O Vendedor de Armas, Hugh Laurie, tradução de Cassius Medauar, 2ª edição, São Paulo-SP:
Planeta, 2014, 288 páginas.
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Ao receber uma proposta para assassinar um empresário norte-americano, o ex-militar de elite Thomas Lang resolve fazer uma boa ação e alertar o empresário de que ele pode estar correndo risco de vida. Mas as coisas não saem exatamente como o planejado. Lang então se envolve em uma grande confusão mundial e precisa mais do que salvar uma linda mulher que entrou em sua vida. Ele precisa salvar a si mesmo e evitar ao máximo que o jogo de interesses em que se meteu interfira em seus objetivos maiores.

“E por que, acima de tudo, havia uma foto de Sarah Woolf colada na parte de dentro da porta da minha mente, de modo que cada vez que eu a abria para pensar em algo – televisão à tarde, fumar um cigarro escondido no banheiro no fim do corredor ou coçar o meu dedão -, lá estava ela, sorrindo e brava comigo ao mesmo tempo? Bem, pela centésima vez, essa era a mulher pela qual eu definitivamente não estava apaixonado” (pág. 69).
Alguns músicos se arriscam como escritores e às vezes conseguem repetir o sucesso. Alguns atores fazem o mesmo caminho e são, por isso, reconhecidos. Mas raramente um artista consegue o que Hugh Laurie faz com uma facilidade impressionante: cantar de forma irrefutável, ser um gigante em cena e escrever uma narrativa envolvente e de grande qualidade.

O Vendedor de Armas é o primeiro romance desse inglês multitalento e apesar de um enredo complexo, é possível afirmar que é uma pena Laurie ter escrito apenas dois romances até hoje. Ainda que superficialmente, esse livro trata muito mais do que apenas a espionagem e o jogo de interesses. Ele tem como ponto forte o lado político e até mesmo a clara diferença entre as culturas de determinados países.

Para mostrar o mercado e principalmente suas consequências, Hugh Laurie se utiliza de um personagem muito bem trabalhado e que tem muito que passar. Como se sabe, ele é conhecido por interpretar Gregory House, um inesquecível personagem da TV norte-americana, e Thomas Lang possui muitas das características de House. Contudo, não é possível dizer que Lang foi influenciado, já que surgiu oito anos antes do que o médico, mas esse certamente tem um pouco do ex-militar de elite sarcástico e muitas vezes complicado que encontramos na obra. Ou seja, Lang é muito mais especial!

O grande problema de Thomas é a sua insistência, quase que irritante, de devanear sobre tudo que se pode imaginar e nos piores momentos possíveis. Se por um lado os devaneios proporcionam ótimas reflexões e a chance de o leitor conhecê-lo um pouco melhor, por outro torna a narrativa mais lenta, quando na verdade queremos a ação e os conflitos que cercam o protagonista.

Um fato interessante é que O Vendedor de Armas foi publicado originalmente em 1996, portanto antes dos atentados de 11 de setembro e depois do fim da chamada Guerra Fria. Esse não é o foco do livro, muito pelo contrário, mas acaba sendo muito bacana rever esse período de transição e que foi responsável por intensas mudanças políticas, econômicas, tecnológicas e sociais. Fato é que o mundo mudou radicalmente em tão pouco tempo.

As já citadas reflexões de Lang podem tornar tudo um tanto mais confuso, contudo ele passa por maus bocados e todas as encrencas, por mais estranhas que possam parecer, certamente envolvem o leitor em sua caminhada ao fim dessa aventura imprevisível. Em uma ótima edição e com um humor incomparável, O Vendedor de Armas é a confirmação de que seu autor é um artista único e por isso é impossível não admirá-lo.

“Morte e desastre estão sobre nossos ombros a cada segundo de nossas vidas, tentando nos acertar. A maior parte do tempo eles erram. Muitos quilômetros sem uma colisão central. Muitos vírus passam por nosso corpo sem nos atacar. Muitos pianos caem um minuto depois de você ter passado. Ou um mês depois, não faz diferença” (pág. 150).

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