Nosferatu, Joe Hill, tradução de Fernanda Abreu, ilustrações de Gabriel Rodríguez, 1ª edição, São Paulo-SP: Arqueiro, 2014, 624 páginas.
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O dom de Victoria McQueen lhe permite utilizar sua bicicleta para chegar a qualquer lugar do mundo apenas atravessando uma misteriosa ponte. A exemplo de Vic, Charles Manx também tem um misterioso dom: através de um raro Rolls-Royce, ele leva crianças maltratadas por seus pais para a chamada Terra do Natal. O lugar que deveria ser mágico, por viver um eterno clima natalino, na verdade é capaz de tornar qualquer criança assustadora.

No dia em que os destinos de Vic e Manx se encontram, ela consegue algo que nenhuma outra criança foi capaz: escapar das mãos desse misterioso homem. O tempo passa, e após permanecer preso durante anos, Manx está disposto a se vingar da mulher que enfrentou uma infinidade de problemas ao longo dos anos. E ele não vai descansar enquanto não atingir o ponto fraco de Victoria McQueen...

“Menos de uma criança em um milhão tinha permissão para entrar na Terra do Natal, e só chegavam até lá as que realmente precisavam. Era impossível ser infeliz lá, naquele lugar em que todas as manhãs eram a manhã de Natal e todas as noites eram a véspera do Natal, onde chorar era contra a lei e crianças voavam como anjos. Ou flutuavam. Wayne não sabia muito bem qual era a diferença” (pág. 371).
A falta de experiências com o terror na literatura sempre me levou a acreditar que, ao menos na teoria, a ideia do gênero era similar ao cinema. A genialidade de Nosferatu, bem como a incrível criatividade de seu autor, mostram exatamente o contrário. Um livro de terror não precisa deixar o leitor com o coração na mão quando situações sinistras são suficientes para envolvê-lo.

Nosferatu é o tipo de livro em que gostar não significa necessariamente encontrar palavras para descrevê-lo. Além de longo, é um livro no mínimo complexo e que necessita de uma série de explicações antes de realmente mostrar o seu objetivo. Diferente de outros casos, em que isso também acontece, as mais de duzentas páginas introdutórias apenas aumentam a expectativa por aquilo que ainda será encontrado.

O estilo de Joe Hill também torna a obra especial, seja por descrever de maneira crua e extremamente realista, ou por estruturar sua obra de tal forma que surge sempre uma nova surpresa, independente se a personagem em cena é algum dos protagonistas ou qualquer personagem secundária. Isso pode até impedir uma leitura extremamente rápida, mas de forma alguma ela se torna cansativa.

Outro ponto muito positivo do trabalho de Hill está na caracterização de suas personagens, o que também explica a demora em realmente apresentar a essência da obra. O autor se foca muito no crescimento de Vic McQueen, revelando todas as nuances de sua personalidade e a deixando o mais real possível - por mais que seja anormal, vivenciado situações anormais. O mesmo acontece com Charles Manx, o mais completo entre todas as personagens e que certamente jamais será esquecido por leitores. Seja por bem ou não.

Em determinado momento, a ausência de cenas aterrorizantes é recompensada por muita ação e a incerteza do desfecho da obra. O autor não dá pistas de até onde sua imaginação, guiada por um inconfundível Rolls-Royce, pode chegar, por isso nos capítulos finais cada novo detalhe representa, senão uma reviravolta, um novo ápice do talento de um autor que precisou de apenas um livro, e suas 624 páginas, para conquistar um novo fã.

Com uma narrativa inconfundível, repleta de sarcasmos e metáforas, Nosferatu é capaz de mudar radicalmente a visão do leitor sobre canções e enfeites natalinos. Leitor esse que pode ter dúvidas sobre desejar ou não visitar a Terra do Natal. Crianças também passam a ser vistas de outro modo, porque tudo possui contornos sinistros que podem ser reais ou frutos de uma fantasia sem igual. Até mesmo as ilustrações de Gabriel Rodríguez parecem casar perfeitamente com a ideia de Hill: viajar pelos limites da imaginação sem se preocupar com absolutamente nada.

“O médico dissera que Carmody estava deitado no meio da estrada esperando ser atropelado, mas era pior do que isso: ele estava andando pelo meio da rua na direção do tráfego. Porque havia alguma coisa naquela casa de que ele precisava. Aliás, de que Wayne precisava. Algo importante o suficiente para que todas as outras considerações fossem postas de lado, inclusive a sobrevivência do próprio Lou” (pág. 531).

2 Comentários

  1. Verdade, Rick! Em livros de terror, não são necessários banhos de sangue, nem tripas sendo jogadas, etc. Basta ter aquela atmosfera de medo, tensão e incerteza durante as cenas (se bem que um pouco de sangue não faz mal a ninguém né?!?! Só pra vítima mesmo! kkkkk). Só posso dizer que, depois dessa resenha, vou passar a olhar o Natal com outros olhos.

    @_Dom_Dom

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  2. Oi Ricardo.
    É um livro que olhei a sinopse no submarino o que fez encantar meus olhos,mas não li nada do autor por isso a insegurança. Sou fã de romances coisas que adoro só que em alguns momentos preciso de um livro que me leve a lugares inimagináveis como no caso de Nosferatu, adorei demais a sua resenha de modo que estou roendo as unhas.

    http://romances-para-te-fazer-feliz.blogspot.com.br/

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