Hoje vamos falar de uma das partes mais marcantes de um texto. Afinal, se os atos de um personagem dão uma definição de quem ele é, você não pode esperar humildade de um sujeito que diz ser “gênio, playboy, bilionário e filantropo” e nem que uma pessoa que diz “não existe trabalho ruim o ruim é ter que trabalhar” possa ser um bom exemplo.
Se você fizesse uma pergunta a esses personagens,
quais diriam "pode pá, véi", "certamente" e "clalo"?
Segundo o Houaiss de 2010, um diálogo é:
  1. Fala entre dois ou mais indivíduos;
  2. Conversa;
  3. Conjunto de palavras trocadas pelas personagens de um romance, filme, etc.

O que podemos concluir?

Que um diálogo é apenas uma transcrição da forma como uma pessoa se comunica. Você pode criar um personagem como os retratados em filmes brasileiros, que só faltam falar “bom dia, p****!” ou você pode criar um personagem que faz de suas falas a forma como ele é reconhecido. No livro “Musashi”, o guerreiro Sasaki Kojiro não precisava ser descrito. Bastava vê-lo entrar em cena dizendo “Varal [nome da sua espada] está com sede de sangue” e todos sabiam quem era que chegava e quais as suas intenções.
Um personagem pode ter vícios de fala.
Agora vem o ponto que queremos discutir: como criar diálogos?

O erro mais comum que muitos escritores cometem é usar o hífen (-) como sinal de travessão. Digite Alt+0151 ou deixe isso em atalho (não me perguntem como fazer isso!) e... voilá! Temos o travessão (—).

A segunda etapa para entender o que são diálogos é que ele é dividido em dois trechos: diálogos e incisos. Exemplo:

— Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida — disse o entrevistado, sem esconder sua irritação.
A primeira parte é o que está entre os travessões. “Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida” é o que o personagem diz. Se fosse na forma anglo-saxã, onde as aspas fazem o trabalho dos travessões (isso pode ser encontrado em livros brasileiros antigos também), ficaria:

“Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida” disse o entrevistado, sem esconder sua irritação.
Já a parte “disse o entrevistado, sem esconder sua irritação” é chamado de inciso, onde o narrador descreve como o personagem disse aquilo. Reparem como a união entre pontos e incisos podem criar várias formas de dizer a mesma coisa:

— Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida — disse o entrevistado.
— Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida! — esbravejou o entrevistado.
— Faça um favor a nós dois: cuide da sua vida, ok? — aconselhou o entrevistado, sem esconder sua irritação.
Retomando um pouco do que estudamos no “A Oficina” sobre pontos de vista, os incisos dos personagens cujos pontos de vista não são trabalhados NÃO podem revelar o que a personagem pensa. Vejamos:

— Você acha mesmo que pode me derrotar? — perguntou o lanceiro, em postura de combate e avaliando os pontos fracos da armadura do inimigo.
— Talvez eu possa — respondeu o espadachim.
Como podem ver, entramos na cabeça do lanceiro para saber o que ele pensa: ele está avaliando a armadura do espadachim e procurando seus pontos fracos. Mas o que será que o espadachim está pensando? Será que ele não está com medo? Será que ele não tem um truque na manga? Será que seus pontos fracos são visíveis?

Caso você tenha dificuldades nessa etapa, é só pensar nas conversas que você tem em seu cotidiano: as pessoas falam em tons de voz variados e expressam gestos que dizem seus estados emocionais. Mas será que a sua interpretação será a verdadeira?

Veja outro exemplo:

— Essa partida está ganha! — se gabou o enxadrista alemão — Você está ficando nervoso. Eu posso ver pelos seus gestos. Sempre que movo a Torre, você arregala os olhos.
— Aí fica a questão, my friend... Você acha que eu estou nervoso ou eu te faço acreditar nisso? — insinuou o oponente inglês, usando seu Bispo para capturar a Dama do adversário.
Como podemos ver, o jogador alemão pensou que estava na vantagem. Contudo o oponente conduziu sua forma de pensar e ganhou vantagem. Se o narrador revelar isso nos incisos, a narrativa ficará sem graça.
Um nordestino, um gaúcho e um adepto do surfe falam português.
Mas cada um vai falar de uma forma diferente.
Pesquise as variantes.
Uma coisa importante para o bom escritor entender é a diferença entre discurso direto, indireto e livre (lembram disso na escola?). Vou ser bem sucinto (ainda mais porque a postagem está ficando bem grande!).

Discurso direto: caracterizado pelo fato dos personagens falarem por conta própria. Em todos os exemplos que dei até agora, usei o discurso direto.

Discurso indireto: o narrador fala pelo personagem. Exemplo:

“O aluno novato perguntou ao mais velho como eram realizadas as recepções de boas vindas no colégio”.
Essa fala em discurso direto, ficaria da seguinte forma:

— Como são as recepções de boas vindas no colégio? — quis saber o aluno novato.
Discurso livre: fusão da fala com a narração. Exemplo:

Se me acompanhar, irei protegê-la. Era essa a promessa do guerreiro que iria levá-lo a morte.
As duas últimas recomendações que faço aos leitores é tomar cuidado com muitas pessoas na mesma cena. Cada um deve ficar bem descrito nos incisos. Exemplo:

— E se tentarmos puxar contra-ataques? — perguntou o zagueiro.
— Os atacantes estão cansados. Não aguentam mais correr — respondeu o capitão do time.
— Os atacantes podem ficar no meio de campo para não precisarem correr. O Djalma e eu armamos as jogadas cruzando na grande área — disse o lateral.
— O lateral adversário que fica no mesmo canto que você está fingindo muitas faltas. Se você tocar nele, o cara vai cair e você leva um cartão. Não vai poder jogar a próxima partida — advertiu o capitão.
— Valdecir, queremos ir para a final do torneio. O Brunão aceita o risco. Não é mesmo? — indagou o goleiro.
— Pode crer que sim — declarou o lateral.
Como podem ver, o esquema tático é sugerido por todos os jogadores. Porém, o capitão dá as ressalvas.

A última recomendação que deixo é essa tabela para não colocarem “disse” o tempo todo. Ok?

Aconselhou Chamou Discordou Gritou Pediu Rosnou
Acrescentou Choramingou Disse Implorou Perguntou Rugiu
Admitiu Cochichou Encorajou Incentivou Ponderou Sentenciou
Admirou-se Comentou Engastou-se Indagou Prometeu Soluçou
Alertou Completou Esbravejou Informou Propôs Sugeriu
Ameaçou Concordou Esclareceu Insistiu Queixou-se Suplicou
Anunciou Confessou Estimulou Interrompeu Ralhou Sussurrou
Apresentou Confirmou Exclamou Ironizou Repetiu Terminou
Argumentou Contestou Exigiu Lembrou Repreendeu Trovejou
Arriscou Continuou Explicou Mentiu Resmungou Vociferou
Berrou Contou Falou Murmurou Respondeu Zombou
Caçoou Desabafou Gaguejou Ordenou Retrucou Urrou

Abraços a todos e continuem escrevendo!

Nota: para maiores informações, leiam “Como Escrever Diálogos” da autora Silvia Adela Kohan, da Editora Gutenberg.

Sobre o Autor
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.

Contato: davi_paiv@hotmail.com.

4 Comentários

  1. Olá Davi,

    Como sempre nos presenteando com textos que nos ensinam muito, gosto demais e sempre compartilho, obrigado e abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Oi
    Gostei do seu texto e me senti em uma aula de português, é legal saber a forma que os diálogos são desenvolvidos.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  3. Oi, Davi!
    É sempre bom ler posts informativos, educativos e interessantes. Eu sempre gosto. Este não fugiu à exceção.
    Você consegue explicar tudo com uma clareza maravilhosa. Poste mais vezes.
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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  4. Olá Davi!
    Como sempre suas postagens são bem esclarecedoras e também sobre coisas que eu já sei. Justamente porque sou formada em Letras e escrevo a anos já.
    Mas sempre a algo novo a aprender! =D
    Beijos!

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