Dias Perfeitos, Raphael Montes, 1ª edição, São Paulo-SP:
Companhia das Letras, 2014, 280 páginas.
Skoob: Clique Aqui.

O solitário estudante de medicina Téo divide seu tempo entre cuidar de sua mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Apesar disso, foi durante uma festa que conheceu Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha em se tornar uma roteirista de cinema e por isso está escrevendo seu novo roteiro.

A personalidade de Clarice chama a atenção de Téo, que obcecado decide se aproximar o máximo possível e isso o leva a elaborar um plano doentio. Trabalhando em cada detalhe com o cuidado necessário para tudo sair como o planejado, Téo passa a viver uma história de amor diferente. Uma história de amor em que a tensão psicológica está mais presente do que qualquer tipo de emoção.

“Algo havia explodido dentro dele. Algo que ele não conseguia nem queria explicar. Ainda que não soubesse o sobrenome de Clarice, onde ela morava ou em que universidade cursava história da arte, ele tinha o número do celular dela e isso os tornava íntimos” (pág. 21).
A atual geração de nossa literatura já mostrou a sua qualidade em inúmeras oportunidades, porém nenhum de seus representes se destaca tanto quanto Raphael Montes, autor de “Suicidas” e Dias Perfeitos. Não é possível duvidar de seu talento, mesmo sem conhecer as obras, mas ainda assim poucas páginas são necessárias para ficar claro que não se trata de um escritor qualquer.

O estilo de escrita do autor é bem particular e é, sem dúvida, ao lado do próprio enredo, o que mais chama a atenção. Parte disso se deve muito a narrativa em terceira pessoa, que possibilita que o estilo pouco descritivo do autor deixe a leitura ágil e envolvente, ao mesmo tempo em que explora a mente doentia de Téo sem depender apenas de suas atitudes e pensamentos.

Diferente de outros autores, Raphael não planta a dúvida na cabeça do leitor sobre a racionalidade de Téo, que ainda nas primeiras páginas, ao conversar com um cadáver como se conversa com um amigo, mostra os traços de sua personalidade e já adianta que será capaz de tudo dali em diante. A partir de então, cada nova atitude de Téo é uma grande surpresa, que deixará leitores impressionados.

Mesmo com tudo o que é apresentado, em muitos momentos Téo mostra ser mais racional do que se espera de alguém como ele, por isso existe certo descontentamento em determinados momentos. Contudo essa impressão é passageira e rapidamente o personagem se torna totalmente perturbador, por isso é necessário destacá-lo por ter sido tão bem construído.

Mais do que uma obra policial, já que não existe a velha relação crime-investigação, Dias Perfeitos é um viciante thriller psicológico que consegue exatamente aquilo que o gênero propõe: explorar a mente humana, do personagem e do próprio leitor, que se vê envolvido com a trama a ponto de não ser capaz de imaginar o que ainda pode acontecer nessa história de amor, sequestro e obsessão.

Por algumas passagens fortes, Dias Perfeitos não pode ser indicado a todos os públicos, mas é suficiente para apontar Raphael Montes como uma realidade da nossa literatura e apostar em seu trabalho como fundamental para revolucionar o suspense brasileiro em todos os seus diferentes segmentos. A história de amor entre Téo e Clarice não fará nenhum leitor suspirar de emoção, porém a tensão vale os aplausos, apesar de o final ser exatamente o oposto do desejado desde a primeira maluquice desse protagonista inesquecível.

“Recostado na cadeira giratória, Téo folheou o roteiro. A leitura de Dias perfeitos era uma porta para novidades. Quantas nuances de Clarice seriam reveladas? Como a criança que guarda o melhor pedaço da torta para o final, ele adiava abocanhar o texto. Preferia desvendá-lo como um bom vinho: primeiro o rótulo, depois o aroma e, então, o sabor. (...) Clarice escrevia como falava: frases curtas e ousadas, poucas inversões sintáticas” (pág. 57).

9 Comentários

  1. Eu li Dias Perfeitos, e realmente achei a escrita do Raphael fantástica. Mas foi difícil para mim terminar a leitura, cheguei a quase vomitar na cena mais forte de todas. Aí tive que deixar o livro de lado por algum tempo, para depois terminá-lo. Concordo que não possa ser indicado para todos os públicos, mas fãs do gênero de estômago forte não podem perder!

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

    ResponderExcluir
  2. Oie

    Tenho visto muitas resenhas positivas a respeito deste livro, e já estou ficando curiosa.

    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Olá =).
    Eu sempre leio ótimos comentários sobre esse livro, sempre acabo ficando curiosa com o conteúdo dele, mas ainda não tive oportunidade de ler.
    Mesmo sem ler já sou fã do autor que inovou e mostrou que a literatura nacional tem qualidade. Sem falar que a obra dele já foi traduzida pra outras línguas o/.
    Beijos.

    memorias-de-leitura.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Olá! Não conhecia o livro e fiquei impressionada com a sua resenha, parece ser demais!! Thrillers psicológicos sempre chamam minha atenção e esse não foi diferente, quero muito ler e com certeza vai entrar pra minha wishlist hahahaha
    Parabéns pela resenha, ficou maravilhosa viu, beijão da Gab!
    Thousand Lives to Live ♥

    ResponderExcluir
  5. Ricardo, se não estou enganada eu já falei para você o quanto tenho vontade de ler esse livro, e sua resenha me deixou mais curiosa ainda! Isso não se faz (ou, melhor, se faz?). Legal saber que a leitura é ágil e envolvente, isso me atrai bastante, porque ultimamente tenho pegado para ler uns livrinhos que não estão com ritmo (pelo menos comigo).
    Agora estou vendendo meu rim esquerdo para conseguir esse livro. Quero ler para ontem </3

    Brunna Carolinne - My Favorite Book - @MFBook
    myfavoritebook-mfb.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Claro que isso se faz, Brunna! Estou falando de um livro nacional incrível escrito por um autor que certamente ainda vai deixar os leitores brasileiros orgulhosos! Não sei se é bom saber que está vendendo seu rim esquerdo (kkkk), mas espero que você consiga ler o quanto antes - e que não se arrependa, é claro!

      Beijos,

      Excluir
  6. Tenho muito interesse nesse livro, o tenho entre os meus desejados no skoob!
    Da última vez que fui na Saraiva ele estava em falta, por isso acabei não comprando... Mas vou dar mais um tempinho e vou atrás dele de novo, com certeza vai ter e o preço vai estar melhor (quando vi estava por R$ 34,90!!!).
    Acho a premissa do livro muuuuito boa, faz muito o meu estilo de leitura.

    ResponderExcluir
  7. Oi, Ricardo
    Deixei pra ler todas as resenhas de Dias Perfeitos somente depois de ler o livro, não queria ter nenhuma dica ou impressão antes de ler e resenhar... Agora que li, posso concordar com você: é uma leitura viciante, que não larga o leitor! Tive um misto de indignação e náusea, ao mesmo tempo uma louca compreensão da obsessão de Téo... amei a reviravolta.
    Adorei o final. Ele disse que gera polêmica, mas pra mim funcionou bem, foi coerente com a trama. Mas ele escreveu dois finais, sabia? E no cinema talvez seja o outro escolhido.
    Bela resenha!

    A minha resenha do livro está aqui: Ler para Divertir

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Manu.
      Muito obrigado por seu comentário. Antes de realizar a leitura de "Dias Perfeito" também evitei algumas resenhas, apesar de sempre ver pessoas indicando - o que aumentou a minha expectativa.
      Sobre ele ter escrito dois finais, eu realmente não sabia. Pra falar a verdade, concordo que foi coerente, mas esperava algo diferente - e de forma alguma isso prejudicou. Acho que seria bem legal se fosse usado o outro final para a adaptação, que eu espero que seja produzida o quanto antes.

      Beijos!

      Excluir