Sou uma pessoa bem racional quando escrevo tanto na forma artística quanto na acadêmica. Mas confesso que quando faço um conto que até eu mesmo não gostei, por exemplo, já penso “xi... esse não vai ser aprovado”. E com este artigo que vocês estão lendo, o meu palpite é: ou eu vou receber uma porrada de comentários do tipo “eu amo Machado e Clarice” ou “você está errado” ou coisas do tipo sem nem ao menos o pessoal levar em consideração todo o texto que estou produzindo.

A minha experiência de vida como professor, escritor, leitor assíduo e freqüentador de eventos literários me dá um pouco de base para falar isso. Em uma Bienal do Livro em que a presença da Cassandra Claire faz adolescentes passarem mal e esse mesmo público já torce o nariz quando aquele professor de literatura carrega aquele exemplar de “Dom Casmurro” para dentro da sala de aula faz com que eu traga essa questão para vocês: quantos livros nacionais vocês leram esse ano? E quantos estrangeiros (não estou falando só de autores americanos. Falo de qualquer autor que não nasceu entre o Oiapoque e o Chuí)? Gostaram? Lembram os títulos e os autores?

O que eu quero aqui não é levantar uma bandeira do complexo de vira-lata. O grande Ricardo Biazotto me dá oportunidade de expor o que penso através de estudos e vivência de vida. E eu aproveito essa chance para trazer a vocês um artigo que vocês possam ler e pensar.

Então, vamos aos fatores.

Falta de costume com a leitura geral: temos que aceitar que não somos um povo que lê. Fato. Compramos um celular e queremos mexer nele em vez de ler o manual assim como acreditamos que cozinhar está no próprio nome do prato e não na receita (é por essas e outras que muitas pessoas não colocam vinagre na água e a casca do ovo racha antes de cozinhar). Não temos tempo para ler. A prática, a vivência e o William Bonner nos dizendo as notícias do dia são os nossos melhores “livros”.

Falta de costume em apreciar o trabalho nacional: calçamos Nike, usamos camisetas da Hollister, usamos bonés da Oakley e assistimos aos filmes americanos ou lemos mangás. Conclusão: se somos bombardeados por produções internacionais o tempo todo em tantas formas de arte, com livros não somos exceção. Consideramos o trabalho nacional como algo de segunda linha ou algo que quando é bom, “nem parece que é brasileiro”.

Isso é válido em qualquer outra mídia. Não vou perder tempo falando de seriados nacionais sobre zumbis, quadrinhos brasileiros sobre equipes sentai ou literatura erótica dos nossos conterrâneos (se você não sabia que temos tudo isso e se interessou, é melhor procurar por conta própria). Porém saiba você, meu caro leitor, que antes de J.K. Rowling criar um certo menino bruxo por aí, o Brasil já tinha seus autores infanto juvenis e (espero que) continuaremos tendo. Somos 190 milhões de habitantes atualmente. Então pode ter certeza: temos autores infantis, infanto juvenis, produtores de material young adult ou new adult, policial, romântico, erótico e clássicos. Só não temos a força do marketing para divulgarmos esses autores.
Quem tem boca, fala o que quer.
Falta de costume das editoras em apoiar os trabalhos nacionais: o que compensa mais para o editor: ter um livro escrito por um cara novo depois de um ano, contudo se disponha a ir todos os dias para a Bienal divulgar o seu trabalho ou por um autor estrangeiro com críticas de jornais como o BBC News ou New York Times que já o escreveu, já fez uma capa, já é popular e só precisa de uma tradução, revisão e diagramação?

O sonho de todo autor é ser publicado por uma editora grande, ter o seu estande na Bienal, ser entrevistado pelo Jô Soares e ser reconhecido pelo seu trabalho (deixe de lado o seu comunismo. Sei que você adoraria ser entrevistado pelo Jô). No entanto sejamos realistas: um editor paga funcionários e suas próprias contas com vendas de livros. Eles não têm dever de ajudar novatos sem especialização. E é justamente por muita gente sem estudo por aí contaminar as livrarias com os seus trabalhos de má qualidade que nas salas de aula, o professor não tem um “Jogos Vorazes brasileiro” para poder debater com os estudantes.

Só é apresentado na escola como dever/ não é levado a sério/ não há reformulação nas práticas da leitura: se o aluno chegou até o colegial sem precisar ler nenhum livro, não há “Iracema” no mundo que o fará mudar de ideia. Se o sujeito lê livros infanto juvenis na idade adequada e começa pelos contos de Mario de Andrade, é mais fácil ele poder ler “Macunaíma” para o vestibular. Não adianta acreditar que “o leitor de Harry Potter de hoje é o leitor de O Primo Basílio de amanhã” porque a literatura young adult só deixa o estudante nela mesma pelo seu conteúdo mastigado e comum de “chosen ones” ou garotas desejadas pelos vampiros pirilampos.
Quem tem boca, fala o que quer. (2)
Falta de contexto da vida do autor / da época em que ele viveu: quando era estudante de escola pública, tentei várias vezes ler “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. E por que não consegui? Por não entender o movimento literário. Da mesma forma são poucos que podem entender a poesia melancólica de Manuel Bandeira ou as fases da vida de Carlos Drummond (e talvez em revolta, resolvam pichar a estátua dele no Rio de Janeiro...).

Com tanta coisa a ser entendida, não é a toa que muitos deem preferência ao young adult que já vem sem movimento nenhum e é o livro por si só...

Falta de proximidade do escritor com o público: o escritor nacional viveu anos vendo o que é a profissão no exterior. O glamour, o reconhecimento e a badalação. E quando lança algo aqui no Brasil, o que ele faz: se acha a oitava maravilha do mundo, acredita que não possa ir a amostras culturais das escolas para falar de seus livros ou que vender os seus trabalhos mesmo em uma Bienal “é coisa do departamento do marketing”. Aí como fica para o estudante: acreditar que os escritores nacionais ou são esnobes ou já morreram. E essa aproximação faz toda a diferença: incentiva a leitura, ajuda a ter contato com a obra e saber coisas que tornem o material mais agradável.

Falta de vontade do estudante em procurar entender o que é produzido: até agora eu coloquei a culpa no mercado editorial, nas grades de ensino e em nossos paradigmas culturais. De qualquer forma sejamos francos: alunos não são santos. De tanto ouvirem frases como “você tem que fazer aquilo que gosta” eles acabam fazendo o que melhor uma pessoa sem instrução pode fazer: nada. O clássico “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” no fim só cria mais apertadores de botões e eleitores do Tiririca como tanto vemos por aí.
Qual autor você acha que os jovens preferem?
Paradigma social: vivemos no globalizado século XXI onde o importante são os últimos 10 anos (ou até menos). A moda é a tendência e viver em sociedade é agir como todos. Deixamos de lado esses velhos em fotos preto-e-branco, esses livros chatos que não têm versões em filme e vivemos com essas obras rasas, nos considerando especialistas em mitologia só por lermos “Percy Jackson”. O que importa é o novo e o que podemos socializar. Se meus vizinhos leem “A Culpa é das Estrelas”, eu não posso falar com ele sobre “O Seminarista”.

Quem não gosta desse paradigma, por favor, mude-o.

Sem mais.

Sobre o Autor
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.

Contato: davi_paiv@hotmail.com.

2 Comentários

  1. Uau! Que texto!
    Bem, eu preciso dizer que eu sempre gostei de ler, desde muito pequena, por incentivo do meu pai. Na época de colégio quando um professor indicava um livro era uma reclamação geral da turma, mas eu gostava. Lembro de que li Dom Casmurro para o colégio, e apesar do começo que foi um tanto quanto desgastante, logo me vi apaixonada e defensora de Capitu. O mesmo não aconteceu com todos os meus colegas. Contudo, algumas outras obras foram extremamente difíceis para mim, tanto a escrita quanto o contexto eram muito complicados de se entender e de gostar... Eu acho sim que as escolas precisam incentivar mas é preciso uma "introdução", estimular desde pequenos, com materiais condizentes a fase e a capacidade da criança, e utilizar autores nacionais para isso é muito válido. Infelizmente o ato de ler ainda parece surpreender muitas pessoas, lembro-me de assistir a uma tese de mestrado de uma aluna de letras que fez um estudo focal com algumas meninas do colégio onde lecionava, porque se surpreendeu ao ver meninas lendo por escolha própria no intervalo a saga Crepúsculo. Ela tentava descobrir o que no enredo atraia tantas meninas para o mundo literário....
    Eu li muitos livros desde o começo do ano, mas não preciso nem pensar muito para ter certeza que a quantidade de autores estrangeiros supera o nacional. Mas eu não acho que isso se dê por uma qualidade inferior ou uma desvalorização dos escritores daqui. Eu acho que é uma série de fatores que desfavorece os escritores nacionais. Se você parar para pensar lá fora eles tem faculdades e cursos sobre escrita criativa entre outras coisas que não temos aqui. Aqui não há essa profissionalização. Além disso, no Brasil você não é escritor, você é jornalista e escritor, professor e escritor, alguma coisa e escritor, isso se você quiser pagar as contas. É muito difícil viver só disso, diferente de como é lá fora. Publica um livro também é difícil se você não tiver dinheiro para começar, sei disso porque tenho uma amiga que publicou e já corri atrás para saber como funciona... E quando você vai comprar um livro de escritores nacionais, eu preciso dizer que quase sempre o preço é superior aos livros de fora. Já deixei de comprar livros de escritores nacionais porque com o valor de um eu comprava dois de escritores lá de fora.
    Acho que uma série de fatores gera esse público desinteressado na leitura. e os poucos que tem esse hábito de fato não dão uma prioridade ao que é produzido aqui. Contudo, eu acredito que isso está mudando aos poucos, mais leitores, mais produções nacionais, maior visibilidade aos escritores. É torcer por mudanças.

    Dudi

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  2. Me esqueci escrevendo um monte! Mas Ricardo, eu indiquei seu blog em um TAG lá no meu! Não precisa responder se não quiser, mas eu achei divertido e como gosto do seu blog indiquei.
    http://dudikobayashi.blogspot.com.br/2014/09/tag-redes-sociais.html

    abraços!

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