Lua, Lobos e Cerrado, André Tressoldi, 1ª edição, Barueri-SP:
Novo Século (Talentos da Literatura Brasileira), 2014, 328 páginas.
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A missão de Josber é auxiliar um grupo de pesquisadores no cerrado mato-grossense. No entanto, o que antes não passava de uma lenda, acaba influenciando diretamente a rotina de Josber e seus acompanhantes, que da noite para o dia são obrigados a enfrentar lobisomens e outras criaturas misteriosas. Sem qualquer resposta que os ajude a compreender o que está acontecendo, eles embarcam em uma aventura capaz de revelar segredos até então inimagináveis.

“Meu coração ficara pesado, me deu vontade de chorar. Sentia-me como se estivesse dentro de um pesadelo sem fim. Algo me dizia: havia alguma coisa de errada com aquela noite. Meu corpo começou a se arrepiar todinho. Tinha a impressão que éramos observados de longe. Ai, que sensação terrível” (pág. 100).
A literatura, assim como toda expressão artística, vive de momentos, porém alguns elementos nunca saem de moda. Esse é o caso dos lobisomens. Embora não seja mais explorado como em anos anteriores, esses seres continuam dando motivos suficientes para um leitor embarcar em uma nova leitura, especialmente quando um autor nacional os explora em um cenário tipicamente brasileiro, como o cerrado.

Em Lua, Lobos e Cerrado, terceiro romance de André Tressoldi, o autor tinha em mãos o que talvez fosse a sua melhor ideia, mas não explorou por completo todas as possibilidades. Ainda no início, a impressão que se tem é que isso acontecerá naturalmente através de Otávio, o mais supersticioso do grupo de aventureiros, no entanto isso não demora a se tornar um grande engano.

Esse pequeno detalhe é rapidamente deixado de lado quando os lobisomens passam a ser tratados com uma originalidade quase sem igual, porém um ponto negativo não demora a se sobressair: o narrador. Josber é talvez o narrador mais chato da nossa literatura nos últimos anos e muito disso se deve a sua insistência em ser engraçado a todo custo. Ele falha em todas as tentativas e, mais do que isso, muitas vezes faz comentários que não agregam absolutamente nada ao enredo. Por isso a chance de agradar é quase irrisória.

Isso poderia facilmente ser relevado quando o enredo chegasse ao seu ápice, mas é justamente nesse momento que a obra perde tudo o que até então despertou a atenção. Ainda que os primeiros capítulos sejam excessivamente longos — repetindo a característica de Tressoldi em Quase Acaso —, eles caminham em alguma direção, o que deixa de acontecer do meio para o final. Os capítulos se tornam monótonos, os diálogos sem qualquer necessidade e os relacionamentos forçados, como se um novo livro estivesse se iniciando.

Não dá parar negar, no entanto, que o autor foi muito feliz na maneira como criou diferentes espécies de lobisomens, cada qual com sua própria característica bem particular. Por isso, uma ideia fantástica não ser trabalhada como poderia de fato acontecer não significa, necessariamente, que ela deva ser descartável. Afinal, em sua obra André Tressoldi prova que um elemento explorado incansavelmente ainda pode reservar surpresas.

Lua, Lobos e Cerrado poderia facilmente ser dividido em duas partes bem distintas. A primeira com mistérios e aventuras para ninguém colocar defeito, ainda que algumas falhas de enredo não passem despercebidas, e a segunda mais lenta, com muitas explicações e pouco dinamismo. Contudo, a possibilidade de uma continuação poderia significar melhorias e um enredo lapidado da forma que realmente merece.

“Nós devíamos estar naquela fase: ou se adaptam ou sofrem as consequências. Sofríamos as consequências; ninguém de nós ainda tinha se adaptado. Também, adaptar-se como? Sendo ajudados por quem não víamos, andando em uma trilha misteriosa e completamente sem chegar a lugar nenhum? Acho que não” (pág. 143).

2 Comentários

  1. Oi, Ri! Tudo bem?

    Bom, essa é a segunda vez que me deparo com esse livro hoje - embora seja a primeira resenha que leio a respeito do que se trata. E não consegui me interessar nem um pouco pela obra, uma vez que, além de carregar muitos pontos negativos (e eu estou numa maré de sorte com leituras que você não faz ideia), tem lobisomens no meio. Não sou muito chegada a eles.

    Boa resenha, garoto. Fiquei com inveja, porque ultimamente não tenho conseguido escrever em terceira pessoa direito. Ando me prejudicando muito por isso.

    Um beijo,
    Doce Sabor dos Livros docesabordoslivros.blogspot.com

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    1. Olá, Jenis.
      Muito obrigado por seu comentário. ;) Como você não é chegada em lobisomens, não posso nem dizer que o livro pode funcionar com você. rsrs O que posso dizer é para que você conheça o trabalho do André pelos livros anteriores. A chance de apreciar é muito maior.

      Beijos,

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