Foto: Reprodução
O Pequeno Mundo de Naninha das Dores
Texto: C. Domingues
Direção: C. Domingues e Wellington Durán
Duração: 30~40 minutos
Gênero: Drama
Apresentação: 29 de outubro de 2013

Quando a plateia é convidada a subir ao palco (pela segunda vez no dia) já imaginamos que algo diferente está para acontecer. A curiosidade, e principalmente a estranheza, se tornam mais intensas quando somos acolhidos de forma tão simpática, participando de uma quermesse. Com sorrisos e o jeitinho cativante do interior, um casal serve um delicioso bolo e um copo de suco. Nos sentimos em casa, sem imaginar que esse sentimento será ainda mais verdadeiro quando as luzes se acenderem.

Estamos dentro da casa de Naninha das Dores (Bianca Moreno). Moradora do sertão pernambucano, Naninha é uma jovem com a responsabilidade de uma dona de casa. Sua vida difícil se resume aos cuidados da casa e do pai, que está cada vez mais doente e por isso morando em outro lugar. Mas, para tentar se conformar com tudo o que está acontecendo e aceitar as dificuldades que precisa enfrentar, Naninha cria um mundo imaginário. Um mundo que acredita ser totalmente real.

Cuidando dos bonecos que “vivem” junto a ela, Naninha tem sua vida abalada com a chegada de uma tia. Vanilce (Flávia Moreno) chega para levar a menina para a capital, com o intuito de cuidar da sobrinha. No entanto, a intenção de Vanilce é outra e pode mudar radicalmente a vida da pequena e frágil Naninha das Dores.
Participar da quermesse e estar no palco juntamente com os atores, estreitando assim a relação, é apenas uma das inúmeras qualidades da peça O Pequeno Mundo de Naninha das Dores, representante de Atibaia-SP no Mapa Cultural Paulista. A peça possui uma história singela, não tem como negar, mas isso costuma bastar para conquistar, até porque o que importa é a totalidade.

O cenário se resume a um único cômodo de uma casa simples do sertão, no entanto não é apenas uma mesa com algumas cadeiras e pequenos objetos. O grupo Residência Artaud se preocupou com cada detalhe que, para olhares desatentos poderia passar despercebido, mas quando olhado cuidadosamente cria uma sensação diferente: a sensação de que não é apenas o cenário, mas a verdadeira casa da protagonista.

Apesar de todos os detalhes técnicos, como o cenário, o figurino e até mesmo a trilha sonora, a peça ganha o público por algo muito maior: sua história e a excepcional atuação de todo o elenco. O interessante é que, apesar de uma única protagonista, todos os personagens secundários possuem uma importância muito grande para a história – e claro que os atores se destacam por isso.
Ainda que isso aconteça, a personagem de Bianca Moreno, de apenas quinze anos, é quem mais se destaca. Ela muda completamente ao longo da peça (relativamente curta por sinal) e tem ao seu lado a atuação impecável, encantadora, incomparável e brilhante da jovem Bianca. Em seu passado, Naninha sofreu e talvez por isso tenha algo diferente. Algo que faz dela a menina e a mulher; a menina sonhadora e a mulher responsável; a menina com corpo de mulher e a mulher com alma de criança.

Se não bastasse a entrega de Bianca Moreno ao seu personagem, o nu teatral realizado por ela proporciona uma cena impactante e ao mesmo tempo inesquecível. Não simplesmente pelo nu, mas por ter sido de uma maneira sensual e longe de ser vulgar; por ter sido trabalhado detalhadamente em companhia com a iluminação, deixando a casa com o silêncio da dor e a falta de brilho do passado da personagem. Um passado mostrado simbolicamente, é verdade, mas nem por isso ignorado pelo público.

Com isso conhecemos uma história marcante. A história de uma menina que muda para não ter seu mundo mudado; para não acordar do mundo da fantasia em que vivia; para não se lembrar de que no passado foi abusada e que isso pode voltar a acontecer. O Pequeno Mundo de Naninha das Dores é uma história encantadora assim como a relação da protagonista com seus bonecos; é emocionante assim como a cena que fecha o enredo; forte como as agressões sofridas por Naninha. Uma peça que coloca o público em cena, se não atuando, vivenciando cada detalhe, por isso é mais do que merecido o grupo ter se classificado para a próxima fase do Mapa Cultural Paulista.

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