Falar sobre literatura e ainda assim conquistar a atenção de uma criança é uma tarefa complicada, no entanto é preciso apenas mencionar um nome para que os olhos infantis se voltem ao interlocutor. A aparência pode ser desconhecida, mas o nome é forte e faz parte da vida de crianças, adolescentes e adultos desde meados da década de 1910.

Um dos responsáveis por aumentar a valorização do escritor e do livro em nosso país, Monteiro Lobato se destacou em todas as suas áreas de atuação e sua importância vai muito além da literatura. Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882, José Renato Monteiro Lobato (mais tarde José Bento) criou personagens inesquecíveis que imortalizaram sua memória.

Ainda muito jovem, Monteiro Lobato leu grande parte dos livros da coleção pessoal de seu avô, o Visconde de Tremembé, e durante sua vida escolar teve os primeiros contos publicados em jornais das escolas que frequentava, já mostrando aptidão com a escrita. Seu sonho sempre foi seguir carreira artística, mas por imposição de seu avô se formou em Direito e exerceu a profissão de promotor público.

Quando o Visconde de Tremembé faleceu, em março de 1911, Lobato herdou uma das fazendas do avô e se mudou para o local ao lado da esposa e dos filhos. Na época publicou artigos em alguns jornais, incluindo O Estado de São Paulo, mas foi apenas em 1914 que sua carreira literária deu um grande salto.

Ao enviar uma reclamação para o mesmo jornal, seu texto foi publicado e ganhou destaque entre leitores e críticos. A crônica não apenas tinha qualidade, como também causou polêmica, o que resultou na escrita de novos textos. Mais tarde, a união desses textos deu origem ao livro “Urupês” (1918), obra-prima de Lobato e responsável por um dos seus mais importantes personagens: Jeca Tatu.

Jeca Tatu representa a luta de Monteiro Lobato em criar personagens com a cara do brasileiro e dá um grande destaque ao chamado regionalismo, tão presente na obra do escritor. Uma personagem que sofre as consequências de um país como o Brasil e que mostra como as pessoas que estão distantes dos grandes centros, mais precisamente os caboclos, sofrem com o desprezo de um governo que marginaliza tal classe social.

Com a publicação de “Urupês”, livro dedicado ao público adulto, o escritor passou a ser reconhecido e se tornou uma importante voz da cultura brasileira. Na mesma época, Jeca Tatu se destacou através de um almanaque que era comercializado juntamente com o Biotônico Fontoura. Esse almanaque não apenas fez sucesso, como também apresentou Lobato ao público infantil.

Como citado, Lobato já era reconhecido por seu trabalho literário, mas queria ir além e se tornou também um importante editor, lutando sempre por melhorias na carreira do escritor e buscando tornar os livros mais atrativos. Foi assim que passou a tratar o livro como um produto, sempre prezando pela qualidade.

O escritor não demorou a ter a sua própria editora, onde publicou livros sobre estudos, crônicas e contos, mas também o seu primeiro livro infantil, “A Menina do Narizinho Arrebitado” (1920). Como o título já sugere, a obra é protagonizada por Narizinho, personagem que mais tarde estaria presente na famosa coleção Sítio do Picapau Amarelo, iniciada no ano seguinte com o “O Saci”.

As histórias de Narizinho, Pedrinho, Emília, Tia Anastácia, Dona Benta, e tantas outras personagens, não são as mais importantes obras de Monteiro Lobato, mas são sem dúvida alguma as mais conhecidas e adoradas. Essas histórias já foram apresentadas em radionovelas e seriados que são lembrados até os dias de hoje.

A importância de Lobato, contudo, é ainda mais significativa, principalmente se pensarmos que era um grande crítico da valorização da arte estrangeira e lutava pela exploração do petróleo e a produção de aço em uma época recheada de crises políticas e econômicas.

Além disso, Lobato também era um homem ativo na política brasileira, apesar de nunca concorrer a cargo algum, e teve problemas com o governo de Getúlio Vargas, que chegou a proibir a circulação do livro “O Escândalo do Petróleo” (1936). O escritor ainda criticou o governo através de cartas e acabou sendo condenado a seis meses de prisão, conseguindo reduzir a pena para apenas três meses.

Mesmo após sair da prisão, a vida de Lobato continuou movimentada e sempre recheada de publicações a todos os públicos. Entre suas principais obras, destacam-se “Reinações de Narizinho”, “Caçadas de Pedrinho”, “Memórias da Emília”, “O Picapau Amarelo”, “Os Doze Trabalhos de Hércules”, “Jeca Tatuzinho”, “Negrinha” e “O Presidente Negro”, sua única ficção científica.

Se atrair a atenção de uma criança é difícil, falar sobre a vida e obra de Monteiro Lobato também pode ser visto dessa forma, tanto que seu grande amigo e principal biógrafo, Edgard Cavalheiro, precisou de dois volumes de novecentas páginas para tratar com maestria sobre tudo o que Lobato representa ao Brasil. O que se sabe é que o escritor, que faleceu em 04 de julho de 1948, dois dias após sua última entrevista, estará sempre nos corações dos brasileiros, porque acima de tudo é um Imortal da Literatura!



“- Ler! E para que serve ler? Se o homem é a mais boba de todas as criaturas, de que adianta saber ler? Que é ler? Ler é um jeito de saber o que os outros pensaram. Mas que adianta a um bobo saber o que outro bobo pensou?” – Monteiro Lobato em “O Saci”.
Monteiro Lobato - ☆ 18/04/1882 - ✞ 04/07/1948

4 Comentários

  1. Oie
    Adoreii o post e conhecer um pouquinho mais sobre o Monteiro Lobato.

    Beijos

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  2. Oi Ricardo!!! Eu amo essa tua coluna, é tão bom saber mais sobre esses autores maravilhosos!
    E Monteiro Lobato realmente estará sempre presente nos corações de todos e sem dúvida alguma é um imortal da literatura. Gostei muito de saber sobre a vida dele, sabia que ele tinha sido preso, mas não sabia o motivo, obrigada por me esclarecer hehehe

    Um beijão
    Lara - Magia Literária
    http://www.magialiteraria.com/

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  3. Olá Ricardo,

    Essa coluna é ótima, sempre nos ensinando, bom conhecer mais dos autores, ainda mais esse grande gênio....muito bom...parabéns....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  4. Nossa, adorei a postagem!! Não tinha ideia dessas coisas sobre o Monteiro Lobato, só conhecia suas obras de O sítio do pica-pau amarelo, nunca ia imaginar que ele tinha escrito até ficção científica!

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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