O Desertor, Daniel Silva, tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2014, 304 páginas.
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O ex-espião israelense Gabriel Allon está com um novo disfarce, em uma pacata cidade da província de Úmbria, quando recebe a visita de seu antigo chefe, Uzi Navot. As notícias, no entanto, não são nada agradáveis: o desertor russo Grigori Bulganov, que já salvou a vida de Gabriel em duas oportunidades, está desaparecido.

Como existe a suspeita de que Grigori seja um agente duplo, as autoridades não se importam com o caso, mas Gabriel tem convicção de que o sumiço é, no mínimo, muito estranho. O ex-espião não pensa duas vezes antes de assumir a investigação, sem imaginar que o seu inimigo vai se aproveitar dos seus erros para sequestrar a pessoa mais importante de sua vida. Quando isso acontece, ele está disposto a tudo para se vingar.

“Tinham caído numa armadilha, como Grigori. Mas daquela vez não era uma sequestro, mas uma execução. Para sobreviver, nos próximos dez segundos, Gabriel teria de atuar na defensiva, algo que, para ele, significava romper com décadas de experiência e treinamento. Infelizmente, não tinha outra escolha, pois viera para Oxford desarmado” (pág. 72).
Que o último século foi marcado por intensas disputas políticas e ideológicas, todos estão cansados de saber, mas são poucos os países que ainda enfrentam as consequências ou, no mínimo, as memórias de uma época cada vez mais remota. A Rússia, grande potência emergente e protagonista de tais conflitos, pode ser vista como um exemplo.

Como um romance de espionagem, O Desertor não tem a intenção de apresentar fatos históricos, mas isso está claramente nas entrelinhas. Se por um lado questões políticas são fundamentais para a construção do enredo, por outro o que se destaca de fato é o lado pessoal de Gabriel Allon, já que a missão do ex-espião deixa de ser apenas profissional e quando isso acontece tudo se torna muito melhor.

Além do envolvimento pessoal de seu protagonista, Daniel Silva explorou muito bem a personalidade do antagonista, ainda que também de uma forma subentendida. Isso pode ser exemplificado apenas pelo fato de que o inimigo é um grande admirador de Stálin, o mesmo responsável por tantas mortes no passado e que ainda hoje continua popular entre os russos.

Conhecendo a personalidade do inimigo de Allon, e também a característica do autor, é possível imaginar como se dará o desenvolvimento do enredo. Assim como em Anjo Caído, o autor explora diversas possibilidades, com infinitos detalhes e alguns picos de tensão, para apenas nos momentos finais a obra ganhar ótimas sequências de ação e consequentemente de suspense.

Uma diferença entre os dois títulos é a importância das obras de arte, que nesse caso são praticamente deixadas de lado, apesar de o início mostrar Gabriel Allon restaurando uma obra de Guido Reni. Além disso, todos os mistérios, as questões políticas e ideológicas, e em alguns momentos até culturais, casam perfeitamente com a busca de Allon pelo desertor que chegou a salvar sua vida em missões anteriores.

O Desertor, nono livro da série, não é uma leitura rápida, mas em sua totalidade pode surpreender ainda mais do que Anjo Caído, o décimo segundo volume. Em partes por não envolver apenas uma conspiração, porém também por possuir um tom mais humano, ou seja, mais do que instituições religiosas, Gabriel Allon precisa salvar pessoas que para ele são importantes.

Passando por Londres, Jerusalém e Moscou, além de pequenas cidades de outras partes do mundo, Daniel Silva mostra sua mais importante personagem lidando com sombras do passado e, independente se pessoais ou não, a certeza que se tem é que deixá-las vivas pode ser extremamente perigoso. Por isso que o desfecho de um problema não significa necessariamente o fim de uma missão – nesse caso, o fim de uma obra.

“Outro homem poderia ter admitido a derrota naquele momento. Mas não Ivan. Na realidade, a última coisa que a tripulação viu foi Ivan arrancando o celular de Rudenko e arremessando-o no avião. O aparelho bateu inofensivamente na parte inferior da fuselagem e se quebrou em uma centena de pedaços na pista. Alguns tripulantes riram. Os que sabiam o que estava por vir, não. Haveria sangue correndo. E homens iriam morrer” (pág. 243).

6 Comentários

  1. Tá ai uma série que ainda preciso ler. Tem uma história que me atrai bastante, e esse clima de espionagem me chama bastante a atenção. Como já estou acostumando com a estrutura das séries do James Patterson, de livros independentes mas interligados pelo personagem principal, acho que irei gostar desta do Daniel Silva. Em breve, lerei.

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    1. Joshua, essa é a única semelhança entre as obras do Daniel Silva e do James Patterson, além das histórias serem incríveis, claro. Mais uma vez, por conhecer seu gosto, acredito que você irá gostar.
      Abraços!

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  2. Oi Ricardo!
    Li apenas um livro do autor (O Caso Rembrandt) e gostei. Porém, depois me desanimei a ler outros por ver muitas criticas negativas. Você parece ter só boas experiências com o autor. Me surpreendi ao ver você dizer que esse não é um livro de leitura rápida, porque no livro que eu li, a agilidade foi uma coisa que me chamou a atenção, então achei que era uma característica do autor. Mas cada trama pede um ritmo, não é mesmo?
    Beijos
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Olá, Mariana.
      Apesar de ainda não ter lido "O Caso Rembrandt", posso dizer que esse é um dos livros que mais chama a atenção, também por não ter lido tantas críticas negativas.
      De qualquer forma, gosto da série e pretendo concluir a leitura, apesar de não achar uma leitura rápida. Como você disse, cada trama pede um ritmo e esse pode ser o "problema". rsrs

      Beijos,

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  3. Nono livro da série? o.O Já me assustei! rs... Mas devem ser histórias individuais, né, e pelo jeito deve dar para ler fora de ordem, já que você citou o décimo segundo livro também... Achei legal o livro possuir um lado mais humano, já que o protagonista tem que salvar pessoas importantes para ele.

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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    1. Olá, Ju. É possível ler fora de ordem, mas particularmente, após ler esse livro, aconselho que, se possível, seja lido na ordem correta. Isso porque as histórias podem não possuir relação, mas as personagens sempre acabam revelando algo. Se ler os dois pelo menos entenderá sobre o que estou falando. rsrs

      Beijos,

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