Segundo o dicionário Houaiss de 2010, descrever é:

1. Representar por escrito ou oralmente, no todo ou em detalhes;
2. Contar em detalhes.
Logo, podemos concluir que a descrição é dar informações sobre tudo que está na obra: o protagonista, os coadjuvantes, o inimigo, o cenário e os itens.

Por que isso é importante: escrever um livro não é como produzir um filme, seriado ou desenho animado. Nas obras mencionadas, o recurso da imagem faz toda a diferença. Com ela, você mostra ao público como as coisas são em cor, formato, utilidade e localidade. Sem contar os clássicos easter eggs, que são aquelas imagens ao fundo que fazem referência a outras obras do mesmo diretor (como os de Star Wars em Indiana Jones) ou que querem dizer que as duas obras se passam no mesmo mundo (como vimos em todos os filmes que geraram a produção de Os Vingadores). Enquanto na escrita, o autor vai dizendo como são as coisas. Se ele quiser fazer referências a outras obras criando um lutador chamado Axe Dyassis (Axe = Machado. Dyassis = de Assis. Logo, Machado de Assis), fica a critério dele.
C3PO e R2D2 em hieróglifos: é preciso uma dose adequada de descrições para fazer isso em um livro.

A questão é: será que tudo precisa ser descrito em seus ínfimos detalhes?

Vai do bom senso do autor e da sua necessidade em dizer como é a vida do personagem. Vamos por partes:

1. Descrevendo pessoas
Há autores que descrevem pessoas bonitas. Já outros preferem deixar claro que elas são bonitas. E infelizmente, há aquela parcela que vai pelo conceito “ser branco = ser bonito” e acaba criando obras racistas. Exemplos:

“O rapaz que entrou na sala devia ter um trinta anos e aproximadamente uns dois metros de altura. Usava uma camiseta justa que realçava os seus músculos, calça jeans e um tênis comum.”
“A atendente do bar era uma dessas mulheres que sabem que atraem os homens e fazem uso disso para ganhar a vida. O decote exibia seus seios grandes e fartos, além da sua minissaia exibir coxas lisas, grossas e atraentes”
“Era uma bela garota, de pele branca e macia, cabelos loiros e lisos que pareciam uma cachoeira dourada e lindos olhos verdes”
Sejamos francos (e se discordarem de mim, postem nos comentários): a primeira descrição é a de um rapaz alto, forte e de trajes comuns. Se uma leitora gosta de homens assim, tudo bem. Senão, amém.

Já na segunda descrição, procuramos ver como a personagem se veste para parecer sensual/atraente. A intenção é provocar os desejos masculinos com tal provocação (e é difícil encontrar um homem que não seja atraído por uma mulher de corpo naturalmente atraente...).

E na terceira descrição, temos o padrão de beleza de uma Barbie: necessariamente uma pessoa tem de ser branca/loira/de olhos verdes para ser bonita? Nada contra quem seja assim. Mas o escritor brasileiro precisa ponderar sobre a nossa sociedade mestiça antes de escrever certas coisas.

No restante, o autor precisa ponderar sobre a quantidade de coisas que descreve: se um velho está dirigindo um ônibus, eu preciso saber se o cabelo dele é todo branco ou se é só grisalho? Se o irmão do protagonista é um adolescente com um quarto só para ele, eu preciso saber o nome de cada cantor ou banda que ele pendurou um pôster na parede?

Portanto, vamos pensar em quem vale a pena ser descrito e de que forma.

2. Descrevendo itens
Aqui, não é muito diferente. Mas tem um pouco a ver com o status social da pessoa. Tudo bem que há um pouco de estereótipo na jogada em dizer que uma pessoa rica tem de ter uma mansão com vários itens luxuosos e mobília de qualidade da mesma forma como é difícil imaginar aquele mecânico do clube de motoqueiros ir à sua garagem e encontrar por lá o seu quadro do Romero Brito. Seja lá como for a descrição dos itens de um personagem diz muito sobre quem ele é.
Como você descreveria esse objeto?

Nota: se a obra for fantástica, lembre-se de compará-las com os itens mundanos. Como você descreveria o desiluminador de Dumbledore / Rony Weasley, a chave sônica do Doctor ou até mesmo o DeLorean customizado de Emmet Brown sem uma referência?

3. Descrevendo cenários
Aqui, alguns escritores pecam pelos clichês e às vezes, o tiro sai pela culatra: nem toda floresta é assustadora ao anoitecer, os bairros povoados por afro-americanos não possuem uma quadra de basquete a cada esquina e a Europa é muito mais do que Inglaterra, França, Espanha, Itália e Alemanha.

Eça de Queirós e George R. R. Martin: descrever em excesso pode trazer (má) fama

Dica geral: pense um pouco no público para o qual você vai escrever. Uma criança não tem muito conhecimento de mundo enquanto um adolescente tem mais instrução e um adulto, bastante. Você pode contar com tal conhecimento para que eles fiquem surpresos com suas descrições. Exemplo:

“Marcos estava cansado depois de mais um dia de trabalho. Ao chegar a sua casa, subiu as escadas e se atirou na cama sem nem trocar de roupa”
Qualquer leitor bem entendido vai perceber que a casa de Marcos possui o piso térreo e um andar, onde fica o seu quarto. E um leitor mais jovem ou com pouca prática de leitura? Será que ele não precisa de um pouco mais de descrição de como é a casa, seus cômodos e a localização de cada mobília?
"Se, no início, se disser que da parede pendia uma espingarda,
no meio ou no final, alguém deve dispará-la" Anton Tchekhov.

Pensem nisso.

Obrigado a todos (as).

Sobre o Autor
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.

Contato: davi_paiv@hotmail.com.

3 Comentários

  1. Adorei esse post!
    Com certeza ele vai dar uma mãozinha para aqueles que estão escrevendo um livro.

    Metamorfose Literária

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  2. Olá
    Gostei muito da postagem, cada blog que visito aprendo algo.
    Meu sonho é escrever um livro, mas ainda tenho muito para aprender.

    beijos

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  3. Olá Davi!
    Como sempre gostei das suas dicas. Até já fiz um texto sobre isso.
    Eu sinceramente não sou a maior fã de textos altamente descritivos, acho que torna a leitura cansativa se for em excesso.
    Por conta disso nem eu descrevo muito. Muito difícil eu dizer como é um personagem, prefiro que o leitor imagine do jeito que ele quiser.

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