A Última Carta, David Labs, ilustrações de Casa Rex, 1ª edição, São Paulo-SP:
Biruta, 2012, 140 páginas.
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Assim como tantas mulheres com vidas semelhantes a sua, Luda deveria seguir o destino traçado por interesses familiares e assim perder a chance de viver ao seu próprio modo. Mas uma carta anônima conseguiu balançar os seus desejos, por isso ela passa a se entregar com todas as suas forças a um provável grande amor.

Não duvido do talento de Luda para forjar uma convincente crise de nervos. Tornou-se dissimulada com as experiências, atriz. Inúmeras vezes, desde o início deste livro, me perguntei quando escrevia a verdade e quanto a manipulava em nossas conversas na Rua da Brisa. E, admito, quando mais acreditei em seus relatos foi nos momentos em que tinha certeza de que mentia” (pág. 91).
O provável cenário de uma obra literária muitas vezes é suficiente para despertar a curiosidade. Entre todos os cenários que um dia já me motivaram a iniciar uma leitura, a Segunda Guerra Mundial talvez seja a mais recorrente, mas em nenhum caso anterior aconteceu o mesmo que em A Última Carta, primeiro romance de David Labs.

Apesar da época que se passa a história — meados da década de 40 —, a Segunda Guerra Mundial é um elemento insignificante ao enredo, que tem como foco muito mais o amor e as personalidades dos protagonistas. A história, portanto, poderia se passar em qualquer época ou lugar, por isso o cenário que encantou não necessariamente é o grande diferencial da obra.

O autor paulista David Labs apresenta uma estrutura narrativa bem peculiar. Em um mesmo capítulo, encontramos trechos de um diário, cartas e até mesmo narrativas em primeira pessoa de um narrador misterioso que conhece alguns fatos e imagina como teriam acontecido os demais. Ele é o responsável por contar a história de Luda e faz isso de um modo muito próprio, como um verdadeiro investigador, e é essa estrutura diferente que torna a leitura agradável e de uma rapidez muito significante.

A leitura agradável, no entanto, não é suficiente para que a história conquiste tanto quanto o esperado inicialmente. A verdade é que por mais que tenha uma simplicidade tocante, falta algo que torne tudo mais especial como uma história de amor deve ser. Talvez uma profundidade maior ou simplesmente um amor mais intenso, o que pode não acontecer devido ao estilo narrativo da obra. Uma grande contradição se pensarmos que ao mesmo tempo em que agrada o estilo também é capaz de prejudicar a experiência de leitura.

Mas o grande problema está que em alguns momentos o autor nos leva a crer que algo realmente especial está prestes a acontecer, por isso a expectativa não atendida pode ser decepcionante. O que compensa este fato é a personalidade da protagonista Luda, explorada de um modo diferente do esperado em uma história semelhante. Ela chega a ser fria, muito por causa de um trauma, mas poderia ter muito mais a apresentar — seja para o bem ou não.

A Última Carta pode levar o seu leitor a reflexões, ainda que falte um algo a mais. Falta algo que torne a história de Luda inesquecível, como ela merecia ser, e principalmente que obrigue o leitor a sentir as emoções de Luda como se fossem suas próprias emoções. Se isso não é possível por uma série de fatores, incluindo principalmente a forma como a história é narrada, pelo menos é possível ter em mãos mais um excepcional trabalho gráfico da editora Biruta, dessa vez com ilustrações capazes de causar reflexões de um modo que na teoria seria possível apenas com as palavras.

“Perguntei como era sentir-se apaixonado, e ambos nos levantamos. Jacques aproximou os lábios do meu ouvido e sussurrou que não havia derrota no amor. Para ele, o amor estava presente também na dor e ausência. Nos abraçamos como se aquela fosse a última vez, ou a primeira, depois de uma longa espera” (pág. 115).

6 Comentários

  1. Olá Rick

    A sinceridade na resenha foi tocante, percebe-se que mesmo não sendo um livro que envolva completamente o leitor ele não deixa de envolver, passa a fazer o leitor refletir e viver as experiências da personagens.
    Ainda não tinha lido nenhuma resenha sobre esse livro - não que eu lembre - mas mesmo assim fiquei interessada, ele parece ser uma leitura que eu apreciaria em partes e isso me envolve. Acho que toda leitura é válida, até mesmo aquelas que não se gosta, porque é a partir delas que descobrimos os tipos de livros que gostamos, queremos bem, amamos e inesquecíveis.

    xoxo
    MilaF.
    @camila_marcia
    www.delivroemlivro.com.br

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    1. Olá, Mila.
      O livro realmente consegue envolver de algum modo, por isso recomendo que realize essa leitura, mesmo porque é o tipo de livro que você pode apreciar muito. E como você bem disse, todas as leituras são válidas e todas proporcionam alguma experiência interessante. Não dá para descartar isso.

      Beijos,

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  2. Oi, Ricardo.
    Obras que nos levam à reflexão são sempre muito bem vindas e fiquei encantada com esse livro.
    É difícil porque a Biruta tem tantos livros bons que na hora da escolha para resenhá-lo fica complicado decidir.
    Esse parece impactante.

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  3. De inicio o livro me chamou bastante atenção, mas lendo a resenha vi que não é muito o que eu gosto de ler. Para mim uma história pode ser sim muito simples, mas tem que nos conquistar e nos tocar nesta simplicidade e não sei se é isso que acontece com este livro.

    www.booksever.com.br

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  4. Não sei porque, mas quando olhei a capa pela primeira vez, de forma rápida, pensei que era o Batman hahaha
    Esse livro parece ser muito bom, geralmente livros que nos fazem refletir são bons.

    http://metamorfose-literaria.blogspot.com

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  5. Olá! Não sei se a leitura seria a ideial para mim, mas mesmo assim lendo sua resenha vi que tem um ponto importante e que o livro consegue passar algo reflexivo. Não descarto a leitura por isso mas por enquanto não me parece prioridade ^^

    Beijos,
    Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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