Fui estudante de uma geração sem internet, o que quer dizer que não tínhamos como interagir com alunos de outros lugares no Brasil e no mundo. Na minha época, o professor começava a perder o poder na sala de aula. Lembro até de uma manifestação que houve na Av. Paulista em que o José Serra foi atingido por um ovo. Que desperdício de comida...

Nesse hiato desde que me formei no Ensino Médio, o que mudou na ótica dos estudantes?

A internet é consumida pelo público jovem e essas massas buscam ter uma identidade reconhecida postando fotos com óculos espelhados e correntes douradas ou no caso das meninas, a mão por baixo do queixo ao estilo Bonde das Maravilhas. Tal povo alienado que acha que “camiseta preta é coisa de rosqueiro (como eles chamam os roqueiros)” entre uma foto do Coringa ou do Assassins Creed postada nas redes sociais, cultua e fomenta um mercado que considera a escola um palco de comédia stand up e o professor o alvo de piadas. E como eles fazem isto? Da seguinte forma:

  • Cultuando a ideia de que o Harlem Shake era uma forma de relaxar e se divertir, levando o “projeto” para as instituições de ensino na esperança que o rabo abane o cão e não o contrário;
  • Trotes nas salas de aula e em alunos novos. No professor é para quebrar a rotina ou dar uma lição naqueles que estão “sempre dispostos a complicar a vida dos estudantes” e nos novatos, é para “dar as boas vindas (um “seja bem vindo” é bem mais eficaz)”;
  • Gravação de vídeos e compartilhamentos nas redes sociais dos trotes como quem quer dizer “olhem que legal. Isto me representa”;
  • Listas de “brincadeiras” divulgadas na internet justamente com intuito de tirar sarro do professor e ridicularizar o ato de ensino e aprendizagem. Procurem no Google por “20 maneiras de irritar/trollar o seu professor” e verão “sugestões” como:

“Na hora da prova, ao invés do seu nome, opte por títulos exóticos, como por exemplo: "Negão 38 cm_cam”, "Pelé", “Ghandi” etc.

No começo da aula sente na cadeira dele, se ele pedir para sair, diga que você chegou primeiro, e que ele que procure outro lugar para se sentar.

Grite “mentira” para tudo que ele falar.

Se ele te mandar calar a boca, diga: “Calma professor, a conversa é séria!”

Quando te xingarem perto dele diga “pelo menos não sou professor”.

Assim que ele começar a explicar a matéria, diga “Isso é o que você pensa”.

Diga que está apertado, e que precisa ir ao banheiro. Assim que ele concordar, vá até a lata de lixo e se alivie lá.”

Se você é uma pessoa como eu que sente nojo ao ler coisas assim e expõe o que pensa, lidará com comentários:

  1. Hipócritas que acham que “é tudo brincadeira” ou outros discursos demagogos;
  2. Xingamentos;
  3. Tiração de sarro (“ih, lá vem o nerd...”).

Nota: há uma probabilidade alta de que qualquer uma das 3 opções vir carregada de erros ortográficos que violam até as regras não-oficiais do “internetês”.

Verdades sejam ditas: em primeiro lugar eu não sou santo. Mas estudando e pesquisando para escrever este artigo só não fico com remorso do que fiz porque na maior parte do tempo estou chocado ao ver a geração atual considerar isto uma prática comum e aceitável dentro dos grupos sociais que eles formam nas salas de aula (sem contar que não fiz nem 10% do que a molecada faz hoje!). As ideias para relaxar ou se divertir que sejam de preferência longe das instituições de ensino (sejam elas públicas ou privadas ou então de educação escolar básica/técnica/superior) nem passam pela cabeça dos estudantes. Muito menos a noção do constrangimento que sente o professor que investiu tempo, dinheiro e esforços para estar ali na frente da sala. Um profissional que não recebeu treinamento no assunto de ser alvo de chacotas nem atende a lei alguma que exija que ele seja ridicularizado por aqueles que deve ajudar, apesar dos pesares.

Obrigado a todos(as).

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora.
Contato: davi_paiv@hotmail.com

10 Comentários

  1. Adorei o post, sério!! Até mesmo me fez rever alguns conceitos em sala!
    Abraço,
    Vinícius - Livros e
    Rabiscos

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  2. O pior de tudo é que o professor, hoje em dia, tem que escutar e sofrer tudo calado, pois se abrir a boca pra falar algo, já vem um pai de um aluno com um advogado, e tira o professor da posição de vítima, e coloca-o como carrasco, perseguidor e constrangedor do seu filhinho santinho.
    Só digo que toda essa situação me dá nojo!


    @_Dom_Dom

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  3. Gabriela Costa e Silva29 de setembro de 2013 20:33

    Também acho isso muito chato, de um constrangimento enorme pra quem as sofre!
    Hoje em dia, pra maioria das pessoas isso é normal, mas tenho certeza de que quem "idealiza" essas brincadeiras não ficaria nem um pouco contente se essas coisas acontecessem com eles... pimenta nos olhos dos outros é refresco neh?!
    Falta a muita gente só um pouco de consciência, e noção do ridícilo!

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  4. Divido o meu balde de vômito contigo se quiser.

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  5. Agradeço em nome dos seus professores.

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  6. Mas acho que vai ser preciso um tonel daqueles bem grandes, hein?!?! Rsrsrs

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  7. Oi.

    Quando eu tive aceso a internet eu tinha 18 anos e meio. Portanto terminando o ensino médio e de fato fico feliz de ter ficado longe de certas coisas, mas hoje no último período de faculdade vejo coisas que não deveria ver, pois todos são maiores de idade e não são somente os alunos, pois há professores que não sabem discutir sobre assuntos que o irritaram em sala, sabe ele pega seus materiais vai embora e diz a coordenação que não dará mais aula para a turma.

    Porque? porque os alunos estava discutido assuntos da formatura e lhe tomou 30 minutos de sua aula.

    Não sei, parece que quanto mais o homem estuda, mas burro fica, ou até mais incapaz de conversar, sei lá porque não conversar e resolver os assuntos?.

    Não preferem levá-los a extremidades desnecessárias.

    Acho repugnante a forma que muitos jovens tratam a vida e sua educação hoje, eu não tive uma boa escola, mas tento ser o melhor que posso.

    Beijos
    http://fernandabizerra.blogspot.com.br/

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  8. Michelli Santos Prado30 de setembro de 2013 17:10

    Olá Davi!! Primeiro parabéns pelo texto e pelos pontos de vista. Acho incrível poder ler um texto assim, pois parece que este tipo de brincadeira é tão natural, como se não acarretasse problema nenhum para quem sofre. E em relação aos professores é uma pouca vergonha, deputados que não fazem nada ganhando tanto e os professores fazem tanto ganharem tão mal.

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  9. Uaaal! Excelente texto Davi.
    Vou confessar que de vez enquanto até eu me envolvo com essas brincadeiras, as vezes sem intenção de ofender o colega. Temos que parar para refletir sobre esse assunto, pois só vemos a gravidade depois que acontece conosco. Como dizem... "pimenta nos olhos do outro é refresco"....


    www.booksever.blogspot.com

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  10. Ana Carolina Lopes7 de dezembro de 2013 09:47

    No começo da aula sente na cadeira dele, se ele pedir para sair, diga que você chegou primeiro, e que ele que procure outro lugar para se sentar.

    Putz essa é boa !!!... Só que não :(


    É uma vergonha o que anda acontecendo nas salas de aula hoje em dia , e se engana quem pensa que é só aqui no Brasil , a verdade é que são muitos os baderneiros por esse mundo afora que merecem uma boa de uma lição . E eu não me refiro as que os professores dão não , eu me refiro a pais que deveriam se colocar a frente disso e dar um jeito em seus filhos !

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