Foto: Reprodução
Após duas semanas internado em um hospital de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o poeta Manoel de Barros, de 97 anos, morreu na manhã dessa quinta-feira, 13, vítima de falência múltipla de órgãos. O corpo do poeta foi velado durante a tarde no cemitério Parque das Primaveras e enterrado às 18h20, horário local.

Um dos mais importantes poetas do século XX, Manoel estava internado desde o dia 24 de outubro, quando passou por uma cirurgia de desobstrução intestinal, e permaneceu na UTI do Proncor da capital sul-mato-grossense desde o dia 04 de novembro.

Segundo seu irmão, Abílio Leite de Barros, os últimos meses foram difíceis para o poeta, principalmente após a morte de um de seus filhos, em 2013 – ele havia perdido outro filho em 2007. A incapacidade de ler e escrever também afetava a vontade de viver de Manoel de Barros, que passou seus últimos momentos em uma cama ou cadeira de rodas, sendo alimentado por sonda, e não conseguindo fazer o que mais marcou sua longa vida.

O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, decretou luto oficial de três dias. Através de sua página oficial no Facebook o governador ressaltou ainda a importância do poeta como um ícone da poesia do Estado e disse: “pensemos em pessoas como Manoel de Barros para que espelhando-nos nelas possamos produzir e fazer algo pelo nosso Mato Grosso do Sul”.

A morte de Manoel de Barros repercutiu também internacionalmente. O escritor moçambicano Mia Couto afirmou que “Manoel não termina nunca”. “Sua vida tornou-se a Vida, transferiu-se para a palavra encantada que ele criou, para esse ‘errar bonito’ que os seus versos sugerem”, concluiu o ganhador do Prêmio Camões 2013.

Ocupante da cadeira nº 1 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Manoel de Barros deixa uma filha, sete netos, cinco bisnetos e a esposa, com quem permaneceu casado por 67 anos.

Vida e Obra
Nascido em Cuiabá no dia 19 de dezembro de 1916, Manoel Wenceslau Leite de Barros era filho de um capataz e se mudou para Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense, com apenas um ano. Mais tarde estudou em Campo Grande e também no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito no início da década de 40.

A literatura passou a fazer parte da vida de Manoel de Barros no início da adolescência, mas escreveu seu primeiro poema apenas aos dezenove anos. Dois anos mais tarde publicou seu primeiro livro, intitulado “Poemas Concebidos sem Pecado” (1937), em uma tiragem de apenas vinte exemplares.

Após muitos anos fora de Campo Grande, vivendo inclusive no exterior, o poeta voltou para a cidade na década de 60 e passou a cuidar de sua fazenda, sem que isso o impedisse de poetizar. Apesar disso, nessa época sua obra era desconhecida, em partes pela timidez que sempre foi característica de sua personalidade. O reconhecimento veio na década de 80, quando publicou, entre outros, o livro “O Guardador de Águas” (1989), reconhecido com o Prêmio Jabuti na categoria Poesia.

A partir de então, os poemas de Manoel de Barros passaram a se destacar no meio literário e por muitas vezes foi considerado um dos maiores poetas da nossa literatura, sendo publicado em diversos países, como Portugal, Espanha e Estados Unidos.

Ed. Leya - 2014
Manoel de Barros foi reconhecido novamente com o Prêmio Jabuti em 2002, pelo livro de ficção “O Fazedor de Amanhecer” (2001), uma parceria com o cartunista Ziraldo. Ganhou diversos outros prêmios, como o Prêmio Nacional de Literatura, pelo conjunto de sua obra, oferecido pelo Ministério da Cultura em 1998.

O último livro de Manoel de Barros, “Escritos em Verbal de Ave”, foi publicado, em 2011, pela editora Leya. A mesma editora lançou, em 2013, a obra completa do poeta em uma coleção de dezoito volumes intitulada “A Biblioteca de Manoel de Barros”. Como informado no início de novembro pelo portal Publish News, a partir de 2015 a editora Objetiva, através do selo Alfaguara, publicará novas obras do poeta.

A vida e obra de Manoel de Barros foi tema do documentário “Só Dez Por Cento é Mentira”, com direção de Pedro Cezar. O poeta fazia parte da segunda geração do Modernismo brasileiro e sua obra se destacava, entre outras coisas, por transmitir a relação do homem com a natureza.

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