O Lado Mais Sombrio, A. G. Howard, tradução de Denise Tavares Gonçalves, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP:
Novo Conceito, 2014, 368 páginas.
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Mesmo que esconda de todo mundo que consegue ouvir os pensamentos das plantas e animais, Alyssa Gardner tem consciência de que terá o mesmo destino de sua mãe: o sanatório. Mas as alucinações sempre fizeram parte da família de Alyssa, desde que Alice Liddell, sua tataravó, contou seus estranhos sonhos para Lewis Carroll e esse escreveu o grande clássico “Alice no País das Maravilhas”.

Quando menos espera, porém, Alyssa descobre que tudo isso pode não ser simplesmente uma alucinação. Talvez seja uma maldição, que apenas ela pode quebrar ao entrar na toca do Coelho, acompanhada de seu amigo Jeb, e se aventurar no País das Maravilhas, um lugar com seres estranhos que nem sempre possuem boas intenções.

“Por mais desvairado que pareça, aquele rapaz no espelho é a resposta para tudo que aconteceu no meu passado. Esta é a minha única oportunidade de encontrar o País das Maravilhas, livrar a linhagem Liddell de sua maldição e salvar Alison. Se eu conseguir fazer isso, poderei enfim ser normal. Talvez normal o bastante para revelar a Jeb o que eu sinto” (pág. 91).
A obra-prima de Lewis Carroll é uma das mais importantes e adoradas da literatura mundial, não por menos já influenciou importantes releituras e foi levada ao teatro/cinema/televisão em inúmeras oportunidades. Mas poucas vezes a história de “Alice no País das Maravilhas” resultou em um enredo tão espetacular e diferente quanto em O Lado Mais Sombrio.

No primeiro livro da série escrita por A. G. Howard, originalidade e criatividade são duas características que se destacam. A escrita não deixa a desejar, em especial nas descrições de lugares e personagens, muitas vezes responsáveis por transformar o País das Maravilhas em um lugar sombrio. A verdadeira questão é que as descrições são tão malucas que é possível se perder na imaginação, mesmo se tratando de um lugar que todos já sonharam em conhecer um dia.

Os diálogos também são muito bem construídos, o que dá inclusive um toque de humor para a história. Isso porque as falas são recheadas de ironia e sarcasmo, casando perfeitamente com as já citadas características. Esse é o grande diferencial da obra, afinal com esses diálogos, a importância dos personagens, por exemplo, se torna mais evidente.

Os problemas do livro, contudo, não estão simplesmente no seu enredo. Howard construiu uma história sem pontos soltos, explorando a própria Alice Liddell e também toda a obra de Lewis Carroll, e dando um sentido a tudo que já conhecemos. À sua maneira, a autora leva o leitor a um mundo com inúmeros elementos que ainda são desconhecidos pelos leitores e que fazem parte do País das Maravilhas.

A forma como todas as aventuras são contadas é o que acaba não satisfazendo. Apesar de poucos capítulos, muita coisa acontece e às vezes de modo precipitado. O início, por exemplo, dá a impressão de que a protagonista passará por uma série de etapas antes de chegar ao seu destino, porém isso acontece repentinamente. Coisas semelhantes voltam a acontecer, sem que seja possível se acostumar com isso. Ao menos nesse caso, escrita e originalidade não são suficientes.

Por fim, o romance que Alyssa está envolvida desde o início também não tem nada a acrescentar. Ainda que não seja um relacionamento cansativo, a presença de Jeb é totalmente desnecessária. Ele até possui um papel importante para algumas etapas, e sem ele provavelmente Alyssa não conseguiria dar sequência a sua missão, porém poderia acontecer de outras maneiras.

Mais do que uma releitura, O Lado Mais Sombrio proporciona ao leitor uma nova visão do País das Maravilhas, que não foi interpretado adequadamente por uma Alice ingênua. Ela impediu que os leitores conhecessem o lado sombrio e as verdadeiras características de seres que podem não ser tão belos quanto estamos acostumados. Ainda que tenha suas falhas, no entanto, a história é maluca e também pode ser divertida.

“A propulsão me força contra o vento. Minhas tranças me chicoteiam o rosto, trazendo de volta a imagem de Alison lutando com o seu cabelo no pátio da clínica. Mas não serei vítima como ela. Aceitaria o poder do qual ela sempre fugiu. É a única coisa que pode me manter viva e me fazer reencontrar Jeb” (pág. 260).

9 Comentários

  1. Oi
    Assim que eu vi a editora divulgando esse livro com essa capa linda eu logo fiquei interessada. Entretanto, quando eu li a sinopse eu desanimei bastante porque eu não gosto de Alice no País das Maravilhas (não do livro pelo menos), sei que é um super sucesso como você disse, mas nunca gostei... Entretanto eu tenho lido resenhas no geral muito positivas. Eu achei interessante o que você disse sobre o autor não deixar pontos soltos e explorar novos seres desse mundo, o que me faz pensar que as coisas teriam mais sentido - sim, eu acho o mundo de Alice muito bobo (enfatizando: o do livro), talvez seja porque não entenda tds as referências que existem no livro (já ouvi dizer que tudo no livro dele se refere a algo ou alguém, mas eu nunca fiz qualquer relação).
    Uma crítica constante que eu ouvi foi a respeito de Jeb e desse relacionamento que é meio bobo, como vc disse, não contribui em muita coisa... mas apesar do meu receio Alice e desse romance falho eu estou ficando realmente interessada nessa obra!
    ótima resenha ;)

    tem postagem nova no meu blog! espero sua visita
    bjs

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    1. Juliana, eu particularmente não conheço a história original, do Carroll, apesar de conhecer tudo o que envole a história de Alice, mas acho que posso dizer que no caso de "O Lado Mais Sombrio" as coisas não são tão bobas. Tem algumas situações bem bizarras, que pelo menos em parte faz a diferença para que o livro se torne mais indicado para o público adolescente, por exemplo.
      Em relação a leitura, eu acho que você pode gostar, mas é aquela velha história: é bom ler sem muitas expectativas.

      Beijos,

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  2. Eu até leria o livro, mas acho que no momento não estou afim de uma leitura do tipo, ainda mais que tenho medo de releituras que tem tudo pra dar certo, e mesmo que sejam originais, pecam em no desenrolar. Talvez não seja o caso de "O Lado Mais Sombrio", mas não quero me precipitar, então vou aguardar um pouco até adquirir. De qualquer modo, a leitura parece ser interessante, e tem uma premissa boa. Vou ler mais algumas resenhas e ver o que acho.

    Abraços!

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  3. Olá Ricardo,

    Esse livro esta na minha lista de espera de leitura, li algumas resenhas positivas e outras nem tanto, vamos ver o que me espera...abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  4. Acredita que eu não tinha reparado nessa forma como as aventuras são contadas? Mas agora que você falou eu me toquei que isso é mesmo verdade... Sobre o Jeb, não gostei do fato dele ser inserido nessa triângulo amoroso completamente desnecessário, fala sério! Ele nem é um personagem ruim/chato, mas sua presença é questionável.
    Bom, o livro tem potencial, percebi que a autora sabia, desde o início, o rumo que a história iria tomar, e isso é um ponto positivo a ser considerado.
    Estou curiosa para ler o segundo volume por causa da ~linda~ capa HAHA
    Abraço

    Brunna Carolinne - My Favorite Book - @MFBook
    myfavoritebook-mfb.blogspot.com.br

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    1. Infelizmente isso aconteceu, Brunna. Em alguns momentos me perguntava o que eu tinha perdido pra não entender como determinada coisa aconteceu. Sobre o Jeb, sua presença até seria mais necessária, caso as coisas não tivessem acontecido como aconteceu - acho que você sabe do que estou falando.
      A capa do segundo volume, como disse lá no seu blog, é realmente incrível. Apesar de tudo, espero que não demore a ser lançado. :D

      Abraços,

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  5. Oi Ricardo,

    Ainda não iniciei essa leitura, mas as muitas resenhas positivas que venho lendo sobre esse livro me animaram bastante, quando estiver lendo vou prestar atenção às falhas que você apontou e se elas de fato, me incomodarem vão tirar mesmo um pouco do mérito da história. Gosto de criatividade em releituras ou adaptações, principalmente porque eu ODIEI Branca de Neve e o Caçador e não quero ler nada que seja parecido. Uma história inspirada em Lewis Caroll deve no mínimo ser genial.

    Beijo,
    Mari Siqueira
    http://loveloversblog.blogspot.com

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  6. Ok. Vamos lá.
    Acompanhei a divulgação do livro até seu lançamento. Ainda não tive a oportunidade ler, nem de vê-lo nas livrarias.
    Logo de cara, percebi que talvez o livro pudesse trazer algo novo, é o que verdadeiramente espero, e pelo menos, pela resenha é o que eu vou encontrar.
    É muito difícil recentemente encontrar obras que trazem leituras de clássicos de uma forma satisfatória ou pelo menos plausível.
    Ainda não posso dar um parecer sobre a obra, é claro. Mas, ela desperta minha curiosidade de diversas maneiras, e espero que quando eu puder ler eu me surpreenda e tenha uma boa história nas mãos, para pelo menos me distrair.

    Um excelente resenha Ricardo, Parabéns!

    Jônatas Amaral
    alma-critica.blogspot.com.br

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  7. Só tenho lido resenhas positivas em relação a esse livro. Gosto dessas releituras dos textos clássicos, e sempre torço para que os autores ousem bastante. Que bom que a autora teve originalidade e criatividade aqui. Embora tenha apresentado esses probleminhas, acho que deve ser uma leitura bem interessante.

    @_Dom_Dom

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