Texto: Cássio Pires
Baseado: A Sonata a Kreutzer, de Liev Tolstói
Direção: Marcelo Airoldi
Duração: 70~80 minutos
Gênero: Tragédia
Apresentação: 13 de abril de 2014
Quatro discos contendo a “Sonata a Kreutzer”, de Beethoven, tocados numa velha vitrola, provocam as memórias das personagens. A música e os ruídos misturam pensamentos, emoções, acontecimentos, ilusões e lembranças. Mas... lembranças de quê?
Embora a sensação seja intensa, a recordação não é nítida. Vertiginosamente, como a sonata que os impulsiona, eles atravessam séculos em instantes. Na busca alucinada de compreensão e do que realmente aconteceu, recorrem às pistas que podem estar nos objetos antigos e duradouros ao seu redor.
É nessa busca que as cenas acontecem, chegando, enfim, à tragédia, descrita no livro “A Sonata a Kreutzer”, de Leon Tolstói.

Ainda que os representantes da atual literatura também produzam obras excepcionais e inesquecíveis, os grandes clássicos internacionais possuem um charme diferente. Com toda a complexidade de seus textos e a beleza de seus cenários, essas obras se destacam e possibilitam o encanto em diversas linguagens artísticas.

Baseado no livro “A Sonata a Kreutzer”, escrito pelo russo Liev Tolstói, a peça Sonata a Kreutzer – Uma História para o Século XIX possui um dos melhores textos teatrais entre as peças já apresentadas na coluna Boca de Cena. Além de uma linguagem própria da época em que se passa a história, temos ainda uma perfeita interação entre roteiro, atores, espaço e tempo.
Foto/Reprodução: Glauber Carrião (Departamento de Cultura E. S. do Pinhal)
A peça, que nada mais é do que um monólogo apresentado por dois atores representando um mesmo personagem após esse matar sua esposa, conquista já pelas atuações de André Capuano e Ernani Sanchez. Os dois são muito parecidos, algo de extrema importância pela ideia do que querem transmitir, e possuem uma química invejável. Eles ainda se tornam dois gigantes em cena, explorando cada mínimo espaço do palco e do cenário, que nos transporta para o final do século XIX.

Com um ótimo jogo de luzes, trabalhado em alguns momentos pelos próprios atores, esse cenário fica ainda mais propício para a história – a ponto de o ambiente de todo o teatro ser caracterizado. Parte disso se deve também a trilha sonora, representada simplesmente por Beethoven, e pelos demais objetos do cenário. Vinho, cigarro e a própria fumaça, que exploram os sentidos do expectador, cumprem o que é proposto pelo título: contar uma história que leva todos para o século XIX.
Foto/Reprodução: Glauber Carrião (Departamento de Cultura E. S. do Pinhal)
Indiscutivelmente, mesmo com a simplicidade por se tratar de um monólogo, Sonata a Kreutzer – Uma História para o Século XIX é uma peça inesquecível, assim como toda a obra de Tolstói. Contudo, ficou claro que muitas pessoas se sentiram entediadas ao longo da apresentação - o que felizmente não foi o meu caso -, talvez por essa possibilitar vários tipos de interpretações e ter um texto para um público muito específico.

Sendo assim, mesmo tão envolvente no palco, a história certamente seria mais bem aproveitada pelo público caso se tratasse de outra linguagem artística. Para isso seria necessário que essa linguagem também possibilitasse a reflexão sobre o casamento, a traição, a loucura e todos os dramas de um homem que representasse bem a conservadora sociedade de séculos anteriores. Uma sociedade que prezava pela honra de um homem e a submissão da mulher, responsável pela conservação da família.

7 Comentários

  1. Olá Ricardo,

    Certas obras e certas adaptações para o teatro e cinema se as pessoas não tiverem um mínimo de conhecimento elas fiquem entediadas mesmo e poucos acabam curtindo, isso as vezes acontece....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Não curti, sei lá sabe aquela coisa que vcs simplesmente não gosta, é isso.

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  3. Se tivesse a oportunidade de assistir uma peça dessas na minha cidade não a perderia, por se tratar de um clássico e por ter uma ambientação e atuações em perfeita sintonia, irei procurar por essa obra em especial, pelo mesmo leio o livro que inspirou tal trabalho.

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  4. A programação do Circuito Cultural Paulista 2014 aqui em Itapira até onde me lembro, já tem um tempo que vi o folheto da programação, não inclui teatro, o que é uma pena. Certamente iria assistir a essa peça, acho monólogos desafiadores.

    Nunca li nada do Liev Tolstói, mas tenho imensa curiosidade por Ana Karênina.

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  5. Teatro é uma sensação único para se experimentar.
    Fico muito feliz quando uma obra é adaptada para o teatro por exemplo, as vezes, mesmo que de forma não excelente, ela me anima pelo fato de tudo o que o teatro pode proporcionar.
    Achei muito interessante essa obra teatral, ainda não tinha ouvido falar sobre ela. Achei muito boa. Beethoven é incrível e Tostói, nunca li, mas enfim é um clássico impressionante.
    Espero que o espetáculo possa passar pelos palcos paraenses.

    Jônatas Amaral
    alma-critica.blogspot.com.br

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  6. Só por essas fotos, achei a parte visual incrível. Esse trabalho de claro/escuro ficou lindo. Gostei do cenário também: Simples, mas que remete muito a época retratada.
    Textos clássicos sempre causam um certo "desconforto" em uma plateia que não seja tão próxima ao Teatro assim. Mas a parte boa é que existem pessoas que apreciam não apenas esses trabalhos, mas muitos outros também.

    @_Dom_Dom

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    1. Seu comentário em relação a essa postagem era muito aguardado, Dom Dom. rsrs A parte visual é de fato impressionante, mas como eu disse, nada se compara com o próprio texto. Espero que você tenha a oportunidade de conhecer essa peça. :D

      Abraços!

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