Sem Rumo, Liliane Prata, 1ª edição, São Paulo-SP:
Planeta, 2014, 200 páginas.
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Com algumas exceções, Fernando leva uma vida comum aos homens paulistanos da década de 80. Ao mesmo tempo em que fuma seus cigarros, em seu rádio toca o melhor da música internacional e as ruas possuem inúmeros carros que marcaram toda uma geração. Além disso, ele trabalha em uma empresa estrangeira com sede em São Paulo e seu casamento com Júlia, após apenas alguns meses, já não é mais o mesmo.

Escondido de sua esposa, Fernando assiste a fitas de vídeo pornô e assim se diverte mais do que deitado ao lado de Júlia. Como a liberdade sexual surgiu alguns anos antes, tornando a vida sexual muito mais fácil, é impossível para ele não se aproveitar disso para satisfazer seus desejos. Mas as consequências estão próximas e muita coisa irá mudar na vida tranquila que Fernando levava até então.

“Somente aquele prazer era intenso o suficiente para satisfazê-lo naquele momento. Um prazer instantâneo, explosivo, capaz de atirar violentamente todos os seus pensamentos para bem longe por alguns instantes. Um alívio imediato” (pág. 104).
Ao divulgar o lançamento de Sem Rumo, citei brevemente que a década de 80 é aquela em que as pessoas mais velhas se recordam com nostalgia e as mais novas queriam ter presenciado. Isso porque essa década, de importantes fatos históricos e uma memorável produção artística, em especial na música, causou intensas mudanças que são sentidas até hoje em nossa sociedade.

Ainda que tenha apenas uma das causas dessas mudanças, em seu enredo o livro de Liliane Prata retrata bem como era a rotina do brasileiro após vários anos de liberdade sexual. Muitos acreditam que se hoje a sociedade possui pensamentos caretas, isso vem da época em que se passa a história de Fernando, já que o sexo não é tratado como um tabu, a exemplo do que acontece atualmente.

Conhecendo apenas a sinopse, Sem Rumo aparenta ser apenas mais uma história comum e previsível, porém trata-se exatamente do oposto. O livro rapidamente mostra a sua verdadeira essência. Mais do que um casal em crise, conhecemos um homem perturbado por seu passado e pelas consequências de seus atos, buscando descontar sua raiva em todos. Isso dá certo toque de mistério instigante ao longo da obra.

Fernando é o tipo de personagem que nos deixa com nojo do ser humano. Porém a repulsa se equivale a compreensão de que ele tem motivos para agir de determinadas formas, afinal enfrenta o desconhecido e precisa também encarar sua própria personalidade, que particularmente classifico como doentia. Diria ainda que as circunstâncias cooperam para tudo o que Fernando apronta, já sem ter um rumo para sua vida, em menos de duzentas páginas de um livro viciante.

Autora de livros para jovens e adultos, Liliane ganhou um novo fã após esse livro em que narra uma história com riqueza de detalhes e que talvez só possa ser recomendada a maiores de dezoito anos – o que certamente é um fator positivo, pois fica claro que ela tornou sua obra verossímil. Ainda que com uma estrutura confusa e sem seguir uma ordem cronológica, Sem Rumo possui uma escrita viciante e agradável desde a sua primeira página. Largá-lo é uma tarefa muito difícil.

Com inúmeras citações musicais e outras curiosidades interessantíssimas, que mostram o cuidado de Liliane ao pesquisar sobre o tema, Sem Rumo só não é um livro perfeito devido ao seu desfecho, que deixa a desejar por ser de uma forma indiscutivelmente desnecessária após tantos acontecimentos marcantes. Ao menos para quem esperava algo totalmente diferente, Liliane se mostrou muito bondosa.

“Vendo aquele corpo nu e triste à sua frente, sentiu uma vontade imensa de chorar. Queria ser alguém diferente do que vinha sendo, mas não sabia quem. Queria voltar a ser o menino inseguro, que se assustava ao perceber que era diferente dos outros? Tinha chegado até ali para isso? Via a verdade para si mesmo não como um triunfo, mas como um retrocesso” (pág. 182).

6 Comentários

  1. Oie!

    Não conhecia o livro e é primeira resenha que leio dele.
    Achei interessante a premissa, se eu tiver oportunidade lerei.

    Beijos

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  2. Eu também não conhecia o livro, fiquei interessada no enredo, vou procurar mais informações do livro.
    Bjs, Rose.

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  3. Lendo a resenha já percebi que é o tipo de livro que leria tranquilamente, por ser ambientado na década de 80 e por ter um personagem como Fernando, fiquei curioso para saber o que acontece com o protagonista, além é claro de querer ter uma ideia de como era a vida em uma das melhores décadas que já existiu.
    Espero ler e não me decepcionar.

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  4. Ainda nao tinha visto nada sobre o livro, mas parece interessante, fiquei curioso pra conhecer essa historia, voltar um pouco no tempo (adoro livros que falam de épocas passadas) acho interessante tanto os livros que falam do passado quanto os livros que falam de um futuro.

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  5. A década de 1980 foi bem efervescente mesmo. Como nasci justamente nela, em 1983, pra ser mais preciso, não pude vivencia-la em sua totalidade, mas informações sobre ela é o que não falta. Me parece ser uma trama muito bem desenvolvida e é uma pena que o final não fez jus a tudo o que foi escrito até então.

    @_Dom_Dom

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  6. sua resenha está otima ,mas mesmo assim não tenho vontade de ler o livro ,o enredo não chamou minha atenção .

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