Uma Praça em Antuérpia, Luize Valente, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Record, 2015, 364 páginas.
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O ano de 2000 está apenas começando quando uma senhora resolve abrir seu coração e revelar, para sua neta, uma história que permaneceu guardada apenas na memória desde a Segunda Guerra Mundial. Em seu relato, ela conta a história de uma família portuguesa que enfrentou situações trágicas durante o episódio que marcaria o mundo para todo o sempre, sendo obrigada a cruzar toda a Europa para fugir dos nazistas. Uma fuga que chegaria ao fim apenas em terras brasileiras.

“Theodor perambulou pelas ruas de Berlim, sem rumo. A cidade que o acolhera havia quase dez anos — e que ele amava — não era mais sua. A pátria onde nascera, onde seu pai crescera, o considerava um cidadão de segunda categoria. Em breve, teria sua história roubada” (pág. 68).
Uma Praça em Antuérpia não é apenas um livro para ser lido e relido várias vezes, mas para ser guardado em um altar, assim como merece acontecer com toda obra-prima da literatura. Embora o segundo romance de Luize Valente trate de um tema explorado por vários escritores, existe algo mágico que acaba o colocando entre os melhores livros lidos em toda a minha vida.

A grande verdade é que há tempos buscava um livro brasileiro que unisse técnica e um enredo impecável, porém Luize vai muito além. Sem dificuldade, a história de Clarice, a senhora que abre o seu coração, envolve, encanta e principalmente comove. Cada capítulo tem uma grande surpresa para ser revelada, mas foi o desfecho magistral que coroou um livro brilhante. Simplesmente perfeito.

Se a autora é considerada uma das grandes vozes do romance histórico contemporâneo no Brasil, a confirmação acontece pelo simples fato de retratar toda uma época não apenas como uma escritora de ficção. A impressão que passa com suas palavras é de que vivenciou tudo nos mínimos detalhes. Não bastasse a pesquisa, essencial para que isso fosse possível, ela tem em mãos uma história excepcional e, mais do que isso, sabe como explorá-la.

Parte disso se deve muito a trajetória da protagonista, que enfrenta uma série de obstáculos e situações inesperadas. Amor, amizade, solidariedade e união se transformam em elementos que dão um toque de veracidade, especialmente por surgirem naturalmente, engradecendo a obra como um todo.

E é através de todo o contexto histórico que Luize conseguiu me levar ao passado, em um misto de uma grande aventura e uma aula de história convincente. O resultado é que através de Uma Praça em Antuérpia foi possível conhecer mais do que apenas a vida de judeus perseguidos durante a segunda grande guerra, afinal ter uma família portuguesa como foco revela nuances pouco exploradas em outras obras ficcionais. Além da grande ironia de ver um país, que em um passado distante expulsou os judeus, servindo como único refúgio para esse povo.

Se em outras obras a figura isolada de Hitler é explorada com grande frequência, dessa vez Salazar e Franco, líderes de Portugal e Espanha, respectivamente, ganham o mesmo destaque, sendo retratados como figuras essenciais para o entendimento de tudo que se passa com Clarice e sua família. No fim, personagens reais e ficcionais se encontram, direta ou indiretamente, ressaltando assim o que foi citado anteriormente sobre Luize Valente ser a principal represente do gênero em nosso país.

Falar sobre Uma Praça em Antuérpia exige mais do que uma resenha. Seria necessário explorar com riqueza de detalhes cada personagem, por mais insignificante que possa parecer, além de possíveis debates sobre como um desencontro pode ter consequências trágicas e inimagináveis — algo com que ainda tento lidar. Consequências essas que transformaram a cena final, sensível e emocionante como nenhuma outra, em algo para ser levado até o fim da vida.

“Tocar o levava para outra dimensão, onde o tempo fluía nas notas que ocupavam cada espaço do cérebro. Era o único momento em que não pensava absolutamente em nada. Não havia preocupação, o mundo era simples ou complicado, dependendo do arranjo que ele escolhesse tocar. Era ele quem decidia. Ele estava no controle” (pág. 219).

2 Comentários

  1. Bom dia Ricardo,

    Essa é a primeira resenha que leio desse livro, gosto demais do gênero e como você mencionou um tema explorado por muitos, mas se o autor consegue ainda mostrar algo novo na história merece ser lido....abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Olá Ricardo!
    Adorei a resenha.
    2ºGM é realmente um tema muito explorado, mas sempre com as mesma regiões: Alemanha, polônia, etc.
    Achei legal a proposta de se explorar uma família portuguesa. É diferente! Isso me chama atenção.
    Deve ter sido uma leitura maravilhosa mesmo.
    Beijos!

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