Os Três, Sarah Lotz, tradução de Alves Calado, São Paulo-SP: Arqueiro, 2014, 400 páginas.
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Pessoas do mundo todo jamais se esquecerão da chamada Quinta-Feira Negra, o dia em que quatro aviões caíram em diferentes partes do mundo e marcou o início de mudanças impossíveis de se imaginar até então. Os acidentes, no entanto, possuem um fato em comum: três crianças sobreviveram; uma pode estar desaparecida.

A americana Pamela May Donald é outra sobrevivente, porém ela permaneceu viva apenas por tempo suficiente para mandar uma mensagem. Uma única e misteriosa mensagem pedindo que vigiem o menino e dizendo que eles estão ali. Ninguém sabe exatamente o que ela quis dizer com suas últimas palavras, mas sua mensagem mudará o mundo e situações estranhas passarão a acontecer ao redor do globo.

“Espere um instante... Tem alguma coisa se mexendo, perto de onde começavam as árvores. Uma forma escura, uma pessoa pequena, uma criança? A criança que estava sentada na frente dela? Pam é tomada pela vergonha: não pensara no menino ou na mãe dele nem por um segundo enquanto o avião caía. Só em si mesma?” (pág. 11).
Os Três é um dos livros mais comentados do mercado literário mundial na última semana e apresenta um trabalho solo de Sarah Lotz, juntamente com um estilo de ficção totalmente diferente do que estamos acostumados. Ainda que tenha algumas partes com narrativa convencional, a obra é formada por relatos, entrevistas, matérias, conversas virtuais e tudo o que um jornalista precisa ter em mãos para escrever uma não-ficção.

Isso acontece porque temos um livro dentro do livro, ou seja, Os Três nada mais é do que o original do livro “Quinta-feira Negra: Da Queda à Conspiração”, escrito pela personagem Elspeth Martins. Portanto, durante toda a leitura acompanhamos, nem sempre de forma cronológica, a experiência de Elspeth na pesquisa e principalmente o seu envolvimento com pessoas que possuem alguma relação com o misterioso caso das três crianças.

Com isso Os Três já deixa de ser um livro comum, mas aí começa o que realmente vai definir a história de Lotz. Sem muito esforço o livro instiga e prende o leitor, a ponto de esse não desejar interromper a leitura e ficar pensando nessa quando interromper é inevitável. O leitor precisa saber quem são, o que querem e do que Os Três são capazes. Nesse ponto que a autora se perde em certos momentos.

Como em qualquer conspiração, Os Três é repleto de teorias, algumas com sentido e outras totalmente bizarras, que chegam ao nível máximo de maluquice que um cético pode esperar, mesmo em uma ficção. Entre tantas teorias, a religiosa é a mais consistente e a que possui mais respostas ou motivos para de fato acreditarmos, afinal tem como base os textos bíblicos. Já as demais quase não são exploradas como esperamos e esse é o ponto negativo desse enredo que envolve inclusive conspiração política.

O estilo do livro, que nos apresenta inúmeras personagens, impede que o leitor se identifique e por isso não há qualquer tipo de emoção, mesmo em todas as situações sinistras que acontecem. Além disso, na maioria das vezes os fatos são apenas apresentados e não explicados, o que curiosamente, diferente de outras obras, faz o envolvimento ser maior. Isso faz o leitor deduzir o que aconteceu quando algo surge repentinamente.

Seria mentira se faltassem elogios a Os Três, um livro que pode não aterrorizar, mas que deixa o leitor sem reação; não possui personagens inesquecíveis e sim um mistério único; foi escrito por uma sul-africana, porém tem muitas características da literatura norte-americana, sobretudo nos ideais de todas as pessoas, que aparentam não ser simplesmente personagens ficcionais. Um livro imprevisível, instigante e diferente, que vai te surpreender ao mostrar que tudo é possível, mesmo em um final que ainda te dá possibilidades de imaginar o que poderia surgir a partir do último ponto final.

“Jess olhou-a inexpressivamente. Depois estendeu a mão para mim. Eu gostaria de dizer que ela sabia quem nós éramos, mas não havia reconhecimento nos seus olhos, o que era compreensível. Mas não consigo deixar de pensar que ela olhou para nós, avaliou-nos e deduziu, de cara, quem seria o menor dos dois males” (pág. 115).

3 Comentários

  1. Gosto do que Umberto Eco (Escritor de o nome da Rosa) diz, que um livro ecoa vozes de outros livros. Gosto deste dialogismo que a literatura pode fazer. Como um livro pode evocar tantas coisas.
    Este livro como vi faz muito disso. É um ponto que achei muito gratificante e pode ser um dos pontos me façam lê-lo, depois é o fato de ser uma obra tão incomum, não imaginava que fosse encontrar isso dentro desse livro.
    Parece ser bom.

    Jônatas Amaral.
    alma-critica.blogspot.com.br

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  2. Creio eu que nunca tenha lido nada parecido com essa estrutura não muito convencional. De início, pode ser que ache estranho, mas se a autora consegue colocar de uma maneira entendível, a coisa pode me surpreender. Acho massa essas tramas cheias de teorias da conspiração, mas fiquei triste ao saber que nem todas são muito bem explicadas. Mesmo assim, acho que é uma boa dar uma conferida.

    @_Dom_Dom

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  3. Confesso que eu curti a sinopse que li no skoob até chegar nessa mensagem sem pé nem cabeça, mas pela sua resenha fiquei interessada sim! E em outro blog vi que o livro também é vendido com uma kit incrível com várias coisas do livro (tudo dentro de uma caixa-preta na qual vem o livro e uma folha rasgada de jornal relatando as tragédias). Agora além de vontade de ler o livro pra saber mais sobre a história tô com muita vontade de pôr minhas mãos nesse kit tão bem bolado! /o\

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