes, 1ª edição, São Paulo-SP: Arqueiro, 2013, 256 páginas.
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Uma pesquisa recente revelou que mais de 1,2 milhões de crianças são vítimas de tráfico humano anualmente. Esse número revela um triste fato que infelizmente não é nenhum tipo de ficção e não faz parte apenas das páginas dos livros. Sabendo disso, a chance de se comover com a história de O Menino da Mala é muito grande.

No primeiro livro da série sobre a enfermeira Nina Borg, as autoras Lene Kaaberbøl e Agnete Friis exploram não apenas o tráfico humano como também a realidade de países que em outrora fizeram parte da antiga URSS. Nesse caso, Nina recebe uma ligação de sua amiga Karin, que pede a ajuda da enfermeira da Cruz Vermelha. Sem entender o motivo desse misterioso pedido, Nina vai até a estação ferroviária de Copenhague buscar uma mala, onde encontra um menino de três anos que está nu e dopado, mas vivo.

A situação causa espanto em Nina, que sem saber que atitude tomar e com medo da reação da polícia, procura por Karin sem imaginar que sua amiga seria brutalmente assassinada. Ela logo percebe que isso tem apenas um significado: ela e o garoto também correm perigo. Seguindo o seu coração e a vontade de ajudar o próximo, Nina passa a buscar informações sobre o garoto para só então entender como pode ajudá-lo; como pode salvar sua própria vida.

“Ela estava morta.
A morte tem lá os seus sinais, detalhes insignificantes quando vistos de maneira isolada, mas inconfundíveis quando somados. Conhecendo-os, Nina não teve dúvida. Os punhos ligeiramente virados. A perna que havia escorregado inerte de sua posição original. A cabeça caída sobre o colchão com um peso além do normal” (pág. 85).


Indicado especialmente para os fãs de Stieg Larsson, O Menino da Mala é considerado como um grande representante da nova literatura escandinava. O motivo disso fica claro quando notamos a veracidade existente em seu enredo, muito bem estruturado e sem pontos soltos. E o fato de unir ficção com realidade é o grande responsável para o envolvimento do leitor.

Apesar de ser possível dizer que O Menino da Mala é um livro excepcional por uma série de motivos, é necessário também ressaltar que o livro começa de maneira lenta (não entediante) enquanto as autoras introduzem o leitor para o que podemos chamar de uma história no mínimo encantadora. Isso tudo passa a mudar quando Nina enfim encontra o garoto, deixando o leitor com a curiosidade natural de quem quer respostas.

O que também é natural é o fato de as cenas exclusivas de Nina serem mais empolgantes do que as dos demais personagens – já que cada capítulo narra sobre um personagem, que no final se encontram. É possível dar um motivo claro para isso: o leitor tem a curiosidade pelo que vai acontecer e o que Nina fará para encontrar respostas. Descobrir o que levou essa criança misteriosa até o guarda-volumes da estação de Copenhague é um mero detalhe. Isso acontecerá naturalmente e certamente causará espanto quando tudo for revelado.

Assim como foi dito por alguns críticos estrangeiros, Nina Borg é uma personagem de características peculiares, muito parecida com Lisbeth Salander – ao menos no físico. Sua bondade e interesse em ajudar o próximo chega a ser comovente. Como exemplo é possível citar que ela cuida de imigrantes ilegais e sabemos que é raro encontrar pessoas dispostas a isso. Mas as características de Nina vão muito além. A personagem é também guerreira, esperta e principalmente decidida, sempre possuindo uma decisão final para todas as angústias e problemas que surgem em sua vida. Por ser mãe, isso acaba contribuindo para ela se aproximar do garoto, mesmo sem qualquer tipo de resposta. O sentimental materno a ajuda a se adequar em todas as situações.

O grande problema de Nina acaba sendo suas repetições, não apenas quando se trata do garoto. Sabemos desde o início que ela precisa encontrar respostas, mas ela insiste em repetir essa afirmação, como em uma espécie de mantra – nesse caso pouco natural. Assim como repete sua preocupação de não ser entendida por todos ao seu redor, sobretudo a polícia e seu marido. O que pode ser apenas um detalhe para determinados leitores, para outros é o tipo de situação que incomoda.

Mas antes de tudo ficar sem sentido, já que foi citado a URSS, é necessário dizer que o livro aborda o tráfico internacional de criança, e apesar de ter como principal cenário a Dinamarca, a Lituânia tem importância vital para a trama. De maneira simples e ainda assim verdadeira, as autoras exploram o país báltico retratando como a ocupação soviética mudou o rumo da história do país e de sua população, que sofre tais consequências mesmo após duas décadas do fim da URSS.

Com uma história que comove e incomoda até o menos sentimental dos leitores, O Menino da Mala pode ser classificado como um livro frio, intenso e, sobretudo verdadeiro. Uma ótima escolha para os amantes da literatura policial, encontramos aqui um livro que deixa claro o lado humano dos personagens, que se preocupam com a família e por isso não pensam antes de agir contra o próximo. Pelo contrário, não existem limites. Sendo assim, Lene Kaaberbøl e Agenete Friis não evitam sangue e segredos, mas também deixam claro que na vida real, nem tudo e todos são como realmente imaginamos. E aí que mora o perigo...

“Antes de descer do carro, Jučas ainda ficou um instante com as mãos plantadas no volante, ruminando as ideias. De que diabos adiantava fugir de KLimka e daquele mundo sórdido em que ele vivia, no qual o medo é um porrete que os mais fortes usam para intimidar as pessoas? De que adiantava sonhar com uma casinha e um jardim em Cracóvia, com Barbara tomando sol no quintal, se ele jamais conseguisse tirar da cabeça toda aquela merda?” (pág. 212).

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Um Comentário

  1. Por se tratar do tema tráfico internacional de crianças, o livro deve ser realmente interessante, mas embora eu ame dramas reais, pelo que li o livro está mais voltado para literatura policial, que é um gênero que não me agrada muito.

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