Se Eu Ficar, Gayle Forman, tradução de Amanda Moura, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP:
Novo Conceito, 2014, 224 páginas.
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Tudo dava a entender que seria mais uma manhã normal para Mia e sua família, apesar de a neve impedir que a população tivesse um dia como outro qualquer. Durante um passeio de carro, tudo muda radicalmente e Mia se lembra apenas da música que conseguiu ouvir após o acidente.

Depois disso e de suas consequências, a jovem musicista vê seu corpo sendo retirado dos destroços e assiste todo o esforço dos médicos para salvar a sua vida. Enquanto seus amigos e parentes esperam por notícias, e seu namorado tenta ficar ao seu lado, Mia precisa refletir e fazer uma difícil escolha.

“O helicóptero atinge um bolsão de ar e é óbvio que eu deveria me sentir enjoada. Mas não sinto nada. Pelo menos este eu, que é um espectador, não sente nada. E o eu que está aqui, deitado na maca, parece que também não. Mais uma vez, preciso me perguntar se estou morta e respondo a mim mesma que não. Não teriam me colocado neste helicóptero e não sobrevoariam as florestas comigo se eu estivesse morta” (pág. 29).
A vida, de um modo geral, é um verdadeiro mistério, mas outros dois temas podem ser considerados da mesma forma: a morte e o coma. Justamente pelo mistério que cerca essas duas experiências, elas são utilizadas na ficção muito frequentemente, então esperar algo inovador em Se Eu Ficar é um erro, ainda que se trate de uma obra especial.

A originalidade do grande best-seller de Gayle Forman está no fato de a protagonista não ter relação com qualquer pessoa – em vida ou em uma situação semelhante -, e ser a única responsável por sua sobrevivência. Além disso, a autora trata assuntos familiares com uma delicadeza tão incomum e com o mesmo cuidado que a amizade e o amor são tratados: sutilmente.

Os assuntos são relativamente comuns, por isso o mínimo que pode acontecer é a utilização de um estilo narrativo e de uma estrutura diferente. O presente, na obra, se passa em apenas 24 horas e a história acabaria se tornando maçante se o foco fosse apenas o que acontece após o acidente, por isso os flashbacks são de extrema importância. Eles dividem o sentimento do leitor, da mesma forma que é perceptível a divisão interior da narradora-personagem através de suas palavras.

Se ao narrar a luta pela sobrevivência, enquanto seu corpo está em coma, as palavras de Mia são angustiantes e carregam uma grande carga de tristeza, isso não acontece quando ela volta ao passado. Os flashbacks são marcados por divertidas situações e pela rotina normal de uma adolescente com problemas, mas que ainda assim leva uma vida feliz ao lado de sua família, dos amigos, do namorado e da música, uma arte que tanto ama.

O ponto forte do primeiro livro da duologia, no entanto, não está na relação entre a vida e a morte, muito menos nos dramas familiares capazes de moldar a personalidade de cada um de nós. Aparentemente, a principal intenção de Forman, e que torna possíveis sorrisos e olhos marejados, é mostrar que somos responsáveis por nossas próprias vidas e, consequentemente, nossas escolhas mudam a visão que temos sobre tudo ao nosso redor, sendo capaz inclusive de causar mudanças em terceiros.

Em uma bela edição, com direito a entrevista exclusiva com os atores da futura adaptação para o cinema, Se Eu Ficar tem o poder de unir as artes, ou seja, transformar a experiência de leitura ainda mais agradável ao ter a música como um elemento fundamental e não apenas como uma trilha sonora relacionada à trama.

Da música clássica ao punk rock, passando por Ramones e Nirvana, Gayle Forman dá uma identidade muito própria aos personagens, por isso, caso permaneça, o filme tem tudo para ser marcante – assim como a continuação, “Para Onde Ela Foi” (lançamento nacional em 06 de outubro), apesar de não ter ideia de como ela foi trabalhada.

“E aqui está ele, ao pé da minha cama, esticando a mão para me tocar. Está quase conseguindo. De repente, me lembro do nosso primeiro beijo depois do concerto do Yo-Yo Ma, e de que eu não tinha me dado conta do quanto desejava os seus lábios nos meus, coisa que só aconteceu quando estávamos bem pertinho, quase nos beijando. Não tinha me dado conta do quanto desejava o seu toque, até este exato momento em que quase posso senti-lo me tocar” (pág. 122).

10 Comentários

  1. Oi Ricardo :)

    Bela resenha, como sempre.

    Não sou muito fã dessas histórias que envolvem sentimentos angustiantes assim.

    É um livro que não chamaria minha atenção por esse motivo, esse tipo de história costuma ficar por muito tempo mexendo com minhas emoções...

    Beijos

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  2. Nossaaaaa, a cada resenha que eu leio desse livro fico mais apaixonada por ele, eu estou com a obra em mãos só está faltando o tempo para poder ler, amei o quotes que você separou, e arrasou na resenha parabéns.

    Giih- Você é o que lê

    http://voceeoquele.blogspot.com.br/2014/08/caixinha-de-correio-maio-junho-e-julho.html

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  3. Oi Ricardo,
    Brilhante resenha! Eu tive uma opinião semelhante a sua. Não é um livro que tenha um grande diferencial, mas aborda de uma maneira sutil as escolhas que fazemos em nossa vida. Ao pegá-lo e mesmo quando vi o trailer eu não entendia o porquê da indecisão dela. Se ela for embora não vai trazer os pais de voltas e ainda vai abandonar o namorado e os avós. Mas depois de ler os flashbacks, nós percebemos como Mia tem uma relação próxima dos pais e do irmão e o quanto a falta deles vai impactar sua vida se ela decidisse ficar.
    Espero pelo Para Onde Ela Foi sem muitas expectativas, já que é a mesma história do ponto de vista do Adam :)

    Beijos,
    Mari Siqueira
    Love Lovers Blog

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    1. Olá, Mariana.
      Fico feliz em saber que você tem uma opinião semelhante, não apenas sobre a história de "Se Eu Ficar", mas também do segundo livro. Eu não sabia que o ele é narrado pelo Adam e isso diminuiu um pouco a expectativa. Só espero que seja legal. :)

      Beijos!

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  4. oi^^
    Nossa... eu preciso dizer que depois de ler o seu texto eu quero muito esse livro! Acho que sempre tem um momento da nossa vida que tudo parece difícil (apesar de não ser uma questão de vida ou morte como a que a personagem enfrenta, mas as vezes parece que não temos controle sobre as nossas vidas, o que está totalmente errado. Nós temos o controle, e nossas escolhas tem consequencias. Adorei de verdade e vai para minha lista de desejados no skoob!

    tem postagem nova no meu blog
    espero sua visita
    bjinhus

    Hey Dudi!
    http://dudikobayashi.blogspot.com.br/

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  5. Olá Ricardo,

    Terminei de ler esse livro ontem, confesso que esperava muito mais, gostei e a mensagem é excelente, mas não traz a emoção que eu espera, tem livros muito mais emocionantes que esse, acho que o filme vai ser melhor infelizmente, a narrativa não trouxe a emoção que a história merecia, lutar sempre, desistir jamais, mas a nossa ida esta nas mão de Deus e a escolha não é nossa, parabéns pela resenha.....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  6. Olá Ricardo,

    Queria muito ler a resenha deste livro. Primeiramente uma surpresa, não sabia que era uma trilogia o.O
    Na verdade, pouco conhecia sobre a história e verdadeiramente me parece uma história que traz bons momentos ao leitor.
    Algo além da história me chamou bastante atenção, a questão da música que você falou, não fazia ideia nenhuma sobre isso, é um elemento a mais para que eu queira ler o livro ainda mais.

    Espero que isso ocorra o mais rápido possível.

    Até mais!

    Jônatas Amaral
    alma-critica.blogspot.com.br

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    1. De fato, Jônatas, a experiência de leitura reserva ótimos momentos aos leitores! Se não pelo enredo, por essa questão musical. Cada vez que bandas que gosto eram citadas eu passava a gostar um pouco mais. rsrs

      Espero que você leia o quanto antes e que aproveite ao máximo.
      Abraços!

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  7. Oi Ricardo eu li este livro anos atrás e gostei muito, um dos meus preferidos. Espero que o filme transmita as emoções que eu senti ao longo da leitura.
    Bjs Rose

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  8. Oi Rick,
    Se eu Ficar não traz uma história original, mas realmente há algo muito especial nela e eu acredito ser a sonoridade da música e a delicadeza da narrativa, essas duas coisas tornam a história encantadora e especial...

    xoxo
    Mila F.

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