Pólvora, Tico Santa Cruz, ilustrações de Carlinhos Muller, Caxias do Sul-RS:
Belas-Letras, 2014, 168 páginas.
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Quando a vida é monótona, sair da zona de conforto é questão de tempo, ainda mais se acompanhado de uma mulher incomparável, que está sempre em busca de prazer e do perigo. Ao aceitar acompanhá-la, um bancário está aceitando entrar em uma viagem sem destino. A única certeza é de que o sexo e a morte também estão ao seu lado.

“Ninguém tem o direito de me dizer o que devo ou não fazer com meu corpo ou com minha mente. Já não sou mais adolescente e isso não é uma atitude de rebeldia como pode parecer. Além do mais, se esses políticos podem encher a pança de uísque e relaxar, por que não posso fumar meu beck?” (pág. 46).
O terceiro livro do escritor e músico Tico Santa Cruz, líder da banda Detonautas, chega ao mercado para reconquistar o sucesso de sua publicação original, quando mais de 300 mil leitores conheceram a história publicada na internet. Pólvora, que conta com novas ilustrações de Carlinhos Muller, é a primeira ficção do escritor, no entanto repete a fórmula que deu muito certo nos livros anteriores.

A linguagem direta do escritor, que faz parte inclusive do seu cotidiano, quando comenta assuntos de relevância nas redes sociais, por exemplo, está evidente em uma novela policial de tirar o fôlego. Sua escrita é envolvente, no entanto é a profundidade da história que mais se destaca, ou seja, a maneira como ele consegue apresentar o lado mais sombrio do ser humano.

Por ser narrado em primeira pessoa, desde o início é possível perceber que o narrador é um homem do bem, mas está cansado de levar uma vida monótona. Quando se apaixona por uma bela mulher, que tem prazer em ver o sofrimento, ele acaba se entregando ao lado obscuro de Lorena e com isso suas atitudes passam a ser cruéis. A vida não é mais sem graça. Ela passa a ser repleta de adrenalina.

A adrenalina, no entanto, apenas aumenta conforme as personagens, que estão em uma viagem sem destino, passam a encontrar obstáculos. Para duas pessoas sem medo das consequências de suas atitudes, os obstáculos são superados com facilidade, não sem antes causar muita violência, dando um tom pesado a um enredo diferente, criativo e repleto de reviravoltas.

Considerado um livro proibido, Pólvora possui inúmeras cenas fortes, mas o que tem de forte, o livro também tem de entusiasmante. É bem verdade que o leitor precisa estar preparado para se deparar com tamanha violência, mas evitar esse tipo de cena seria o mesmo que deixar de lado a verdadeira essência da obra: mostrar que a crueldade faz parte das pessoas.

O sexo e as drogas são elementos essenciais na construção do enredo, bem como da personalidade das personagens, mas os ataques da dupla, que mais tarde ganha a companhia de uma mulher também doentia, fazem a diferença. Uma grande quantidade de sangue está presente a cada nova cena, sempre acompanhada da inquestionável criatividade de Tico Santa Cruz, que nos proporciona cenas cada vez mais inovadoras, sujas e estarrecedoras.

Conforme se aproxima de seu final, o livro apresenta situações que dificilmente seriam encontradas no mundo real, mas ao mesmo tempo em que causam estranheza, elas colaboram para outro importante elemento da obra: a crítica social. A impunidade e a incapacidade da força policial em nosso país são mostradas com grande realismo, revelando assim a realidade do sistema brasileiro.

Por isso, mais do que uma novela policial e a história de três assassinos em série, que cometem atos impensados e sem poupar nada e nem ninguém, Pólvora é um retrato do ser humano e da sociedade em que vivemos. Publicada originalmente com o título “Pólvora, Chumbo e Sexo”, a primeira ficção de Tico Santa Cruz é a afirmação do músico como também um excepcional escritor.

“Sob a luz das velas acendidas para os santos, Lore me beijava ardentemente. Minhas mãos eram irrequietas; percorriam visceralmente cada centímetro de seu corpo. Agarrava seu dorso com uma força quase que brutal. Lore adorava quando a pegava assim, dizia que se sentia protegida, mas também adorava dominar e sabia fazer isso como ninguém” (pág. 91).

2 Comentários

  1. Olá, não fazia ideia de que esse músico também era escritor!
    Achei muito interessante a premissa do livro, ultimamente tenho lido muita coisa "água com açúcar" e acho que um livro forte como esse, mostrando o potencial de crueldade da raça humana (por mais que seja triste é algo verdadeiro) seria uma quebra interessante nas minha leituras. Vou procurar para troca no skoob.

    tem postagem nova no meu blog
    te espero la ;)
    http://dudikobayashi.blogspot.com.br/

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    1. A linguagem de "Pólvora", e de todos os livros do Tico Santa Cruz, servem exatamente para essa quebra. A linguagem casada com uma premissa tão interessante, e com elementos muito aceitáveis, torna tudo mais motivador, pra não dizer inovador em nossa literatura. (Sem contar a belíssima edição). Se tiver a oportunidade, espero que você goste. :D

      Abraços,

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