Órfão, pobre, mulato, gago e epilético. A união dessas características em uma única pessoa poderia levá-la ao desprezo perante a sociedade, principalmente quando estamos tratando de meados do século XIX, época em que o Brasil acabara de se tornar independente de Portugal.

Quem diria que um homem com essas características tão particulares se tornaria o maior representante de nossa literatura?

Carioca nascido em 21 de junho de 1839 no Morro do Livramento, Joaquim Maria Machado de Assis cresceu e viveu toda a sua vida no Rio de Janeiro, onde enfrentou muitas dificuldades antes de eternizar seu nome na história da literatura mundial com a produção de nove romances, nove peças teatrais, duzentos contos, além de uma infinidade de poemas, sonetos e crônicas.

Filho de um operário mestiço e de uma lavadeira portuguesa, Machado de Assis perdeu a mãe ainda na infância e, devido as dificuldades financeiras, foi obrigado a dividir seu tempo entre os estudos e o trabalho como vendedor. Apesar de tudo conspirar contra seus estudos, o jovem Machadinho, como era carinhosamente chamado, nunca se importou com isso e procurou as mais variadas formas de aprendizado: aprendeu latim com um padre e francês com um casal de conhecidos, além de ter tido aulas de português e álgebra com uma professora amiga da família.

Segundo alguns biógrafos, Machado de Assis sempre demonstrou interesse pelos livros e publicou seu primeiro poema, intitulado “Ela”, aos 16 anos, na revista Marmota Fluminense. Na ocasião, o escritor escreveu as seguintes palavras: “Com sua boca mimosa/solta voz harmoniosa/que inspira ardente paixão/dos lábios de Querubim/eu quisera ouvir um -sim-/P’ra alívio do coração!”.

Na mesma época em que aconteceu sua primeira publicação, o escritor conseguiu seu primeiro emprego fixo como auxiliar de tipógrafo, onde conheceu o escritor Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias. Trabalhando em um dos principais veículos da imprensa carioca da época, Machado conheceu ainda outros nomes da literatura e aos poucos conquistou seu próprio prestígio, o que contribuiu para convites que o levaram a colaborar com vários periódicos, inclusive os importantes Diário do Rio de Janeiro e Correio Mercantil.

A primeira publicação impressa do autor aconteceu em 1860, com a peça teatral intitulada Hoje Avental, Amanhã Luva, e posteriormente o livro de poesias Crisálidas, de 1864. Após a publicação dessas obras, Machado de Assis conheceu a mulher que mudaria sua vida: a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, que foi casada com o escritor durante quase 35 anos e a responsável por apresentar a ele escritores portugueses e ingleses.

Após o casamento com Carolina, que aconteceu em 1869, Machado de Assis iniciou um intenso trabalho que resultou na publicação de seus principais romances, poesias, crônicas e contos, que incluem a coletânea Contos Fluminenses, de 1870, e as histórias O Alienista e A Cartomante, publicados em 1882 e 1884, respectivamente.

A carreira do escritor pode-se ainda ser dividida em duas fases: a primeira ligada ao Romantismo e a segunda com características do Realismo, que se iniciou no início da década de 1880 com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, adaptado no filme Memórias Póstumas. Além de ser uma obra que mostra a genialidade da imaginação do escritor, que narra a história sob a ótica de um personagem já morto, é também considerada responsável por abrir portas ao realismo no Brasil, escola literária que surgiu na Europa e que continuou presente na nossa literatura até o surgimento do Parnasianismo, em 1890. Ainda nessa época, o escritor publicou o famoso Dom Casmurro, adaptado para a televisão, o cinema e o teatro, com destaque especial para a minissérie global Capitu, de 2008.

Com obras dos mais variados gêneros, como o fantástico, ressaltado por Bruno Anselmi Matangrano em matéria da Revista BANG!, Machado de Assis se destaca por sua originalidade, objetividade e até mesmo pelas ironias e a preocupação com o psicológico de seus personagens. Esses são detalhes significativos da obra do escritor, que uniu temas críticos que continuam atuais e importantes para a sociedade.

Além de todo o trabalho como romancista, contista, cronista e jornalista, Machado de Assis teve papel importante na cultura brasileira e foi o responsável, ao lado de outros intelectuais como Olavo Bilac e Ruy Barbosa, pela criação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 e que atua até os dias de hoje. Com o objetivo de cultuar a arte de um modo geral, em especial a literatura brasileira, a Academia Brasileira de Letras teve como seu primeiro presidente o próprio Machado de Assis, fundador e primeiro ocupante da cadeira 23.

Longe da carreira de escritor, Machado de Assis também seguiu uma vida tranquila e sua paixão pela esposa foi sempre intensa e marcante, tanto que Carolina, quatro anos mais velha que o escritor, revelou o desejo de que ele falecesse antes dela, pois sabia que ele sofreria muito por sua perda. Assim como o esperado por ela, Machado de Assis não suportou a morte de Carolina, ocorrida em 1904. Deprimido pelo resto de sua vida, Machado homenageou a esposa com o bonito soneto “A Carolina”, considerado por Manuel Bandeira o trabalho mais comovente da literatura brasileira.

Como citado, a morte da esposa contribuiu para deixá-lo depressivo, no entanto o escritor, que nunca deixou de produzir, continuou trabalhando e contribuindo para a Academia Brasileira de Letras durante os anos seguintes. Contudo, a epilepsia se tornou mais intensa e o escritor veio a falecer de arteriosclerose generalizada na madrugada do dia 29 de setembro de 1908.

A morte de Machado de Assis abalou a sociedade brasileira, sendo noticiada nos principais jornais da época. Seu velório contou com a presença de amigos, colegas, vizinhos e curiosos que se despediram do maior nome da literatura brasileira, enterrado ao lado da esposa no Cemitério São João Batista.

A importância do escritor é indiscutível, porém, como todo autor clássico de nossa literatura, Machado de Assis divide opiniões até os dias de hoje. Amado por muitos e ignorado por uma minoria, Machado de Assis é eterno. Além de um imortal da Academia Brasileira de Letras, o escritor é um Imortal da Literatura e pode ser definido por uma única palavra: genial!

“Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponto de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquila das auroras” – Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (pág. 84).

Machado de Assis - 21/06/1839 - 29/09/1908

3 Comentários

  1. Michelli Santos Prado30 de setembro de 2013 17:52

    Impossivel não se encantar com este seu post. Parabéns pelo post. Incrivel saber um pouco mais sobre a historia deste grande autor.

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  2. Gabriela Costa e Silva30 de setembro de 2013 23:41

    Machado de Assis foi, sem dúvidas, um incrível escritor! Já li o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas umas três vezes, e é ótimo! Só o filme que ainda não assisti. Já a série Capitu eu acompanhei, e por sinal foi excelente também, mas o livro em que é baseada ainda não li, mas vontade não falta!

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  3. Acredita que ainda não li nada deste autor?
    Conheço? Claro que conheço. Quem hoje em dia nunca ouviu falar de Machado de Assis né? haahha
    Acho que quando eu for ler, será o Memórias Póstumas... não sei, mas esse livro me chama muita atenção.


    Abraços
    www.booksever.blogspot.com

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