Quissama: O Império dos Capoeiras, Maicon Tenfen, ilustrações de Rubens Belli, 1ª edição, São Paulo-SP:
Biruta, 2014, 308 páginas.
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Rio de Janeiro, 1868. O inglês Daniel Woodruff, ex-agente da Scotland Yard, está prestes a voltar ao seu país quando é surpreendido pelo escravo Vitorino Quissama. O moleque fugiu da senzala em busca de sua mãe desaparecida e sabe que Woodruff é a única pessoa capaz de ajudá-lo.

Apesar de não querer se envolver em nada, o plano do inglês de deixar o Brasil fracassa quando ele também é procurado pelo Ministro da Justiça, José de Alencar, que quer descobrir a identidade do autor de uma ofensa ao imperador. Esse mistério é solucionado rapidamente, mas Woodruff vai se deparar com novos mistérios envolvendo muitos interesses políticos. Caso não faça alguma coisa a tempo, a família real pode enfrentar problemas a qualquer momento.

“Eis um detalhe que nunca compreendi na história deste país. Não era Pedro I um português de pia e coração? Não era filho do rei de Portugal? Então como é possível que o próprio herdeiro do trono, e não um grupo de brasileiros descontentes, tenha desempenhado o papel de libertador? Concluo errado ou isso significa que o Brasil se livrou de Portugal para continuar nas mãos dos portugueses? Como entender esse povo?” (pág. 190).
A leitura de parte do livro Quissama: O Império dos Capoeiras aconteceu no Dia da Consciência Negra, o que foi uma coincidência muito significativa. Em suma, o livro de Maicon Tenfen retrata a importância da cultura negra para o nosso país, ainda que apresente muito mais do que apenas uma questão cultural.

Baseado nas memórias do inglês Daniel Woodruff (1832-1910), narrador do primeiro livro da trilogia, a obra não conquista apenas pelo trabalho gráfico da editora Biruta ou então pelas ilustrações de Rubens Belli, capazes de levar o leitor de volta ao século XIX. Ao retratar o Rio de Janeiro do Segundo Reinado, uma cidade dividida entre duas maltas, o autor não está simplesmente narrando suas memórias, mas revelando intrigas que podem ser comparadas com as encontradas nos melhores romances policiais.

O manuscrito foi concluído em 1907, porém jamais chegou a ser publicado como desejava seu autor. De um lado a literatura perdeu uma grande obra, de outro, mais de um século depois, fomos contemplados com o trabalho de tradução e adaptação de Maicon Tenfen, importante nome da literatura contemporânea. Essa adaptação tornou a leitura agradável e, sobretudo, envolvente, sem contar as importantes notas essenciais para a apreciação e que revelam, inclusive, contradições do narrador.

Desde as primeiras cenas é possível perceber o charme da obra, mas nesse caso ele não acontece por apresentar os luxos do império, por exemplo. O charme está em conhecer a sociedade fluminense e a opinião de um inglês sobre a nossa terra, percebendo como a nossa realidade política, cultural e social se diferenciava e muito dos países europeus. Acaba servindo como um grande aprendizado em uma aula de História.

Mas a essência é exatamente outra. Todas as questões exploradas em Quissama: O Império dos Capoeiras aparentemente não estão interligadas. Ou seja, a busca pela mãe desaparecida de Vitorino, por exemplo, e as críticas à família real não são necessariamente eventos paralelos. Por isso o leitor se torna, ao lado de Woodruff, um detetive tentando relacionar tudo e chegar a um desfecho. No fim, a surpresa é inevitável.

Com suspense e ótimas doses de ação, em cenários tão conhecidos, o mais recente livro de Maicon Tenfen poderia se tornar uma leitura essencial para jovens que ainda estão aprendendo sobre o Império e, em especial, o processo que culminou no fim da escravidão. A obra gira em torno do capoeira Vitorino Quissama, mas a escravidão, de um modo geral, e os interesses por trás dela, fazem de fato a diferença.

A agradável presença do escritor José de Alencar é apenas um atrativo a mais. Como na capoeira, O Império dos Capoeiras possui o gingado necessário para atrair a atenção e transmitir uma expressão cultural que faz parte da nossa identidade. Mais do que isso, possui o suspense de um legítimo jogo que, se não fosse o herói da trama, poderia ter mudado o que hoje conhecemos sobre o passado.

“O moleque riu e pôs-se a gingar. Quase no mesmo instante, fiquei tonto com seus passos largos e debochados. Eu contava com a experiência que adquiri ao enfrentar os outros capoeiras, mas com Vitorino era diferente. Mesmo quando estava de brincadeira, parecia ser mais rápido, mais flexível” (pág. 289).

2 Comentários

  1. Olá

    Desde que a editora lançou esse livro que estou bem curioso sobre ele. Vi em alguns canais o livro por dentro e logo já fiquei ainda mais interessado. Como também gosto muito de história, sobretudo a história do Brasil, meu interesse pelo livro só aumenta e eu já anotei na minha lista (imensa) de livros para futuramente serem lidos.

    Abraço!
    www.umomt.com

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    1. Olá, Matheus.
      Também estava curioso por esse livro, mas não imaginava encontrar uma obra tão incrível. Se você gosta do tema, certamente vai gostar da leitura, por isso recomendo que dê prioridade. Garanto que não vai se arrepender. :D

      Abraços!

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