Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.

Você já tem uma história em que alguém quer algo e que vai ter que ralar para conseguir (ou não)? Já sabe que esse personagem precisa ter vida própria dentro do seu texto e que isso vai exigir pesquisa para não colocar um militar que pratica crimes em presídios comuns, por exemplo? Já tem noção que no decorrer da história o seu personagem deve mudar sua personalidade para não ficar como um certo ninja loiro que sempre grita, ataca e diz “esse é o meu jeito ninja”?

Não tem nada disso?

Não tem problema. Vá ler meus artigos anteriores e volte para cá.

Já leu? Então vamos em frente.

Em minhas andanças pelos grupos de escritores, a coisa que mais ouço é “será que eu narro essa história em primeira ou terceira pessoa?”. E há pessoas que nem sabem o que é isso (culpa da educação escolar brasileira. Fazer o quê se essas pessoas acham que escrever é só colocar a alma e não usar nenhum neurônio sequer?).

Então vamos explorar a situação.

Um narrador em primeira pessoa é o escritor vestindo a camisa do personagem. O autor fala por aquele que vai descrever todas as andanças do indivíduo que vai apresentar a narrativa ao leitor. Parece fácil? Um pouco.

Já disse ao escritor e amigo, Daniel Rodrigues Salgado, que ele tem muitos aspectos na vida pessoal dele que admiro muito: marido, pai, amigo, membro de grupos de escritores e motociclistas. Daí vocês pensam: como ele pode personificar seus protagonistas do mundo mágico de “Caçador de Gigantes” e escrever uma jornada por um mundo mágico de um bárbaro sendo observado por uma princesa? Meu outro amigo, Rogério Canuto Scabar, é um dentista, casado, pai de família e super conversador (adicionem-no no Facebook e leiam as postagens dele, por via das dúvidas). E no curso em que fizemos no Centro Cultural da Penha (zona leste da capital paulista), ele criou uma excelente obra relatando a vida de um transexual.

Portanto, o que podemos concluir sobre narrar em primeira pessoa é que você fala por quem você TALVEZ não seja. O Daniel poderia narrar a vida de um pai de família que trabalha na roça (pegando um aspecto) assim como o Rogério pode terminar o seu trabalho relatando a vida de seu protagonista, Deusemar (que não tem nada a ver com ele). Seja como for, é importante o narrador colocar o “eu” na história e dar vida ao personagem.

A narração em terceira pessoa é se referir ao personagem pelo nome, por seus atributos (o detetive, o filho de Poseidon, o Menino Que Sobreviveu, etc.). O narrador é o que eu chamo de “mosca telepata”: ora ele observa o mundo pelas costas do personagem-narrador (lembrando que ser narrador e protagonista não são a mesma coisa. Aprendemos isso com Sherlock Holmes ou Frankestein), ora ele entra na cabeça do protagonista para relevar seus pensamentos.

“Mas o narrador em terceira pessoa não pode ser onisciente e revelar os pensamentos de todos?”. Sim. Pode. Contudo como apresentador de uma história, o escritor precisa ponderar sobre aquilo que quer revelar. Exemplo:

Rita viu sua amiga, Jéssica, expressar sua raiva ao ouvir as palavras de André dando um tapa no rosto do amigo, que teve o rosto jogado para o lado com o golpe. A agressora saiu da sala pisando duro enquanto a testemunha perguntava:
— Você treina artes marciais. Por que não desviou?
— Porque eu vi que estava errado em falar da família dela — confessou o rapaz enquanto massageava o rosto — Então eu merecia o tapa.
Agora vejam nessa versão:

Rita viu sua amiga, Jéssica, expressar sua raiva ao ouvir as palavras de André dando um tapa no rosto do amigo, que preferiu não se defender por saber que estava errado teve o rosto jogado para o lado com o golpe. A agressora saiu da sala pisando duro enquanto a testemunha perguntava:
— Você treina artes marciais. Por que não desviou?
— Porque eu vi que estava errado em falar da família dela — confessou o rapaz enquanto massageava o rosto — Então eu merecia o tapa.
Qual das narrações traz mais surpresa ao leitor? Em qual temos somente a visão de Rita e em qual sabemos que André poderia ter desviado do tapa, mas não o fez por seus motivos particulares?

Claro que no ramo da escrita você pode encontrar exceções: “A Hora da Estrela” é narrado por um sujeito escrevendo a história da personagem principal e segundo a minha irmã (já que nunca li uma obra dele), Mario Vargas Llosa entra na cabeça de todos os personagens. Independente dos casos eu faço três perguntas aos jovens aspirantes a escritor que queiram “quebrar as regras”:
  1. Acha que esses escritores que quebram regras não sabem como elas funcionam?
  2. Acreditam que esses trabalhos “transgressores de regras” foram os primeiros deles?
  3. Você tem certeza que revelar os pensamentos do assassino não vai acabar com toda a sua trama policial?

Não há problema em escrever algo em primeira pessoa e, se não gostar, mudar para terceira e vice-versa. O que deve ser preciso ponderar é o quanto o narrador independente de qual seja, apresenta ao leitor: um cego pode descrever cores ou formas? Um homem das cavernas que acorda no século XXI vai saber o que é um computador? Harry Potter sabia as funções de todos os objetos do mundo dos bruxos?

Se não sabe dizer, é melhor “colocar a máscara” e ter empatia com o seu personagem. Pois, se ele não convence nem a você, quanto mais ao leitor.

Abraços e boas escritas!

Sobre o Autor
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.

Contato: davi_paiv@hotmail.com.

2 Comentários

  1. Oie

    Gostei muito da reflexão. Confesso que eu me sinto mais confortável na leitura quando o narrador é em primeira pessoa.

    Beijos

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  2. Davi sempre dando uma ótima dica!
    E sim, a narração é um dos pontos mais importantes. Alias, o que eu não considero não importante quando escrevo?
    E autores tem que ser sempre flexíveis, ainda mais quando vai escrever em primeira pessoa. Tem que se entrar no personagem.
    E já li coisas que a pessoa que escreveu misturou terceira e primeira pessoa no modo de narração e eu demorava um bom tempo para entender.
    A pessoa queria mostrar o pensamento de outros personagens que não o protagonista e usava a terceira pessoa para tal. Acabou ficando mais confuso!
    Enfim, eu falo demais!
    Gostei das dicas e até falei sobre o mesmo assunto lá nas dicas do meu blog. haha
    Beijos!

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