Foto: Reprodução
Morreu no fim da tarde dessa quarta-feira, 23, no Recife, o dramaturgo, romancista e poeta paraibano Ariano Suassuna. O escritor, de 87 anos, estava internado na UTI do Real Hospital Português desde a última segunda-feira, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), e faleceu às 17h15, após uma parada cardíaca.

Ao dar entrada no hospital, Ariano Suassuna, que vivia no Recife desde a década de 40, passou por uma cirurgia para controlar a pressão intracraniana. Desde então, o escritor permaneceu em estado grave e instável. Já no último boletim médico, divulgado às 11h, a neurocirurgiã responsável pelos cuidados de Ariano informou que o escritor estava com pressão arterial baixa e pressão intracraniana elevada.

Apesar da idade avançada, o escritor continuava em plena atividade e participando de eventos literários e culturais em várias partes do país. Ele também estava concluindo as últimas alterações de seu novo livro, com o título provisório “O Jumento Sedutor” e que seria lançado até o fim do ano. Sua última aparição pública aconteceu no sábado, 19, quando tirou fotos com o público presente no Festival de Inverno de Garanhuns. No dia anterior, no mesmo festival, Ariano Suassuna ministrou sua última aula-espetáculo para dezenas de pessoas.

Ocupante da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 1990, Ariano Suassuna é o terceiro acadêmico a morrer em menos de um mês. A instituição, com sede no Rio de Janeiro, perdeu também Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro, que faleceram em 03 e 18 de julho, respectivamente.

O presidente da ABL, Geraldo Holanda Cavalcanti, decretou três dias de luto e disse que Ariano “reunia em sua pessoa as extraordinárias qualidades de homem de letras e de intelectual no melhor sentido da palavra, alguém que, dispondo de uma cultura invulgar, era, ao mesmo tempo, um homem de ação”. “À sua maneira ocupava-se e preocupava-se com os problemas sociais, focado nos da sua região”, concluiu em nota divulgada pelo Facebook.

O corpo de Ariano Suassuna será velado no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do estado de Pernambuco, e o sepultamento acontecerá nessa quinta-feira, 24, em Paulista, região metropolitana do Recife.

Vida e Obra
Filho de Rita de Cássia Dantas Villar e João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, então governador da Paraíba, Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa. Ariano passou parte da infância no sertão paraibano e perdeu o pai com apenas três anos, assassinado no Rio de Janeiro durante a Revolução de 30.

Após a morte do patriarca da família, e mais alguns anos na Paraíba, sua mãe decide se mudar para o Recife, onde seus nove filhos, incluindo Ariano, teriam melhores condições de ensino. Pouco depois, em 1945, tem seu primeiro poema publicado no Jornal do Commercio, e no ano seguinte entra para a Faculdade de Direito do Recife.

Em 1947, ano em que conhece Zélia de Andrade, com quem se casaria anos mais tarde, Ariano escreve sua primeira peça teatral, intitulada “Uma Mulher Vestida de Sol”. Antes mesmo de se formar em Direito, escreveu ainda “Cantam as Harpas de Sião”, “Os Homens de Barro” e “Auto de João da Cruz”, peça reconhecida com o Prêmio Martins Pena.

Após um período se tratando de uma tuberculose, e trabalhando em outras peças teatrais, Ariano Suassuna inicia o namoro com Zélia, mulher que ele sempre considerou grande responsável por importantes mudanças em sua vida pessoal e profissional. Apenas após o namoro que seus textos deixam de ser trágicos e passam a ter características cômicas, que fariam grande sucesso em suas principais obras.

Durante quatro anos, entre 1952 e 1956, se dedica à advocacia, ao mesmo tempo em que escreve suas primeiras comédias. Dessa forma que surge peças como O Rico Avarento e seu grande clássico, Auto da Compadecida, ambos recentemente produzidos pelo grupo teatral Cia. Viva Arte.

Ed. José Olympio - 2006
Já trabalhando como professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ariano Suassuna publica o seu primeiro romance, “A História de Amor de Fernando e Isaura”, e se casa com Zélia, o grande amor da sua vida.

Ao longo das próximas décadas, escreve outras peças teatrais, bem como importantes romances, entre eles “O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, considerado por críticos como um dos seus mais importantes romances e vencedor do Prêmio Nacional de Ficção.

Em 1990, após a morte de Genolino Amado, é eleito para ocupar a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, o que se repete em 1993, na Academia Pernambucana de Letras e, por fim, em 2000, quando passou a ocupar a cadeira 35 da Academia Paraibana de Letras.

Já em meados da década de 1990, suas obras ganham um destaque também na televisão, primeiramente com "Uma Mulher Vestida de Sol”, sua primeira peça teatral, e mais tarde com “Auto da Compadecida”, peça adaptada para a televisão e o cinema. No intervalo entre as duas produções, exerce a função de Secretário de Cultura de Pernambuco e passa a apresentar uma aula-espetáculo que o acompanharia até o fim de sua vida. Mais tarde, entre 2007 e abril de 2014, período do mandato de Eduardo Campos no governo de Pernambuco, exerce a função de Secretário de Assessoria.

Como importante nome da literatura brasileira, foi homenageado também em diferentes carnavais, começando pelo ano de 2002, quando foi tema do samba-enredo da escola de samba carioca Império Serrano. As escolas paulistanas Mancha Verde e Pérola Negra também homenagearam a vida e obra de Ariano Suassuna, em 2008 e 2013, respectivamente. Já em 2014, o bloco Galo da Madrugada, o mais tradicional do carnaval do Recife, homenageou o escritor durante seu desfile. Em 2015, será a vez da escola de samba Unidos de Padre Miguel homenagear o falecido escritor.

Além de importante nome da literatura nacional, Ariano Suassuna era um grande defensor da cultura nordestina e traduzia, com suas obras, a alma e a tradição de um povo único. O dramaturgo deixa a esposa Zélia, com que viveu por quase sessenta anos, e os cinco filhos do casal.

Um Comentário

  1. Olá Ricardo,

    Excelente post e ótima homenagem a esse grande mestre, deixa saudades....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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