Não é apenas a língua que aproxima a literatura brasileira e a portuguesa. Como nos é ensinado desde os primeiros anos escolares, Brasil e Portugal caminharam juntos nos últimos cinco séculos, não por menos alguns escritores da mãe-pátria influenciaram diretamente a criação literária no Brasil.

Durante quase três séculos, o Brasil foi uma colônia de Portugal e por mais algum tempo continuou sendo liderado por membros da família real portuguesa. Os costumes dos dois países eram próximos, o que influenciou a cultura e a arte brasileira, já que era fácil criar histórias em que os dois povos se identificavam. Aí surge a importante figura do escritor português Eça de Queirós.

Natural de Póvoa de Varzim, litoral norte de Portugal, José Maria de Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845. Muito provavelmente por influência da avó materna, que era contra a união, seus pais se casaram apenas quando Eça completou quatro anos, apesar do pai ser um homem respeitado por intelectuais e políticos da época.

Por algum tempo, ficou aos cuidados de uma ama, antes de se mudar para a casa de sua avó paterna e posteriormente a um colégio, onde permaneceu até os seus dezesseis anos. Já com essa idade, estudou Direito na Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo, e teve seus primeiros textos publicados na Gazeta de Portugal.

Logo após concluir a faculdade de Direito, Eça de Queirós se mudou para Lisboa, onde exerceu a advocacia e contribuiu como jornalista para importantes jornais. Poucos anos foram necessários para que acontecesse a sua primeira publicação literária, que não apenas marcou sua carreira, como também a própria literatura portuguesa. O romance “O Mistério da Estrada de Sintra” (1870), escrito em parceria com Ramalho Ortigão e publicado através de cartas anônimas no Diário de Notícias de Lisboa, é considerado o primeiro trabalho policial da literatura portuguesa.

Após essa primeira publicação, chegou a trabalhar na administração pública e também como diplomata, sendo o cônsul de Portugal em Havana e também em duas cidades inglesas. Durante esse período, sua carreira se tornou ainda mais produtiva e assim surgiu um dos mais importantes trabalhos de sua autoria: o polêmico “O Crime do Padre Amaro” (1875).

Adaptado ao cinema em duas oportunidades (2002 e 2005), “O Crime do Padre Amaro” marcou o início do Realismo em Portugal. Além de criticar de forma clara e objetiva a sociedade de seu país, apesar de sempre declarar amor ao mesmo, Eça de Queirós tocou em temas polêmicos da Igreja Católica, o que causou acusações e protestos por parte da instituição religiosa.

Foi exatamente com essa obra que a história de Eça de Queirós se cruzou com a de Machado de Assis. Isso porque Machado fez duras críticas ao livro, acusando seu autor de plagiar uma obra do francês Émile Zola. Segundo especialistas, a crítica do brasileiro foi motivada pela falta de comentários sobre um dos seus lançamentos, enquanto a imprensa brasileira dava grande destaque a “O Primo Basílio” (1878), que estava apenas chegando ao Brasil.

Assim como “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio” também ganhou adaptações, tanto ao cinema como para a televisão, e voltou a fazer críticas, dessa vez aos burgueses e a relação das principais famílias de Lisboa com o casamento, se aproveitando da figura de Luísa, uma mulher que tem um caso com seu primo, Basílio, nos períodos de ausência de seu marido.

Como os dois trabalhos de Eça de Queirós são representantes do Realismo, a escola literária volta a unir o escritor português com Machado de Assis. Com as mesmas teorias de outras expressões artísticas, o Realismo na literatura surgiu para quebrar as barreiras criadas pelo Romantismo e apresentar o homem em toda a sua essência, usando para isso críticas aos costumes de uma sociedade. O Realismo também está presente na obra machadiana, principalmente na chamada Trilogia Realista, publicada por ele entre 1881 e 1899.

A influência de Eça de Queirós na obra do maior escritor brasileiro de todos os tempos apenas mostra a sua importância e a relação entre a literatura dos dois países. O escritor português, contudo, escreveu uma infinidade de outras importantes obras, como “Os Maias” (1888), “A Ilustre Casa de Ramires” (1900) e “A Cidade e as Serras”, publicado postumamente em 1901.

Aos quarenta anos, o já consagrado escritor se casou com Emilia de Castro, que fazia parte da aristocracia portuguesa, com quem teve quatro filhos. Nos últimos anos de vida, morou em Paris, exercendo a função de cônsul de Portugal na França, e faleceu na cidade luz no dia 16 de agosto de 1900, após enfrentar vários problemas de saúde.

Após a sua morte, mais de dez obras inéditas foram publicadas, incluindo algumas de suas correspondências, provando que Eça de Queirós não era simplesmente um escritor diferenciado. Como Imortal da Literatura, e principal nome da prosa em Portugal, o escritor era extremamente ativo e capacitado, por isso também tão adorado.

“Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa” – Eça de Queirós em “O Primo Basílio”.
Eça de Queirós - ☆ 25/11/1845 - ✞ 16/08/1900

Um Comentário

  1. Oiee
    Muito bom conhecer um pouco mais do autor.
    Já li alguns livros dele e curti.
    Beijos

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