Reconstruindo Amelia, Kimberly McCreight, tradução de Carolina Alfaro, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2014, 352 páginas.
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Dedicando grande parte de seu tempo ao trabalho, a advogada Kate Baron sempre imaginou conhecer profundamente a filha que tanto amava. Apesar de ter seus próprios segredos, ela não imaginava que isso acontecesse também com a filha. Pelo menos até receber a notícia de que Amelia havia cometido suicídio pulando do telhado do colégio em que estudava.

A mãe ainda está em choque quando recebe uma misteriosa mensagem dizendo que a jovem não cometeu suicídio. Surge a suspeita de que ela pode ter sido assassinada, por isso Kate decide voltar ao passado e procurar mais informações sobre a filha. No entanto, mais do que a verdade, Kate Baron vai descobrir uma Amelia que até então desconhecia.

“Kate devia sair correndo. Tinha certeza disso. Precisava ir para bem longe dali, onde ninguém pudesse lhe contar nada. Em vez disso, estava afundando, deixando-se escorregar até a calçada fria e dura. Ficou ali sentada, abraçando os joelhos, a boca pressionada contra eles como se estivesse se preparando para um pouso forçado.
Corra, dizia a si mesma. Corra. Mas era tarde demais” (pág. 25).
À primeira vista, o livro de Kimberly McCreight retrata uma realidade diferente da nossa, já que tem como cenário a cidade de Nova York e os clubes, comuns em escolas norte-americanas, que são raros no ambiente escolar brasileiro. Mas, na verdade, encontramos temas do cotidiano, como família, problemas com amizades – e inimizades -, segredos entre mãe e filha, primeiro amor e até a descoberta da própria sexualidade.

Para unir tantos assuntos, cercados muitas vezes por polêmicas e tabus, McCreight se aproveita de uma estrutura bem particular. Em um thriller de suspense familiar, o leitor acompanha não apenas a mãe, em sua investigação que visa à reconstrução do passado da filha, mas também a própria filha, que narra em 1ª pessoa os seus últimos dias de vida.

Se não bastasse tal estrutura, que intercala capítulos de mãe e filha, em duas escritas diferentes e que se casam perfeitamente, a autora usa também páginas de um blog muito suspeito, publicações no Facebook, troca de mensagens e páginas de um diário. A intenção é claramente tornar o leitor íntimo de Amelia para que, com tantas informações, crie suas próprias teorias.

O mais marcante, porém, é acompanhar Amelia em seu dia a dia. Diferente dos livros próprios para adolescentes, Reconstruindo Amelia não passa apenas a ideia de que a escola é um cenário para se viver sonhos. A protagonista é a prova de que muitos pesadelos podem acontecer, e a falta de um apoio, seja familiar/educacional ou não, pode tornar tudo mais complicado – para não dizer assustador.

Conforme o leitor acompanha a angústia de uma adolescente, perdida em seu próprio mundo, e de uma mãe angustiada por não ter respostas, os segredos de ambas são revelados de maneira objetiva. O interessante é ter motivos para acreditar tanto no suicídio como em um possível assassinato, restando a opção de se escolher a teoria que mais faça sentido. E são inúmeras teorias assim.

Utilizando a vida e obra da escritora britânica Virginia Woolf em várias oportunidades, Kimberly McCreight apresenta uma obra de estreia com qualidade impecável, um mistério que pode ser considerado convincente e uma linguagem viciante. Não é o tipo de thriller comum, porém possui certo toque de sensibilidade que faz total diferença.

Se não é perfeito, se deve ao fato de suspeitar de parte da verdade faltando ainda cerca de cinquenta páginas, mesmo que a autora mostre definitivamente apenas no final. Ainda assim, a torcida que fica é para que Nicole Kidman faça um bom trabalho ao produzir e estrelar a adaptação da obra para a televisão.

“Eu já nem tinha mais certeza do que eu sabia. Estava furiosa porque minha mãe não me perguntava o que eu tinha, mas, agora que perguntara, eu não queria lhe contar. Afinal, o que ela poderia fazer para resolver a situação? Nada. Qualquer coisa que fizesse só pioraria. Disso eu tinha certeza. Só sentia vontade de chorar. Sozinha” (pág. 259).

Um Comentário

  1. Ricardo eu terminei de ler esse livro faz uns dois dias e caramba, que livro!
    Eu amei, achei a escrita da autora ótima, me fez devorar o livro, hehe, e tens razão quando falaste que temos motivos para acreditar que foi sim um suicídio, do mesmo modo que o assassinato parece obvio. Pra mim foi uma leitura perfeita, hehe.

    Beijos
    Lara - Magia Literária

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