Feli$ Natal

Obra que critica o modo capitalista
na data do Natal, pondo em cheque
os valores religiosos e os de mercado,
criado pelo britânico Banksy
Então é Natal! O presépio imita uma cena falsa, inventada, contada e repetida ao longo dos séculos (por corrupção, capitalismo e exploração).

E todo o mês de dezembro a história se repete. Os mesmos enfeites se desdobram na sala de jantar, a mesma árvore branca implora por enfeites dourados e vermelhos e na ceia, os sorrisos são distribuídos com embrulhos.

Na televisão novamente os preços e melhores horários de compra são divulgados. Falam do aumento em relação ao último Natal, reprisam histórias e abarrotam sentimentos.

Compartilham, em cima da mesa, o refrigerante e seus sentimentos de amizade, felicidade, proximidade e compaixão. Todos dão sorrisos após um brinde gelado, negro e doce.

O pequeno menino cristão repousa abaixo de uma estrela pagã em um canto qualquer, em uma manjedoura esquecida. O bom velhinho toma conta de todos os balcões e cantos inimagináveis: o pai trabalha até às dez, a mãe se desgasta para que tudo dê certo.

Todos trocam cartões e uma única vez ao ano, os velhos, as crianças e os doentes abandonados são lembrados e convidados para o convívio social. Todos se amam (dizem ser a mágica do mês de dezembro).

No fundo, por trás de todos os sorrisos, existe uma preocupação de se cumprir um contrato. Uma família feliz, como os Medeiros (ali do 109), doa brinquedos velhos em dezembro, doa alimentos não queridos das cenas natalinas, doa tempo (muito pouco tempo) para algumas crianças e se comovem ao ver os animais deixados na rua.

João, vizinho do 103, pobre excluído e sem escolaridade (por ter que, desde sempre, auxiliar em casa para que os mais novos não passassem fome), sem dinheiro bate à porta pedindo um trocado para comprar uma boneca para a filha e uma bola para o filho. É claro que os Medeiros devem doar! São cristãos, são humildes.

O vizinho vai até a loja e lá um outro homem assalta o caixa. O balconista, para se defender, pega a arma e atira no pobre pai. Tudo foi rápido: o balconista nem viu quem realmente era o bandido. Estava cansado e queria ir embora passar as festas com sua família.

O negro sangue de João escorre abaixo do Papai Noel que carrega consigo a faixa de promoção. O corpo é cercado, a loja abaixa as portas e entra a polícia e a televisão.

(…)

Às 20h chegam os tios, chegam os primos. A casa dos Medeiros é invadida por novas cores e novos presentes. Uma nova boneca, uma outra bola, um novo vaso, outra gravata…

Quando todos estão na sala, trocando sorrisos e palavras afetuosas, eis que surge o assunto: a beleza e encanto do Natal. Todos se comovem falando de trabalhos de caridade; todos choram ao ouvir falar dos olhinhos brilhantes das crianças do orfanato; todos riem quando ouvem falar da alegria dos idosos no asilo. Depois disso, todos comentam sobre as futilidades compradas nas lojas que estenderam o expediente até tarde da noite. Esmagando, ainda mais, as pobres vidas do outro lado do balcão. Mais-valia sem valor.

Quando todos estão à mesa, o rádio deixa de tocar a clássica e um plantão municipal informa que um bandido foi morto na loja de brinquedos.

Até onde dizia a voz séria do radialista, o bandido entrou na loja para roubar importados e se aproveitou para assaltar o caixa, quando, em uma ação banal, quis atirar no balconista, que com bravura e benevolência, arrancou forças pela fé em Deus e desarmou o bandido. Em uma troca de mãos e empurrões, o bandido ou o balconista apertou o gatilho e atirou sem perceber. A polícia divulgou apenas o primeiro nome do bandido: João.

Haviam muitos Joãos para se pensar no Natal, e mortes aconteciam todos os dias… Como diziam na mesa dos Medeiros, bandido bom era bandido morto. Palavras ácidas na mesma mesa em que a humildade e o amor ao próximo eram pregados.


No 103, uma criança chorava porque o pai ainda não havia voltado. A mãe esperava na esquina, e na cozinha uma mesa mal posta (por justamente terem poucas coisas), celebrava um Natal descolorido e injusto. Sem Cristo, sem presente e totalmente humano.

Sobre o Autor
Eduardo Rezende Tenho 18 invernos de vida, trabalhei como jornalista e fui idealizador de um "Grupo de Debates". Membro da "Casa do Escritor Pinhalense Edgard Cavalheiro", gosto muito da música popular brasileira, do nosso rock nacional, e de livros e café que aconcheguem e combinem. Fiz trabalho voluntário em Sala de Leitura e Estudo/Biblioteca, e sou apaixonado por estudo de funcionamentos da sociedade e seus simbolismos.
Atualmente curso Ciências Sociais - Ciência Política pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa).


Contato: eduardo.rezende13@hotmail.com.

3 Comentários

  1. A melhor coisa que eu li até agora neste Natal. Agora vou lá jantar, junto com pessoas que não aceitam ouvir outra opinião, se não a que foram levados a ter.

    http://desfocandoideias.blogspot.com

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  2. Essa crônica é para pensar. Infelizmente esse é o espírito natalino de muitos.

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  3. Excelente texto!
    Realmente não faz pensar sobre todo este significado do natal e o que fazemos nele. Acabou se distorcendo totalmente.

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