Antes de começar com o tema, gostaria de convidá-los a pensar sobre a seguinte questão: por que as pessoas gostam tanto de ler?

Há várias respostas para essa pergunta. E uma delas é “identificação com o personagem principal ou um dos antagonistas”.

Daí, abrimos espaço para outra pergunta: como criar um personagem com o qual o público possa se identificar?

A resposta é simples: dando características humanas aos personagens!
Galinho Chicken Little: personagem bem definido entre o que pode ou não fazer.
Pense comigo, caro leitor: quais matérias escolares você se dá bem e quais as que menos gosta? Caso já seja formado, quais matérias escolares são úteis no seu emprego? E suas habilidades em se locomover pela cidade onde você mora, arrumar sua casa ou adquirir somente os produtos que precisa a preços acessíveis?

Você é o que é e sabe o que sabe pelas suas oportunidades e escolhas que teve ao longo da vida. E o seu personagem não pode ser diferente. Não é humano. E não importa se ele é um alienígena ou um animal falante de alguma fábula, criamos obras com as quais nos identificamos e esperamos que o público encontre um pouco de si nelas.

A palavra “background” quer dizer “fundo” em inglês. No ramo da escrita, significa o passado do personagem até o capítulo 1 do livro.

Vamos dar um exemplo de uma premissa de um livro/conto/novela, para sermos mais práticos:

“Mauro foi criado na cidade interiorana de Campinhos, sempre acompanhando o pai, Joel, em jogos do time de futebol do Nossa Casa. Na maioria das vezes, a contragosto.
O tempo foi passando e Mauro cresceu e se formou em Jornalismo. Ele mora em um apartamento pequeno na capital e trabalha em um jornal estadual importante onde publica matérias sobre política. Ele não suporta ficar perto de pessoas falando sobre futebol, dado o seu “trauma de infância”.
Sua vida muda ao saber que seu pai está em estado terminal de câncer. Os médicos dão a ele um pouco mais de um ano de vida. O último desejo do velho é ver um livro contando a história do seu time de coração. E ele pede a ajuda de Mauro para escrevê-lo”
Como podemos ver, essa história tem dois personagens (Mauro e Joel) com um objetivo (escrever um livro sobre o time do Nossa Casa) e um obstáculo (o bloqueio que Mauro tem com o futebol). Até aí, nada que eu não tenha ensinado em postagens anteriores.

Agora pensando nos backgrounds dos dois personagens, o que temos?

Nome: Mauro Silveira Reis.
Profissão: jornalista.
Conhecimentos fortes em: técnica de escrita, informática e pesquisa.
Fraco em: informações sobre futebol e relacionamento com o pai.
Nome: Joel Almir Silveira.
Profissão: aposentado.
Conhecimentos fortes em: histórias sobre o time de futebol Nossa Casa, mecânica, jardinagem, elétrica e nome das ruas de Campinhos (ele fora faz-tudo e carteiro da cidade).
Fraco em: informática, escrita de artigos e compreender a raiva do filho (ele levava Mauro para os jogos para eles passarem um tempo juntos).
Pronto. Premissa desenvolvida e personagens definidos.

O que podemos esperar deles?

Se Mauro não sabe nem se relacionar com o pai, podemos dizer que seria um bom namorado/noivo/marido? Talvez, visto que a forma foi criado o ensinou como não ser com uma companheira ou com o filho.

Agora, caso Mauro tenha um filho que queira ser jogador de futebol, acham que ele acompanha os jogos do menino? Pouco provável.

E por último, Mauro vai realizar o sonho do pai com facilidade, sem ficar remoendo uma mágoa enorme ou vontade de rasgar todos os álbuns de recortes de jornais do seu velho? Impossível.

Tudo bem que Joel é um personagem importante para a trama também. E dentro dela, podemos ter mais personagens (amigos/vizinhos/esposa de Joel, editor do livro, diagramador das fotos que serão publicadas no livro, alguma companheira de Mauro, etc.). Contudo, temos de concordar que em uma narrativa, aquele que sofre mais mudanças até o final dela, será aquele em quem o narrador deverá focar mais. Não é preciso criar backgrounds para todos. O que não quer dizer que eles não possam ter suas limitações (se temos Joel como o especialista no time de futebol, essa função não pode ser empenhada pela namorada de Mauro. Ela pode até saber algumas coisas de futebol, porém, não mais que o velho).
Oliver Queen pode ser um lutador melhor que John Diggle.
Mas não é melhor que a Felicity em informática (e carisma!).
Portanto, pensem um pouco sobre o que o personagem de vocês pode executar: é fácil ele aprender táticas de resgate de criminosos de um presídio sendo apenas um nerd viciado em jogos e não um militar? Quem tem mais chances de prestar primeiros socorros adequadamente: um simples pedreiro ou uma enfermeira? Conhecimentos de lei ficam mais adequados com qual personagem: um bibliotecário ou um legista?

Tudo bem que podemos entender de tudo um pouco. Todavia, temos de ser francos e reconhecer que temos pontos fortes em determinadas áreas. E o personagem de vocês não pode ser diferente.

Por enquanto é só.

Obrigado a todos(as).

Nota: saiu concurso da minha antologia. Clique aqui para ver o regulamento e aqui para me adicionar no Facebook e já me informe por inbox que quer participar do projeto.

Sobre o Autor
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.

Contato: davi_paiv@hotmail.com.

6 Comentários

  1. Oie
    Gostei muito da postagem, me deu vontade de aprender maissss. Tenho sonho de escrever algo um dia, mas ainda não tive aquela ideia, sabe?

    Beijos

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  2. Olá Davi,


    Como sempre nos presenteando com informações valiosas, gosto muito de saber mais sobre esses tipos de trabalho...abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  3. Olá Davi!
    Como sempre as suas dicas são maravilhosas e muito elucidadoras.
    E claro, pela minha estrada, um pouquinho grande, como autora, são dos tipos de coisas que eu já sei. Mas eu leio mesmo assim, porque é bom para lembrar e memorizar melhor.
    E a sua maneira de explicar é tão didática. haha
    Beijos!

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    1. Oi, Ane. Beleza?
      Agradeço os elogios. E é legal mesmo fazer esse tipo de "atualização". Eu, por exemplo, gosto de reler os meus livros sobre escrita para me reciclar.
      Abraços.

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  4. Muito bom, Davi! É o primeiro post que eu leio de A Oficina e destaco que gostei bastante dessa iniciativa no blog, fiquei bastante instigada a ler suas postagens anteriores dessa categoria. Eu tinha uma noção superficial sobre Background, na verdade nem sabia que essa palavra estava inserida no mundo literário e na construção de uma história. Aprendi a importância do Background para a formação do personagem e sua conexão com a história. Obrigada!

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    1. Obrigado, Amanda.
      Espero que leia este e outros artigos e continue não só comentando como compartilhando-o com amigos escritores.
      Abraços.

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