Sufoco, Ricardo Bellissimo, 1ª edição, São Paulo-SP:
Via Lettera, 2008, 384 páginas.
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Ademir é o líder de um esquema de tráfico de drogas que se aproveita de uma rede de pizzaria para lucrar e enfrentar as dificuldades de uma periferia da capital paulista. O que realmente interessa para Ademir, no entanto, é uma loira que conheceu em uma boate de um bairro nobre da capital. Ele está perdidamente apaixonado por ela.

Essa paixão de Ademir causa o ciúme doentio de sua namorada Gláucia, uma operadora de telemarketing que diz estar grávida do jovem rapaz. Ela está disposta a tudo para tê-lo ao seu lado, principalmente porque acredita que Ademir é o único capaz de tirá-la da periferia. Sabendo disso, Gláucia faz uma aposta com sua amiga e vizinha Helô, que também é uma mulher ambiciosa e não vai poupar esforços para sair desse lugar miserável. Quem será a primeira a enriquecer?

“Sentiu nojo de si, nojo daquela alergia que não passava. Assustada com a cor da água, Gláucia finalmente saiu do banho, com a nítida sensação de que estava mais suja de que quando entrara. Mas não era a sujeira provocada pela falta de saneamento do bairro. Nada disso. Sentia-se suja apenas por causa da traição. Suja pelo seu abandono” (pág. 140).
A linguagem ácida e direta é a principal característica de Ricardo Bellissimo, autor que tem a responsabilidade de ser considerado o Tarantino das Letras e que sempre envolve seus leitores com enredos próximos da nossa realidade. Em Sufoco, livro publicado em 2008, o foco principal é o modo de vida de pessoas das periferias de uma grande cidade.

Muitos dos acontecimentos da obra estão presentes diariamente na mídia, especialmente nos programas especializados, mas a principal diferença está simplesmente no aprofundamento dado pelo autor às suas personagens, explorando passado e presente com a mesma qualidade com que explora o interior. Tal aprofundamento inclusive se diferencia do romance epistolar Sombras e Nefastos (2003).

Se no livro supracitado apenas as palavras das cartas tinham o poder de explorar as personalidades de seus remetentes, dessa vez é possível estar próximo dos pensamentos e das atitudes, ainda que o autor explore diferentes personagens em uma mesma cena. Isso torna a leitura muito distinta, mas também revela a versatilidade do autor.

A leitura de Sufoco é lenta, algo natural em uma obra em que é preciso tempo para digerir o que está sendo narrado, especialmente quando o título passa a ganhar sentido. Falta também o fator surpresa, que não ocorre em abundância por conhecermos as personagens suficientemente para já esperarmos o que elas são capazes. O conjunto das ideias é o que surpreende.

Ricardo Bellissimo volta a explorar as ambições de suas personagens, ainda que dessa vez seja a partir de uma realidade oposta e baseada em novelas, por exemplo. Viver na periferia, em meio a toda violência e o descaso, pode desgastar a todos, e transformar qualquer pessoa. A partir dessa ideia, o autor nos mostra mais do que o comércio de drogas, o suborno, as traições e os planos mirabolantes pensando apenas em se beneficiar. A essência está em apresentar os limites – se é que eles ainda existem.

As dificuldades enfrentadas pela classe baixa de nosso país estão em evidência do princípio ao fim, tornando esse thriller totalmente social. As pessoas mais necessitadas precisam buscar formas de sobrevivência e, às vezes, apenas cometendo crimes ou trapaceando terceiros isso acaba sendo realmente possível. No fim, cada personagem tem uma atitude, mas o objetivo acaba sendo exatamente o mesmo.

Sufoco é uma narrativa capaz de mostrar exatamente o lado social e cultural de uma periferia. A linguagem de Bellissimo é crua, a estrutura de sua obra convincente e os conflitos parecem colaborar com os diversos possíveis desfechos. Se suas ambições são suficientes para fazer diferença, apenas a leitura pode esclarecer, assim como apenas a leitura pode dizer se um leitor é capaz ou não de digerir o que é narrado e que infelizmente está tão próximo de nós.

“Com dinheiro, também diziam, era fácil comprar até o amor de uma mulher. Qualquer uma. E o amor, para eles, era foder quem seus hormônios bem desejassem. E se um dia cansassem de uma ou outra amante, era só arranjar outra. O mundo estava cheio de mulheres que fodiam pelo dinheiro” (pág. 312).

7 Comentários

  1. Oi, Ricardo!
    Nossa, fiquei interessado neste livro.
    Não havia lido nada do autor, não o conhecia e nem havia ouvido falar neste livro. Felizmente visitei aqui e acabei conhecendo agora.
    Parece ser uma leitura super interessante e eu leria com toda certeza.
    Espero poder fazer isso em breve. Possivelmente gostarei.
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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  2. oi Ricardo,
    Eu não conhecia o autor, mas achei o livro bem curioso. Eu fiquei com receio quando vi "o tarantino das letras", eu odeio esse diretor (apesar de todo mundo amar). Entretanto, lendo a sua resenha eu me interessei um pouco pela obra. Acho que a parte da leitura lenta e a previsibilidade são coisas negativas, mas gostei do fato de abordar uma realidade que vemos apenas pela tv, e mostrar esse lado. Como imagino ser uma leitura mais pesada teria que achar um momento em que estivesse bem leve e tranquila para ler, oq está complicado ultimamente kkkkk gostei da sua resenha!

    tem postagem nova no meu blog!
    te espero por la!
    dudikobayashi.blogspot.com.br

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    1. Juliana, a escrita do autor realmente impede que seja lido em qualquer momento e por qualquer tipo de leitor. A leitura é pesada em vários sentidos, inclusive na própria estrutura narrativa - confesso que em outros casos eu não iria gostar, mas pelo estilo do livro acaba funcionando.
      De qualquer forma, espero que tenha a oportunidade de ler e que você aprecie, claro.

      Abraços!

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  3. Achei a premissa bem politica, me parece bem interessante mas no momento não é o que procuro! ^^

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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  4. Gostei bastante da sua resenha. Não conhecia o livro, mas acredito que deve ser muito bom. Só de olhar a capa já fiquei com um certo sufoco. Agora quero conhecer essa escrita ácida do autor.Muito bom!
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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  5. Olá
    esse livro parece ser interessante, quem sabe leia ele futuramente, estou tentando fugir um pouco de livros desse gênero, estou lendo muita coisa meia tensa.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  6. Não conhecia nem o autor, nem esse livro, mas posso dizer que gostei bastante. O que achei legal é que ele faz um "mergulho na realidade", mostrando personagens reais, e que tem atitudes pra lá de suspeitas. Não sei muito bem, mas me parecem anti-heróis, que extrapolam os limites do aceitável. Enfim, se tiver oportunidade, vou dar uma conferida.

    @_Dom_Dom

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