O Auto da Compadecida
Texto: Ariano Suassuna
Direção de Arte: José Eduardo Martins
Duração: 90~100 minutos
Gênero: Comédia
Apresentação: 31 de agosto de 2013

Assistir uma única peça da Companhia de Espetáculos Viva Arte em ao menos seis oportunidades causou certa dúvida em relação a um novo trabalho do grupo. Seria possível a Viva Arte realizar um trabalho ainda melhor do que o anterior? Após assistir O Auto da Compadecida é possível dizer que sim, afinal, o grupo superou todas as expectativas. O grupo se superou!

Fã declarado de Ariano Suassuna, um dos mais importantes escritores vivos da nossa literatura, o diretor José Eduardo Martins apostou em um novo texto do escritor paraibano para surpreender. E apesar de todas as comparações, a peça O Auto da Compadecida em nada se assemelha com a tão conhecida adaptação.

Apresentada pelo Palhaço (Beatriz Olivi), que faz o papel do autor e interage com o público em inúmeros momentos, a história narra divertidas situações vivenciadas pelos nordestinos João Grilo (João Victor) e Chicó (Daylon Martinelli), que estão longe de representarem verdadeiros heróis, mas que ainda assim conquistam a afeição do público.

Ao longo da peça, a dupla procura diversas formas de se dar bem, mesmo que para isso seja preciso enganar pessoas normais e líderes religiosos, por exemplo. Eles só não imaginam que no fim isso pode causar uma grande encrenca, sendo necessária a intervenção da Compadecida (Daniela Agostini), que busca sempre ajudar os pobres para que esses tenham o perdão divino.
Alguns podem dizer que não sou a pessoa ideal para realizar uma crítica sobre O Auto da Compadecida, mas era possível perceber no olhar do público que a peça contagiou a todos pela maneira divertida com que foi contada a história de dois homens muito atrapalhados. E quem pensa que a interpretação dos jovens João Victor e Daylon Martinelli é parecida com a de Matheus Natchergaele e Selton Mello está muito enganado. E aí que está o grande diferencial da peça.

O filme de Guel Arraes é considerado por muitos o melhor do cinema nacional, mas não é possível dizer que todos os astros globais se destacam. A maioria deles tem suas participações ofuscadas pelos protagonistas, o que não acontece na peça, já que todos os personagens se destacam da sua maneira, ficando difícil escolher apenas um para dar o devido destaque. Outro ponto fundamental é a utilização de personagens presentes na obra publicada originalmente em 1955, como o Palhaço, interpretado delicadamente por Beatriz Olivi, e para personagens que não fazem parte da obra, mas que possuem sua importância para o enredo encenado.
O Auto da Compadecida pode ser vista como uma crítica à sociedade, no entanto é também uma peça que representa bem o regionalismo e as mais significativas tradições da cultura nordestina. Em outrora, ao falar sobre outra peça, disse que o nordeste invadiu o teatro. Isso voltou a acontecer com a utilização de sotaques e canções dos mais variados gêneros, que se tornaram, assim como as danças, fundamentais para o resultado final da apresentação.

No enredo percebemos ainda a importância da igreja em uma sociedade, assim como o que seus líderes são capazes de fazer pelos próprios interesses, algo não muito diferente do que de fato encontramos no nosso cotidiano. As atitudes das pessoas, em sua maioria simples e com suas próprias dificuldades, revelam que todos estão em busca de algo. E quando interesses se cruzam, a confusão é certa e a gargalhada inevitável.
Classificada como “a comédia mais arretada do mundo”, O Auto da Compadecida cumpre o que é prometido ao divertir o público, e mais do que isso, trabalha com sutileza em todos os seus detalhes. O figurino é simples, assim como o necessário ao tratar de pessoas de classe baixa; os cenários são alterados conforme a necessidade, no entanto também não necessitam de luxo para agradar; o jogo de luzes e fumaça apenas deixa tudo mais atraente, mostrando que o grupo não estava para brincadeira; e até a participação de figurantes não é mero detalhe.

É interessante ressaltar ainda que tecnicamente a peça é apresentada de forma amadora por jovens amantes da arte. Porém a prática é muito diferente do que a teoria. Prova disso é que não é possível dizer se esse ou aquele ator está pisando no palco pela primeira vez, tamanho o profissionalismo e o cuidado por parte de todos para que a peça saísse da melhor maneira possível. Se os responsáveis por isso não concordarem, podem ficar descansados, pois o público certamente concorda com os inúmeros elogios necessários.

Como um grupo teatral considerado amador conseguiu realizar uma peça incrível como O Auto da Compadecida? Poderia falar que foi graças aos inúmeros ensaios nos últimos meses (e foram muitos mesmo!) ou até mesmo que isso é fruto do talento e cobrança do diretor, mas prefiro me aproveitar da frase usada por Chicó inúmeras vezes ao longo da peça: não sei, só sei que foi assim!

Fotos: Reprodução/Facebook - Dep. Cultura e Turismo

10 Comentários

  1. Bom eu adoro teatro, mas como moro em uma cidade pequena, nem sempre tem peças por aqui. Quase nunca tem...
    Mas fiquei muito curioso para assistir esta peça ai!


    A última peça que eu assisti deve ter quase um ano, eu adorei foi humorístico sabe? Execelente!


    Abraços
    www.booksever.blogspot.com

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  2. Felizmente em minha cidade temos um teatro que, depois de anos quase caindo aos pedaços, foi reconstruído e está ativo, mas até o momento assisti comédias. Tem um charme a mais!
    Que bom que ficou curioso pela peça.
    Abraços!

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  3. Gabriela Costa e Silva13 de setembro de 2013 17:50

    Com certeza deve ser uma peça ótima, mas o meu caso é de cidade pequena também, teatro funciona MESMO só tem um ano, e peças acontecem beeeeeeem de vez em quando! =S

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  4. O que dizer de "O auto da Compadecida"? O filme é um dos meus favoritos do cinema nacional, o livro confesso que eu preciso terminar de ler (li algumas partes de várias edições que peguei em bibliotecas, agora eu tenho a edição que foi lançada pela Saraiva), minha intenção era terminar o livro antes de ir na palestra do Suassuna na Flipoços mas acabou não dando tempo. Peça de teatro baseada na obra eu ainda não vi, tenho bastante curiosidade, pena que não deu pra ir na apresentação da Companhia de Espetáculos Viva Arte, gostei muito do pouco do trabalho deles que eu conheço. Ricardo, achei que sua crítica da peça ficou muito boa, trouxe um pouco do que aconteceu nos palcos em comparação com o que a maior parte das pessoas conhece (o filme), o que dá uma melhor ideia. As analises sobre o que a peça aborda também estão bem pertinentes. A questão do Palhaço foi comentada pelo Suassuna na palestra e fico contente em saber que o grupo se utilizou desse personagem importantíssimo na obra. Espero ter a oportunidade de conhecer mais sobre o trabalho da Companhia, para a qual eu desejo muito sucesso :)

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  5. Olá, Laís. Muito obrigado por seus comentários. É sempre bom acompanhar sua opinião sobre minhas postagens.
    É estranho, mas até então não havia assistido ao filme por completo. Sempre pegava algumas partes na televisão, mas nada que mostrasse o que o filme realmente representa no cinema nacional. Agora, com a peça e a necessidade da comparação, parei de enrolar e foi uma surpresa muito agradável.
    A peça ficou incrível, como eu digo durante essa postagem, e certamente a Cia. Viva Arte foi muito feliz durante toda a produção da mesma.
    Infelizmente não tive a oportunidade de ver o Suassuna (como te disse, todo o grupo da Viva Arte teve essa chance única), mas realmente espero que ele assista a peça, porque vai ficar muito feliz. Espero que você também tenha essa oportunidade.

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  6. Nunca assisti a "O Auto da Compadecida", mas sempre ouvi falar muito bem (quem consegue esquecer a exibição anual da Globo? rsrsrs). Mesmo assim, nunca me interessei.
    O teatro, no entanto, tem seu charme; mesmo que não conte com a superprodução de um filme ou atores famosos e com longos anos de carreira, saber que tudo o que eu li ainda há pouco foi realizado por uma companhia amadora é simplesmente impressionante.
    Mesmo não conhecendo a história, pude ter um breve parâmetro sobre seu conteúdo e, claro, saber que foi um sucesso só mostra que temos equipes talentosas escondidas por aí, esperando expandir a cultura do teatro, muitas vezes ofuscada pelo cinema
    Acredito que a sua primeira postagem soube identificar um elemento fundamental para uma peça de teatro ser bem sucedida: paixão. Deu para perceber que todos os envolvidos em "O Auto da Compadecida" conseguiram transmitir a paixão e o carinho que dedicaram à peça, em seus exaustivos ensaios, para a plateia.
    Eu amei o post e você sabe, Ricardo, que apoio totalmente um espaço no blog dedicado ao teatro. É algo diferente e, mesmo não sendo prestigiado da forma como merece, só demonstra que, cada vez mais, conquista os jovens e os fascina a ponto de dedicarem-se a uma peça como "O Auto da Compadecida", de grande reconhecimento.
    Que esta seja apenas a primeira de muitas outras peças que terão seu sucesso reconhecido aqui no "Boca de Cena". Parabéns pela iniciativa e inovação!


    Beijos,

    Only The Strong Survive

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  7. Fico muito feliz por seu comentário, Vê! Como você sabe, a intenção dessa coluna era justamente criar algo que até então não existia na blogosfera literária e sabemos que não existe nada mais ligado à literatura do que o teatro. Ver o reconhecimento por esse trabalho é de extrema importância.
    A peça é realmente incrível e merece ser vista por todos. O pessoal manda muito bem, conquista, emociona, faz o público gargalhar, enfim.
    Uma novidade: em breve o grupo apresentará "O Sítio do Pica Pau Amarelo". Apenas imagino o que eles irão aprontar...


    Beijos e muito obrigado!

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  8. Ana Carolina Lopes3 de outubro de 2013 17:21

    Amei as imagens , nunca assisti á uma peça teatral e fiquei morrendo de vontade de assistir depois desse post ;)

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  9. O José Eduardo faz um excepcional trabalho dentro da Cia. Viva Arte, por isso acho que os personagens não ficam "caricatos", como você citou. E não é a primeira vez que isso acontece, já que o grupo também apresentou O Rico Avarento (irei assistir pela sétima vez nas próximas semanas, e também terá uma crítica sobre), que exigia o mesmo trabalho.
    Acho que é um tipo de peça que merece ser vista por todos, por isso torço muito para que eles conquistem todos os objetivos.
    Em relação a coluna, a próxima edição sai na terça-feira. Posso adiantar uma coisa: é uma peça INOVADORA!
    Abraços!

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  10. Querido Ricardo,

    Uau!! O grupo parece ser incrível... adorei conhecer mais do trabalho deles através das suas resenhas e das fotos postadas!

    Abraços
    Samanta

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