Texto: Fauzi Arap
Baseado: -
Direção: Marcos Loureiro e Fauzi Arap
Duração: 80 minutos
Gênero: Comédia
Apresentação: 10 de julho de 2014
Chega ao Circuito Cultural Paulista a comédia “Chorinho”, consagrada com o prêmio APCA de Melhor Autor (2007). A peça marca o reencontro das atrizes Denise Fraga e Cláudia Mello com o autor e diretor Fauzi Arap.
A montagem se passa em uma praça de uma grande cidade, onde duas vidas se entrelaçam graças aos encontros e conversas de uma solteirona aposentada com uma estranha moradora de rua. De um lado estão preconceitos e solidão; de outro, lucidez, loucura – e mais solidão. Com diálogos regados de humor e emoção, a peça narra, em sete momentos, a construção da inusitada amizade entre estas duas mulheres aparentemente tão diferentes.

Um nome pode ser suficiente para que o teatro lote de pessoas interessadas em ver de perto o talento de uma atriz de sucesso. Muitas vezes, por uma série de motivos, esse nome pode ser o único ponto especial de um trabalho, mas esse não é o caso de Chorinho, peça brilhantemente protagonizada por Denise Fraga e Cláudia Mello (uma moradora de rua e outra solteirona, ambas solitárias).

Com direção de Marcos Loureiro e Fauzi Arap, Chorinho passa a ideia inicial de que será uma comédia inesquecível, afinal, temos no palco uma das principais comediantes da dramaturgia brasileira e isso tem um peso enorme. Contudo, a união de Denise e Cláudia representa mais do que o encontro de duas talentosas atrizes. Ela parece ter a exata intenção de que uma complete a outra, apresentando assim o drama e a comédia – juntos, sim, inesquecíveis. Enquanto Denise Fraga tem o humor característico de seu trabalho, Cláudia Mello passa uma sutileza encantadora.
Foto/Reprodução: Glauber Carrião (Departamento de Cultura E. S. do Pinhal)
Se a comédia tem como objetivo levar o público aos risos escandalosos, essa máxima ganha um novo significado com o texto de Arap. Inúmeros são os momentos em que é absolutamente impossível segurar a gargalhada, mas tem algo ainda mais especial: o sorriso. Não apenas o sorriso por uma piada sem graça, o que não acontece por sinal, mas sim o sorriso de concordância; de identificação; o sorriso de quem gostaria de apoiar as personagens, criar um laço de amizade.

Isso se deve ao conteúdo de Chorinho. Retratar a vida urbana pode até não ser a mais original das ideias, porém o choque de realidade entre as personagens chega para alertar o quanto podemos estar desatentos com o que acontece ao nosso redor. Não é simplesmente a ideia de que devemos observar as pessoas invisíveis aos olhos de uma sociedade hipócrita, mas enxergá-las como humanos – e como humanos, enxergar o que essas pessoas têm dentro de seus corações manchados pela dolorosa solidão.
Foto/Reprodução: Glauber Carrião (Departamento de Cultura E. S. do Pinhal)
Como se nota, o cenário de Chorinho não poderia ser de uma simplicidade maior e em outros casos seria um ponto negativo. Aqui acontece exatamente o contrário e mais uma vez se deve ao próprio texto, já que as atrizes, através de seus diálogos, conseguem dar uma cara própria e transformar o palco, ao menos na imaginação do espectador, na tão citada praça, que pode e deve ser vista como uma terceira e importantíssima personagem da peça.

A leve crítica social não significa necessariamente que ela não é importante para a peça. Ela está ali presente, para quem quiser refletir sobre a vida urbana, mas as personagens estão mesmo falando sobre suas próprias vidas. Vivendo duas personagens solitárias, e que sofrem por isso, Denise Fraga e Cláudia Mello proporcionam surpresas e oitenta minutos de gargalhadas, para uma cena final emocionante, oficializando uma verdadeira amizade que merece incansáveis aplausos de satisfação.

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