Para começar quero compartilhar uma ideia com vocês: quando comecei a procurar o material para escrever este artigo, até pensei em caso não encontrar o que eu precisava produzir algo sobre “Por que os alunos desistem?”, focando justamente na criança, visto que este texto será publicado no Dia das Crianças. Ponderei ao mesmo tempo em que pesquisava e cheguei à seguinte conclusão: não preciso bajular crianças. Eles já têm os pais ou responsáveis, a mídia, a opinião pública, o poder político e órgãos como o ECA ao lado deles. O professor só tem como aliados os próprios colegas de trabalho. E no fim, uma das máximas que eu sempre digo em quase todos os artigos:

A educação começa com um professor motivado, preparado, testado, aprovado e com recursos para dar uma boa aula. A educação civil começa em casa.

Aí veio o X da questão: e quando não há motivação?E quando faltam recursos? E quando não é seguro?

Caso o leitor não seja estudante de curso superior de licenciatura e/ou não saiba da proporção da situação, façamos o seguinte: pensem em uma profissão que gostariam de seguir e respondam com “sim” ou “não” as próximas três questões:

  1. Você trabalharia por R$ 300,00 mensais, por exemplo, ciente de que o custo de vida atual ou de onde você mora exige bem mais que isso?
  2. Ganhando pouco ou não, ia aceitar um cargo que o fizesse ter que trabalhar doente ou desenvolvendo problemas crônicos?
  3. Faz questão de ser respeitado?

Se você respondeu “não”, “não” e “sim” para as questões, pode entender os motivos das desistências.

Até maio deste ano, as Secretarias de Educação dos Estados de Mato Grosso, Roraima, Santa Catarina e Sergipe registraram juntas 129 casos de exoneração de professores por desistência. Parece pouco? O Rio de Janeiro teve 580 casos. Só que as secretarias de estados mais populosos como as do RJ alegam que muitos destes casos são por aposentadoria. Na hora de contar qual é cada caso, não se pronunciam. Daí levanto uma hipótese: que muitos estados omitem ou distorcem informações para que mostrariam que o buraco e mais embaixo. Motivo: não dar ao Ministério da Educação a informação da má qualidade do serviço prestado. Ou para um grupo relativamente pior que o governo: a imprensa.

Agora vamos ver os fatores que geram tais desistências:

Baixo salário: por mais que o governo fale, o salário do professor é baixo comparado ao quanto ele tem que se empenhar para passar no Vestibular, estudar na faculdade, estudar para o concurso público e passar na prova. É muito sacrifício para tão pouco resultado final. Há aumentos simbólicos porque a lei manda. Contudo eles não compactuam com a inflação. Estou ciente que ninguém quer fazer fortuna dando aula, mas é frustrante se empenhar tanto para tão pouco.

Carga horária elevada: diferente de algumas profissões e também semelhante a outras, o professor leva trabalho para casa e tem que planejar o dia seguinte. É trabalho dentro e fora do local de serviço. Só que com o baixo salário o profissional da educação precisa aumentar a carga horária ou arrumar um segundo emprego. Atos que consomem tempo e não compactuam com a disponibilidade necessária para elaboração de outras atividades na sala de aula.

Falta de segurança: dentro e fora da sala de aula, é cada vez mais chocante ver os índices de violência entre alunos ou de alunos contra professores (em maio deste ano, 44% dos professores do estado de São Paulo informaram em pesquisa que sofreram ou presenciaram casos de violência). E qual a solução que o governo tanto prega: que devemos trazer os alunos para o mundo do conhecimento e não discriminá-lo, pois isto gera evasão (como se fosse função do professor ter que amansar a fera e ainda o coloca de frente ao seu potencial agressor contínuo e intocável).

Falta de materiais: quando a escola não tem, o professor tem que tirar leite de pedra com o seu salário e comprar para a escola o que ela precisa.

Descaso da população: “você não é professor? Então eduque o meu filho em vez de ficar pegando no pé dele. Ele é só uma criança!”

Eu nunca ouvi isso e nem ouvi falar. Mas é algo mais ou menos assim que circula entre os pais que não sabem distinguir a educação escolar da cívica.

Insatisfação com o improviso: é um pouco constrangedor para o profissional formado em Letras que também tira especialização em língua inglesa (na maioria dos casos) ser usado como “tapa buraco” porque o “teacher” faltou. Assim como os professores eventuais são taxados de faz-tudo ou os professores categoria O ― contratados por um período determinado e que assumem salas em casos de ausências temporárias ― lidam com o preconceito por parte dos alunos. A base e o topo de cadeia alimentar pressionam o sujeito e tira dele todo o ânimo de trabalhar.

Poucas leis ou programas que favoreçam ao professor: isto é parte de um efeito dominó que geram poucos alunos nos cursos de licenciatura. Algo que fecha a torneira para a formação de novos profissionais e tem impacto tanto na rede pública quanto nas redes particulares (sendo esta última também uma vítima das evasões, uma vez que em caso de detrimento de professor com aluno, o segundo sai ganhando porque os pais sempre lançam o discurso do “eu estou pagando!”. Mais tarde este aluno crescerá com este discurso na ponta da língua para uso em discussões com os professores da faculdade ou até contra o motorista do ônibus).

É claro que quem se opõe aos meus argumentos alega que “quem trabalha nesta área tem que ter dom mesmo”, “há evasão em várias profissões” ou até mesmo “são pessoas que escolheram errado a profissão”. De qualquer maneira eu acho tais argumentos inválidos para a discussão. Respectivamente, pela opinião pessoal de não crer em dons e sem contar que só o fato do sujeito se dispor a estar de frente para uma turma de estudantes e lecionar faz dele um indivíduo que mereça o meu respeito. No segundo argumento eu pergunto como querem que o país saia da condição na qual se encontra se a profissão formada de profissionais é tão ridicularizada tanto pelo povo quanto pelo sistema. E no terceiro argumento, posso até crer que há pessoas que escolhem errado mesmo. Por outro lado novamente volto a dizer que se o professor se dispôs, merece apoio.

As soluções adotadas pelos profissionais variam. Uns saem da rede pública e vão para a rede privada (lidar com a situação que já descrevi), outros vão trabalhar em empresas privadas com outros serviços, alguns vão para outros cargos públicos e uma parcela vai para a pós-graduação ou Mestrado (infelizmente, até nas redes de ensino superior lidamos com casos de desrespeito, agressão e evasão).

Nada contra quem saia do cargo. O que desejo a todos(as) que resolvem deixar a docência é que sejam felizes em suas próximas profissões. Só que a ideia que tenho de um cargo público é que quem o exerce, presta um serviço ao povo que não tem como pagar pelo mesmo. E deixo uma pergunta a quem ler este artigo: quem sai prejudicado no fim disto tudo, que por sua vez é uma parte do povo que tem carência e vive a margem da sociedade sendo entregues à ignorância e a mercê do mundo do crime?

Pensem nisto.

Obrigado a todos(as).

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora.
Contato: davi_paiv@hotmail.com

6 Comentários

  1. Oi.



    Davi, vocês descreveu muitas realidades cruéis de nossa sociedade.

    E sim muitos pais pensam que os professores devem ensinar tudo a seus filhos.

    Eu entendo o tamanho das desistências, pois a cada dia esta mais perigosas as salas de aulas, sendo que os alunos estão mais agressivos e o pais não veem isso.

    Falo disso pelo que vejo dentro dos coletivos, os garotos (as) ficam gritando e abrindo as porta do ônibus em movimento depois a culpa é sempre do motorista. Não existe respeito.

    Só penso que o governo deveria investir na educação, dai não teria tanta desistência e criminalidade.

    Beijos da Fê :*

    http://fernandabizerra.blogspot.com.br/

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  2. Gabriela Costa e Silva15 de outubro de 2013 17:25

    Hoje em dia, tem que ter muito amor à profissão pra passar por cima de tudo isso que você citou no texto neh...
    Muitos desistem, e com razão! Em qualquer profissão que for, exemplos de problemas como esses fazem com que a insatisfação, e às vezes até o medo, sejam tão grandes que a única opção é desistir, infelizmente.
    E são guerreiros os que tentam confrontar essas situações, porque com toda a certeza, tem gente que desistiria por muito menos.

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  3. Oii, Davi! Adorei o seu post!
    Eu sou estudante de Agronomia e fiquei sabendo que a partir do 6º período eu poderia dar aulas de matemática, química ou física em colégio públicos. Eu adoro crianças e fico tão feliz em pensar que mesmo não sendo minha profissão eu poderei lecionar sabe... Mas o que me desanima são todos esses tópicos que você citou.
    Uma coisa que tenho pensando muito é na violência, mesmo estando com muita vontade de dar aulas eu penso no que poderia acontecer comigo, mas do lado oposto eu penso no carinho que poderia receber de alunos que estariam interessados em aprendizado sabe?
    São tantas coisas opostas... ainda sim quero muito poder dar aulas, mas pensarei bem.

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  4. Michelli Santos Prado26 de outubro de 2013 15:23

    Olá Davi!!
    Amo seus artigos, sempre falando de coisas super interessantes e com dados atuais. Tenho uma irmã de 8 anos ( já tinha mencionada isso em outro comentário), mas vejo a dificuldade que há para ensinar e o desrespeito com eles, fico indignada com estes dados e o trabalho deles que deveria ser reconhecido pois é algo fundamental, não é de longe reconhecido e acho justo estas manifestações que acontecem atualmente .

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  5. adorei seu post, como futura professora esses posts me intrigam e não posso deixar de ler.. parabéns

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  6. Eu sou formado em Licenciatura, e assino embaixo tudo o que você falou aqui. É impressionante o quanto desrespeitam nossa profissão, que considero a mais importante de todas. Afinal de contas, somos nós que preparamos e ensinamos os futuros profissionais em suas determinadas áreas. Mas o negócio é não desistir e lutar até o fim por melhores condições e respeito. Um dia, tenho certeza que iremos vencer essa guerra. Só espero que ainda esteja vivo pra saboreá-la.

    @_Dom_Dom

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