Primavera, Oskar Luts, tradução de Paulo Chagas de Souza, ilustrações de Sandra Jávera, São Paulo-SP:
Biruta, 2014, 432 páginas.
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A escola paroquial da zona rural da Estônia reúne muitas crianças com diferentes personalidades, como Arno Tali e sua amiga Teele Raja. Além de conviver com os problemas que atingem essa amizade, Arno e Teele precisam lidar com outros alunos, estudiosos e bagunceiros, e também suportar um sacristão que não tem nada de simpático.

É nesse ambiente, tipicamente do campo, que os alunos dessa escola passam grande parte de seus dias, fazendo novas descobertas, irritando o sacristão, tentando evitar injustiças, estudando e cantando, e aguardando a chegada da estação mais esperada do ano.

“Naquele momento, Teele parecia a ele ter se tornado estranha. Antes pensava secretamente, bem no fundo do coração, que um dia se casaria com a garota, que ela sempre poderia ficar ao lado dele. Agora... ele só dava um sorriso triste ao pensar nisso. Quando os dois iam para casa, em geral ficavam calados. Teele até tentava falar, mas como Arno não respondia nada, ou só respondia monossílabos, ela também se calava” (pág. 75).
Algumas vezes o interesse por uma nova cultura torna impossível ignorar uma obra, afinal, apenas a arte é capaz de nos aproximar de épocas e lugares distantes sem qualquer esforço. Sendo assim, não foi a capa, a sinopse, tampouco o fato de Primavera ser um clássico que chamou a atenção. Representar e apresentar a literatura estoniana foi o ponto motivador para a leitura do livro de Oskar Luts.

O autor, que faleceu em 1953, ainda hoje é um dos mais importantes nomes da literatura estoniana e publicou, em duas partes, seu primeiro e mais famoso livro no início da década de 1910, década em que o mundo e a própria Estônia sofreriam grandes transformações. Se por um lado a Primeira Guerra Mundial intensificou conflitos políticos e econômicos, por outro, a chamada Revolução Russa mudou, ao menos temporariamente, a história da República da Estônia.

Quando o livro Primavera foi publicado, o território estoniano ainda fazia parte da Rússia, por isso a obra possui grandes referências à cultura russa, que acaba sendo de suma importância para a construção da narrativa. Outro detalhe importante é que, diferente da ideia imaginada inicialmente, a história não é simplesmente cultural, mas principalmente social.

A exemplo de outros clássicos da literatura mundial, Primavera tem como ponto forte o convívio entre as personagens, nesse caso os alunos da escola paroquial que é cenário de grande parte da obra. São poucos os acontecimentos que mostram a cultura própria desse povo que precisa se adequar, entre outras coisas, ao inverno rigoroso, por exemplo. No entanto, esses poucos momentos sempre mostram uma diferença significativa se comparados com os nossos costumes.

Talvez o fato de ser uma história social também contribua para a leitura monótona, sobretudo em sua primeira parte. Com isso, é evidente que o melhor é iniciar a leitura sem muitas expectativas, o que resultaria em uma apreciação muito maior, ainda que não seja também totalmente descartável.

O grande número de personagens pode não ajudar a transformar Primavera em algo inesquecível. O garoto Toots, que causa confusão com uma facilidade impressionante, acaba sendo o único a proporcionar bons momentos em todas as suas aparições. Se outras personagens deixam a desejar, ao menos Toots conquista um espaço especial na memória do leitor de Primavera.

Outra boa recordação certamente será a qualidade da edição, que possui ilustrações encantadoras e de uma sutileza quase que incomum. Se a história tem passagens lentas e sem grandes aventuras, causando descontentamento, pelo menos ela possui também uma aproximação de seu leitor com a obra como um todo. Às vezes pela escrita de um observador que se utiliza de traços autobiográficos, outras graças às ilustrações de Sandra Jávera.

“Será que já não dava para sentir no ar o cheiro da primavera? Era quase imperceptível, mas Arno o sentia. Poucos notam o cheiro da primavera, talvez ninguém, mas Arno está sentindo. Ela vem vindo, ela já está aproximando de nós. Venha logo, primavera!” (pág. 262).

3 Comentários

  1. Oi Ricardo!
    Este livro parece muito interessante, principalmente pela questão da cultura estoniana... não é meu estilo favorito de leitura, mas fiquei curiosa pra conhecer!
    Bjus,
    Paty Algayer - Loucuras da Paty

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  2. Fala Ricardo.
    Estava retribuindo sua visita quando me deparei com esse livro.
    Ele realmente me intrigou. Com certeza quero lê-lo.
    É o estilo de leitura que me prende.
    Obrigado pela dica.

    Abraço
    livrofagia.blogspot.com.br

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  3. Oi Ricardo,
    Tenho ouvido sobre esse livro, mas muitos reclamam sobre o ritmo da narrativa ser muito arrastado. Eu tenho um problema sério com isso, especialmente com a extensa lista de livros para ler.. kkk Ler sem expectativas é sempre o melhor remédio.

    Beijos,
    Mari Siqueira
    http://loveloversblog.blogspot.com

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