Primavera de Cão, Patrick Modiano, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Record, 2015, 112 páginas.
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Escrever sobre o livro Primavera de Cão apenas algumas horas depois de concluir a sua leitura pode ser um dos meus maiores pecados literários nos últimos tempos. Embora seja um livro simples, a ponto de ter lido em menos de duas horas, a obra do francês Patrick Modiano, ganhador do Nobel de Literatura em 2014, causa a necessidade de uma reflexão que ainda pode durar um bom tempo.

Primavera de Cão faz parte da trilogia essencial da obra de Modiano e, assim como outros trabalhos de sua autoria, tem a óbvia intenção de resgatar sentimentos e memórias de um passado que não apenas o transformou como também o perturba mesmo depois de tanto tempo. Mas antes de refletir sobre os acontecimentos descritos com o decorrer das páginas, é impossível não se perguntar se realmente existe algo que separa a ficção da realidade. A primeira conclusão é que isso não acontece.

No entanto, essa dúvida se deve muito ao estilo narrativo de Modiano. Como um bom livro de memórias, a narrativa é totalmente em primeira pessoa, porém não é o único detalhe. Muito se deve também a própria escolha das palavras. Ao menos no meu caso, as palavras foram responsáveis por me aproximar do narrador a ponto de em dado momento sentir que aquelas memórias, tão significativas para ele, se transformaram em minhas próprias memórias. O que pode ser muito maluco para se pensar.

As memórias em Primavera de Cão giram em torno da amizade entre o narrador e o misterioso fotógrafo Francis Jansen. Assim como acontece com o narrador, o passado também perturba essa personagem e talvez tenha sido o fator mais envolvente durante toda a leitura. Mais do que isso, Jansen é uma personagem da qual podemos esperar tudo e nada ao mesmo tempo, em especial por sabermos desde o início que ele viajou e nunca mais deu notícias.

Para mostrar essa relação de amizade, Patrick Modiano explora o que de melhor existe no cenário utilizado, ou seja, a cidade de Paris na década de 60, porém os sentimentos tomam uma proporção muito maior do que o próprio cenário. Isso acontece conforme se nota a importância e principalmente a necessidade de se contar essa história, por mais simples que possa parecer.

A curiosidade por todas as demais memórias de Patrick Modiano, especialmente aquelas que fazem parte dessa trilogia, apenas cresceu com Primavera de Cão. Seu enredo não é complexo como imaginava, tampouco o mais incrível, contudo desperta algo que muitas vezes considero essencial na literatura: o sentimento de que um livro pode ir muito além de uma simples produção artística.

Amanhã ou depois, quando conseguir finalmente refletir sobre tudo, o mais provável é que esse sentimento se confirme, afinal, nem todos os autores conseguem explorar o interior de suas personagens como Modiano conseguiu em tão poucas páginas. O que definitivamente deve ser sempre reconhecido.

“Mas Jensen, para lutar contra essa sensação de vazio e abandono, havia desejado captar todo o aspecto campestre de Paris: cortinas de árvores, canal, paralelepípedos à sombra de plátanos, pátios, relógio de Saint-Germain de Charonne, escadaria da rue des Cascades… Ele estava em busca de uma inocência perdida e de paisagens feitas para a alegria e a despreocupação, mas onde, de agora em diante, não era mais possível ser feliz” (pág. 100-101).

8 Comentários

  1. Fico contente em ter conhecido esta obra, é bom conhecer outros gêneros e gostos, e ainda por cima acabei ficando bem interessado.
    Acho que pelo fato de você ter escrito esta resenha após ler o livro, daqui alguns dias você vai ler esta resenha e ter vontade de mudar várias coisas hahaha enfim, é a vida. Estamos em constantes mudanças.

    Mas achei um livro bem interessante e que tem muito a nos acrescentar.

    www.booksever.com.br

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  2. Olá Ricardo,

    Essa é a primeira resenha que leio desse livro, achei bem interessante, principalmente essa relação narrador e do fotógrafo, gosto de livros que nos fazem refletir, dica mais do que anotada...abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  3. Oi, Ricardo!
    Eu não acho loucura você mergulhar tanto na história a ponto de misturar as memórias dos personagens com as suas.
    Já fiz muito isso, haha.
    Prova de que o autor soube fazer muito bem o seu trabalho.
    Fiquei curiosa em relação ao livro. Não conhecia ainda, mas pareceu interessante e bem profundo.
    Gostei.

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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    1. Olá, Teca.
      Não posso negar que algo semelhante aconteceu com outras leituras, mas nesse caso foi algo muito mais intenso, acredite. :x Aliás, se tiver a oportunidade de ler o livro vai entender o motivo dessa minha frase sobre as memórias se misturarem. rsrs
      Em todo caso, recomendo a leitura. Pode até não ser uma obra-prima, mas vale a pena. ;)

      Beijos!

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  4. Olá Ricardo!
    Adorei a resenha. E pelas suas descrições do livro, ele vai muito além do que uma simples leitura, é algo bem mais profundo que isso.
    Tenho certeza que ele alcança seu objetivo com as poucas mais de 100 páginas.
    Beijos!

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    1. Olá, Ane.
      Fico feliz que tenha gostado da resenha. ;) É exatamente isso que você citou, por isso, sabendo que o autor alcança o objetivo, recomendo que faça a leitura.

      Beijos,

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  5. Olá Ricardo!
    Parabéns pela resenha. Infelizmente ainda não li nenhum livro do autor mas parece ser uma leitura muito boa que nos faz refletir um pouco certo?
    Parece tipo de livro que nos marca e pela sua resenha fiquei com muita ansiedade e curiosidade de ler o livro.

    Beijos,
    Paula Santos-http://leitoraneurotica.blogspot.com.br/

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  6. Oi Ricardo

    Muito boa a sua resenha, tanto que fiquei interessada em ler o livro. Ainda não li nada do autor e pelo que você escreveu parece ter um jeito especial em sua narrativa que faz o leitor refletir. Gostei da indicação.
    Beijos


    http://simplesmentelilly.blogspot.com.br/

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