Um Ator do Interior
Texto: Mário Rebouças
Direção: José Renato Ferner
Duração: 40 minutos
Gênero: Drama
Apresentação: 29 de outubro de 2013

Qual a relação que um ator possui com seu personagem? Até que ponto os ideais do personagem falam mais alto do que os ideais do próprio ator? É possível que o ator se perca em sua trajetória por se confundir com o personagem que interpreta nos palcos? Essas e outras perguntas são respondidas no monólogo Um Ator do Interior, apresentado por Mário Rebouças durante a fase regional do Mapa Cultural Paulista.
Foto: Reprodução/ Cultura Jundiaí
Baseado em “O Ovo e a Galinha”, de Clarice Lispector, o monólogo de Mário Rebouças não pode ser visto como uma peça de fácil entendimento. Pelo contrário. Na verdade, justamente por possuir as características do texto de Clarice, a peça se torna confusa em alguns momentos, mesmo para quem, de alguma forma, também vivencia o dilema do limite entre ator e personagem. Isso não significa que o texto de Clarice seja confuso e sim que ele é melhor apreciado durante uma leitura feita de maneira calma e atenta aos mínimos detalhes.

Causar certa confusão no espectador acaba atrapalhando a visão final que temos da peça. É inegável o fato de Mário Rebouças possuir uma presença de palco, se é que posso chamar assim, excepcional. Mas nem mesmo a forma como ele apresenta seu texto, clara e convincente, deixa de tornar a peça cansativa, transformando os quarenta minutos em um tempo muito maior. Pelo menos até determinado momento.

Pelo fato do público estar no próprio palco, ou seja, a peça ser apresentada por trás das cortinas, ao final somos surpreendidos quando elas se abrem. Até então estamos vivendo o dilema do ator com seu personagem, porém a partir deste momento sentimos na pele o drama de ator e personagem quando as cortinas se abrem e o imenso teatro está completamente vazio. Chega a arrepiar quando olhamos para frente, da posição que estamos, e imaginamos a solidão que alguém sente ao se apresentar para um teatro vazio. Uma solidão que se confunde com a sentida por um ator ao estar se relacionando com seu personagem.
Foto: Reprodução/Theatro Avenida
Com um cenário quase inexistente, ao menos enquanto as cortinas estão fechadas e não temos a arquitetura própria do teatro, o monólogo tem como principal destaque a própria atuação de Mário. Se não tem ao seu lado a grandiosidade de um cenário próprio, ele ao menos tem a versatilidade, transformando qualquer simples objeto (como um coroa ou um pedaço de pano) em algo de 1001 utilidades. O que funciona quando buscamos algo a mais do que o próprio ator.

Mesmo isso não bastando e a existência da dificuldade de entrar na peça por possuir um texto confuso e ser um monólogo, o que é natural, Um Ator do Interior não pode ser considerada uma peça ruim. Talvez seja simplesmente uma peça realizada para determinado tipo de público (o que não foi o meu caso), que esse sim aproveitará melhor cada aspecto do monólogo e principalmente da temática envolvida pelo mesmo: não apenas um ator do interior paulista; um ator que existe no interior de cada um de nós.

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