Cordel do Amor sem Fim
Texto: Cláudia Barral
Direção: Anderson Maurício
Duração: 50 minutos
Gênero: Drama Lírico
Apresentação: 28 de setembro de 2013

Muito se fala sobre a falta de oportunidade para que todos tenham acesso à cultura. O discurso costuma ser sempre o mesmo: “Os ingressos são caros”, “Os espetáculos só acontecem em grandes cidades”, “Apenas a elite pode frequentar um teatro”, “Não temos um teatro para que aconteçam as apresentações”. Esqueça tudo o que você já ouviu anteriormente e seja bem-vindo ao mundo encantado do teatro.

Com o Circuito Cultural Paulista não existe mais a desculpa de que os ingressos são caros; e esse mesmo programa leva espetáculos (não apenas teatrais) para várias cidades de São Paulo; com isso, pessoas de todas as classes sociais podem estar em um mesmo ambiente, apreciando a cultura; e o mais importante: não é preciso um teatro, com todas as suas estruturas, para encenar uma peça. Isso ficou provado, de uma vez por todas, com Cordel do Amor sem Fim.

Narrando a história simples de moradores da margem do rio São Francisco, a peça nos apresenta a personagem Teresa, que está prestes a se casar com José, quando conhece Antônio, por quem se apaixona. A paixão de Teresa é tão grande que ela promete que irá esperar pela volta do homem por quem se apaixonou, e pode agradar ou desagradar suas irmãs Madalena e Carminha, que possuem seus próprios interesses. O detalhe fundamental: essa história é narrada dentro de um ônibus em movimento, como se estivéssemos percorrendo o trajeto do Velho Chico.
A cada nova peça de teatro a paixão aumenta consideravelmente, e não tenho dúvidas de que Cordel do Amor sem Fim contribuiu muito para considerar essa uma das artes mais encantadoras já apreciadas. E isso não se deve apenas ao fato de ter tido a oportunidade de viver uma experiência inédita, mas principalmente porque, mais do que nunca, foi possível sentir-se dentro de uma história, algo que geralmente só acontece com os livros.

A Trupe Sinhá Zózima, que viaja pelo país inteiro, faz um trabalho especial ao usar como cenário um meio de transporte que, em muitos lugares, é capaz de causar estresse em quem é obrigado a usá-lo para chegar a seu destino. Com isso é possível perceber que qualquer lugar pode ser usado para uma apresentação teatral, até mesmo um ônibus em movimento, que tem seu interior transformado em um palco das emoções.
Não dá para exigir luxo, e nem seria necessário. Os objetos que fazem parte do cenário, como as cortinas, uma gaiola (aberta, o que é bom lembrar), tapetes e até mesmo alguns lampiões mudam o ônibus, deixando-o com a simplicidade de uma casa do interior. E nos sentimos verdadeiramente em casa durante toda a apresentação, que ainda nos reserva outras emoções.

Com os atores se apresentando ao nosso lado, caminhando pelo corredor, e aproveitando todo o ônibus para isso, é possível perceber a emoção sentida por eles ao interpretar seus respectivos personagens. As lágrimas dos responsáveis pelo espetáculo criam lágrimas em nossos olhos; os sorrisos também despertam nossos sorrisos, e isso basta para nos atingir de uma maneira delicada e inesquecível.
Se isso não bastasse, a narrativa possibilita uma interação entre atores e espectadores, que como citado, ficam em estado de admiração desde o início. A interação vai além e chega até mesmo ao exterior, causando estranhamento em quem não sabe o que está acontecendo. Mas não se assuste caso se deparar com um ônibus e uma mulher, fora dele, desesperada e pedindo por ajuda. É tudo parte do show!

A história é simples, porém muito bonita (só assistindo para saber o destino de todos os personagens); os atores conquistam simplesmente pela troca de olhares com o espectador; os narradores entram em cena nos momentos mais apropriados; e as canções deixam tudo com o clima encantador do interior. Ao fim, nos sentimos satisfeitos e com o gostinho de quero mais, pois sabemos que cada apresentação é uma nova surpresa. E quanto mais a emoção for sentida, mais encantados ficaremos – prova disso é mal notarmos o que acontece fora do ônibus, ou do palco das emoções da Trupe Sinhá Zózima, se assim preferir.



11 Comentários

  1. Realmente muito bom (: gostei, historia muito bonita e imterpretação dos atores perfeita (:

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  2. Gabriela Costa e Silva9 de outubro de 2013 17:40

    Cara, que coisa mais linda!!
    Quero muito ter a chance de vê-los pessoalmente, quem sabe neh?! haha

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  3. Quero muito ver essa peça... Espero realmente que logo tenha outra peça perto da minha cidade.

    Recordo que a primeira peça que eu vi deles, eu me neguei assistir novamente, pelo simples fato de ser tão linda, mas tão linda, que eu gostaria que outro alguem também tivesse a possibilidade de ve-la, já que o espaço é bem limitado, visando ser um onibus.

    Parabéns pela resenha, e trupe zozima, parabens pelo trabalho !

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  4. Sério que você já viu outra peça, Marry? Por que você não me falou isso antes? :/
    Como disse na resenha, é impossível não se encantar pela história e pela produção de um modo geral. Espero ter a oportunidade de assistir outras peças, por isso vou continuar acompanhando o trabalho da Trupe.
    Vale a pena!

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  5. Nossa! Achei interessantíssimo! Se eu morasse em São Paulo com certeza iria procurar esse ônibus. A iniciativa é tão boa, cultura acessível à todos!
    Porque na minha cidade não tem ? :(

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  6. Michelli Santos Prado22 de outubro de 2013 15:48

    Que espetáculo maravilhoso, uma ideia simples e original!!

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  7. que bacana, ideias assim fazer a diferença, muito bom....

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  8. Há uns anos atrás, esse espetáculo esteve aqui em Recife em um Festival. O interessante é que esse texto também é encenado por um grupo daqui de Recife, e os dois se apresentaram no mesmo festival. Infelizmente, não consegui ver o da Trupe Sinhá Zózima, pois estava trabalhando na época. Mas acho incrível quando os grupos usam de toda sua criatividade para montar esses espetáculos lindos. Parabéns à Trupe, e que eles façam muito mais sucesso!!!! E vou aproveitar e deixar o link para esse outro grupo que encena essa peça.
    http://mktcriativo.wordpress.com/2011/05/25/cordel-do-amor-sem-fim-palco-giratorio-sesc-2011/

    @_Dom_Dom

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  9. Não imaginava que o texto era encenado por outro grupo e muito menos que isso aconteceria justamente na sua cidade. Seria mais um caso de como o mundo é pequeno? kkkk
    Bom, acessei o link deixado por você e achei muito interessante, assim como seria interessante ver dois grupos apresentando a mesma história em um mesmo festival. Pena que você não pôde ver para contar sobre essa experiência.


    Abraços,

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  10. Mas que review maravilhosa! Não só foi uma peça inusitada, como também te atingiu em cheio. Adorei saber que toda essa inovação é muito bem trabalhada e super bem-vinda, conquistando o objetivo de surpreender o expectador. Acho que peças onde haja interação com o público são as melhores; podem causar certo estranhamento no começo, mas basta um pouco de observação para inteirar-se do que está acontecendo e, claro, participar intensamente dessa história que estão contando.
    Realmente, com uma apresentação dessas, não há mais desculpas para não prestigiar um bom programa cultural, o que é excelente, já que possibilita que as mais diferentes pessoas tornem-se público. Essa, sem dúvida, é uma experiência única, que eu me divertiria muito fazendo parte da plateia.
    Que bom encontrar peças tão diferentes e, cada vez mais, buscando atrair o público pela proposta inovadora. Isso ficou explícito através desse texto que arrasou demais, Rick. Fiquei morrendo de vontade de assistir, principalmente porque você já tinha comentado comigo que iria a uma apresentação assim. Só não esperava que seria uma experiência tão incrível e inesquecível. Sem dúvida, imperdível! Parabéns, ficou demais! :D


    Beijos,

    Only The Strong Survive

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  11. Fico muito feliz que tenha gostado tanto da postagem, Vê, até porque a peça é incrível e quando isso acontece sempre queremos mostrar o que ela realmente nos passou, o que não é uma missão fácil. O que posso dizer é que essa peça precisa ser vista por TODOS, não apenas por sua história, mas também pela inovação. Ainda vou assistir muitas peças, claro, mas duvido que alguma conseguirá ser mais marcante do que essa (e O Pequeno Mundo de Naninha das Dores, que você leu sobre a apresentação alguns dias atrás).
    Se o grupo passar por Campinas você tem a obrigação de ir!


    Beijos,

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